Carnaval e cinema

20 fev

Um país carnavalesco como o Brasil não produziu – já notaram? – grandes filmes sobre o Carnaval. (O mesmo se diga do futebol). Seriam estas algumas de nossas contradições antropológicas e culturais…

“Orfeu de Carnaval” (Marcel Camus, 1959), apesar de adaptar Vinicius de Moraes, não é brasileiro, e, aliás, não é grande. Menor ainda é o seu remake, “Orfeu” (1999) de Cacá Diegues. Por sinal, Diegues é um que nunca se deu bem com o tema: desengonçado que nem um falso folião, o filme “Quando o carnaval chegar”, de 1972, é incômodo e ridículo.

E vejam que no começo do século XX, quando o próprio cinema era novinho, o Carnaval, por aqui, prometia vir a ser um tema cinematográfico interessante, a pegar ou largar. Vários documentários da era muda brasileira retrataram essa festa popular. Se você for às fontes, vai se deparar com muitos títulos assim: “Carnaval de…” e nas minhas reticências pode estar, ou o nome de uma determinada cidade, ou o ano das filmagens. Até o precursor do nosso cinema paraibano, Valfredo Rodrigues, no remoto 1923, filmou o “Carnaval da Paraíba e Pernambuco”.

Uma das primeiras películas sobre o tema do carnaval não completamente documental é de 1933, “A voz do carnaval”, de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro, mas, no geral, a coisa ficou por aí, no mero registro dos fatos.

Acho que o grande momento do carnaval brasileiro nas telas ocorreu mesmo com as Chanchadas dos anos quarenta e cinqüenta.

Nessas comédias despudoradas, cheias de números musicais e dança, quando o carnaval não era o protagonista, era quase sempre um delicioso e divertido coadjuvante. Meio ao acaso, aqui cito alguns títulos, que o leitor mais coroa pode completar: “Carnaval no fogo”, “Carnaval em Marte”, “Samba em Brasília”, “Carnaval Atlântida”, “Carnaval em lá maior”, “Bom mesmo é Carnaval”, “É de chuá”, “Garotas e samba”, “Garota enxuta”, etc…

Ideológico e mal humorado, o Cinema Novo Brasileiro empurrou, no começo dos anos sessenta, a Chanchada para o fim do desfile, no que, sem querer, foi ajudado pela novidade da televisão.

Pessoalmente, fui, na infância e adolescência, um curtidor das Chanchadas, único item, confesso, a me desviar um pouco da então fechada hegemonia hollywoodiana. Embora nunca tenha sido folião, acho que, naquele tempo, vi tanto carnaval na tela quanto na rua, já que meu bairro, Jaguaribe, exibia belas festas carnavalescas, com Antônio Leite na Rua Primeiro de Maio, e a família de Metuzael, o Rei Momo pessoense, na Avenida Conceição.

Associando cinema e carnaval, outra recordação que guardo da época com melancolia é de umas matinées dominicais no Cine São José, onde via filmes que nada tinham a ver com carnaval, e no entanto, a música que tocava antes da projeção começar, era não sei por que, invariavelmente na base do “Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon, cadê seus blocos famosos…” Não tenho a menor ideia de quem seria o projecionista, ou o gerente do cinema, mas, engraçado, ele me fazia sentir saudades do que nunca vivi: os velhos carnavais de antigamente.

Enquanto isso, permaneço no aguardo do grande filme brasileiro sobre o carnaval.

Ou ele já passou e eu não vi?

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Oscar – os ignorados

18 fev

Em tempo de Oscar – e independe dos resultados deste ano – vamos falar mal de Hollywood? Sim, porque, ao longo da história do cinema, quem é que não teve/tem a sua decepção com a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas que, em certos anos, deu prêmio a um filme, quando devia ter dado a outro?

Os casos mais escandalosos que lembro são os de 1952 e 1974. Em 52 os indicados “Depois do vendaval” (John Ford), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann) e “Moulin Rouge” (John Huston) perderam para “O maior espetáculo da terra”, filme tolinho e menor de Cecil B DeMille. Já em 74 os ótimos “Todos os homens do presidente” (Alan Pakula), “Rede de intrigas” (Sidney Lumet) e “Taxi driver” (Martin Scorsese) foram derrotados por “Rocky, o lutador” (John G. Avildsen). Pode?

Bem, estes foram injustiçados, mas pelo menos estiveram na lista dos indicados como melhores filmes do ano. Pior é quando nem a indicação aconteceu. Sim, bem mais grave do que o erro na premiação, é o gesto de ignorar, ou seja, o gesto de sequer indicar filmes que tinham qualidade para ganhar.

Em ordem cronológica, segue aqui uma relação de grandes filmes, hoje considerados clássicos em seus respectivos gêneros, que nunca tiveram nenhuma indicação ao Oscar – e vejam bem! – em nenhuma das muitas categorias pelas quais se premiam os melhores do ano.

O primeiro a citar é o belo “Luzes da cidade” de Chaplin (1931), vocês lembram, a comédia dramática sobre uma violetera cega que se cura com uma operação paga pelo mendigo Carlitos.

A impagável comédia “O diabo a quatro” (1933) com os irmãos Marx, é o meu segundo exemplo. No mesmo ano está a fantástica aventura de Merian C Cooper, “King Kong”, sobre o macaco gigante que quase destrói o Empire State Building.

Protagonizado por Claude Rains, e dirigido pelo mestre James Whale, “O homem invisível” (1937) ainda hoje é tido como um dos ótimos science-fiction de terror do século. No ano seguinte, a comédia maluca de Howard Hawks, “Levada da breca” tinha qualidade para competir com os indicados do ano, e não viu nem o azul da indicação.

Outro Chaplin ignorado foi “Tempos modernos” (1935), filme fundante sobre os efeitos do automatismo no trabalho. Idem para “Contrastes humanos” (1941) de Preston Sturges, essa obra prima pouco conhecida do público, talvez pela falta de indicação.

Em 1946, três grandes filmes foram esnobados: o noir “À beira do abismo” (Howard Hawks), o western “Paixão dos fortes” (John Ford) e o drama “Gilda” (Charles Vidor).

Em 1948 foi a vez de “Carta de uma desconhecida” o belo melodrama de Max Ophuls, e “A dama de Shangai”, o suspense misterioso de Orson Welles.

Em 1950 “Winchester73”o western de Anthony Mann passou batido, e em 1953 quem ficou de fora foi o forte drama policial de Fritz Lang, “Os corruptos”.

Em 1955 não deram nenhuma chance a “O mensageiro do diabo”, aquele único filme que o ator Charles Laughton dirigiu com extremo capricho. Em 1956 John Ford ficou no escanteio mais uma vez, com o seu “Rastros de ódio, mais tarde incluído na lista dos dez mais da crítica internacional.

Em 1957, quatro grandes filmes foram ignorados pela Academia, a saber: “A embriaguez do sucesso” (Alexander McKendrick), “O homem errado” (Alfred Hitchcock), “Glória feita de sangue” (Stanley Kubrick) e “Um rosto na multidão” (Elia Kazan), sem coincidência, todos filmes fortes, livremente baseados em situações reais.

Em 1958 foi esquecido o excelente science-ficction de Don Siegel “Vampiros de almas”, como também o drama policial de Orson Welles “A marca da maldade”,em que CharlstonHestontanto investiu, para poder atuar ao lado de Welles. E em 1959 foi a vez de “Onde começa o inferno”, mais um Howard Hawks desconsiderado.

Em 1961 aAcademia teve a petulância de esnobar uma produção que reunia John Huston (diretor), Arthur Miller (roteirista), Montmongery Clift, Clark Gable e Marilyn Monroe: “Os desajustados” (“The Misfits”). No ano seguinte, “Pistoleiros ao entardecer” esse comovente western maduro de Sam Peckimpah bem que poderia ter estado entre os indicados. Um outro western da década de sessenta que não teve uma só indicação foi “Era uma vez no Oeste” (Sergio Leone, 1968).

A homenagem que Woody Allen (roteirista e ator) fez a “Casablanca”, “Sonhos de um sedutor” (1972), tampouco mereceu indicação. Quase ninguém se dá conta, mas “O iluminado” de Kubrick não teve a mais simples indicação em 1980.

E para não estender mais a lista (pois ela é muito maior do que esta) “Era uma vez na América” (1984), essa bela saga da máfia por Sergio Leone foi mais um dos ignorados pela Academia de Hollywood.

Com favoritos muito a frente dos outros, tudo indica que a premiação deste ano será previsivelmente tranquila e sem surpresas, mas isto não nos fará esquecer o passado.

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Era uma vez uma vaca…

14 fev

A estória não poderia ser mais real. Ou devo dizer surreal? Que decida o leitor desta matéria, ou o espectador do filme argentino “Um conto chinês” (“Un cuento chino”, 2011, de Sebastián Borensztein), atualmente em cartaz na cidade.

Na Buenos Aires de hoje, Roberto (Ricardo Darin) é dono de uma velha casa de ferragens, muito pouco procurada. Até porque a sua cara não ajuda. Misantropo, neurótico, sistemático, mal humorado, esse cinqüentão aborrecido costuma se desentender com os eventuais fregueses e nunca tem saco para desculpas.

Nem Mari (Muriel Santa Ana), a mulher que o ama, tem direito ao convívio com Roberto. Houve uma transa entre os dois no passado, mas, Roberto, embora aparentemente também a ame, continua impassível no seu propósito de aguentar a existência sozinho.

Se Roberto não suporta viver com quem ama, imagine com estranhos. Pois o destino lhe prega uma peça. Um dia, por acaso, socorre um jovem chinês que fora assaltado e agredido num taxi, e, sem ter para onde ir, o china – a revelia de Roberto – fica na sua casa. Jun (Ignácio Huang) é um imigrante ilegal que, sem falar uma palavra de espanhol, veio à Argentina no encalço de um tio distante… o qual, para desespero de Roberto, vendeu a casa onde morava e desapareceu – e esse era o único endereço de que Jun dispunha, tatuado na pele.

Jun parece ser uma boa criatura, mas, tê-lo em casa é demais para os nervos de Roberto. As tentativas de livrar-se do hóspede acidental são muitas e nenhuma dá certo; alias, cada uma é mais desastrosa que a anterior. Não vou arrolá-las, e muito menos descrevê-las, pois seria cansativo, tanto quanto o foi para Roberto; basta dizer que elas vão se seguindo num crescendo, até Roberto, estafado e desesperado, dar-se conta de que não há mais nada a fazer, a não ser hospedar esse intruso sem meios de sobrevivência por mais uns tempos, até que ele aprenda espanhol e possa arranjar um emprego e… se mandar.

Como se comunicavam por gestos, Roberto resolve um dia pedir comida chinesa e aproveitar-se do entregador, também chinês, para comunicar-se mais a fundo com o seu indesejado hóspede. É aí que Roberto fica conhecendo a sua estória: deixara o seu país de origem porque, num acidente de barco, perdera a moça com quem ia casar-se.

Faltou dizer que Roberto, esse niilista incorrigível, possui um hábito estranho, talvez nem tanto, considerado o seu temperamento – o de colecionar notícias verídicas mas absurdas que acontecem em todo o planeta. São casos reais cujo completo nonsense funciona, para Roberto, como terapia, como se dissesse a si mesmo: ´a vida é realmente absurda; para que tentar lhe dar lógica?´ Quando Jun lhe pergunta o que é que ele coleciona naqueles álbuns, com fotos e recortes de jornais, Roberto passa a lhe contar algumas das estórias absurdas que recortara. Ouvindo as estórias, Jun alega que para tudo existe uma razão de ser, ponto de vista naturalmente refutado por seu anfitrião e suas estórias veridicamente absurdas.

Como o meu leitor pode não ter ainda visto o filme, prefiro sonegar o surpreendente desenlace, dizendo apenas que tudo tem a ver com uma vaca que caiu do céu. Sim, isso mesmo. E, atenção: lembrando que, malgrado as aparências, aqui, e no título desta matéria que se lê, o filme é baseado em uma notícia rigorosamente verídica!

Entre o tom cômico e o dramático, o filme mantém o espectador atento do começo ao fim. Os personagens, todos eles, são incrivelmente reais, verdadeiros, e nada no filme, em nenhum momento, nos soa forçado – sequer a vaca referida.

E vejam que a situação diegética do hóspede indesejado é bastante velha na história do cinema. Em dado momento (exemplo: quando Roberto empurra Jun para dentro de num táxi e o despacha ao bairro chinês), o filme nos lembra aqueles primeiros momentos de “O garoto” (1921)em que Carlitos– lembram? – tenta, por meios nada edificantes, se livrar do bebê recém encontrado na rua, e até um buraco de esgoto é cogitado como possibilidade.

O que fazer com um intruso que, mesmo sendo do bem, denega o nosso sagrado direito à privacidade? Essa dívida – se é que há uma – para com todos os filmes que já trataram dessa situação diegética e suas eventuais conseqüências filosóficas, ideológicas, morais ou de outra ordem não impede “Um conto chinês” de ser uma obra original, autêntica, verdadeira, extremamente convincente, empolgante, humana e bela. Um exemplar à altura do bom e prolífico cinema que se vem praticando na Argentina de hoje em dia, infelizmente uma cinematografia pouco conhecida de nós, vizinhos brasileiros.

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