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Casablanca setentão

8 fev

Neste ano de 2012 vão se festejar os setenta anos de “Casablanca” (Michael Curtiz, 1942) e a imprensa do mundo deve dedicar páginas e páginas a este filme que é considerado uma unanimidade, sendo preferência, com igual entusiasmo, de público e crítica. Embora o filme só tenha estreado nos Estados Unidos em novembro de 1942 (no Brasil, em dezembro), aqui nos adiantamos aos festejos.

Pois é, e pensar que tudo começou por causa de Einstein, o físico alemão da lei da relatividade. Sim, lá pelos anos vinte, a ideia de que o tempo e o espaço seriam relativos – implicando que isto relativizava tudo mais, inclusive os sentimentos humanos – andou mexendo com os corações e mentes de muita gente boa.

Um deles foi o compositor Herman Hupfeld que resolveu compor uma canção que expressasse a sua indignação para com os supostos avanços da ciência, contrapondo a isso, a eternidade do amor romântico.

A letra da canção, ao menos a mais conhecida, começa dizendo “You must remember this: a kiss is still a kiss…” (´Você deve lembrar-se disso: que um beijo ainda é um beijo…), porém, o original de Hupfeld, em suas primeiras gravações, continha uma longa introdução falada em que se formulava o seu desagrado para com a lei da relatividade. Nela confessava-se que “we get a trifle weary with Mr. Einstein´s theory” (´nos cansa um pouco a teoria do Sr. Eisntein´) e o refrão era sobre o caráter secundário do tempo em relação ao que, na vida do ser humano, mais interessava: o amor entre um homem e uma mulher, e por isso, a canção se chamou “As time goes by” (´enquanto o tempo passa…´). Infelizmente, essa introdução declamada foi, mais tarde, dispensada das novas gravações do disco, mas eu pessoalmente, por sorte, ainda a conheci em um disco de vinil, que, por azar, não possuo mais.

O fato é que a canção fez sucesso nos anos trinta e um dos seus mais fervorosos apreciadores foi um jovem professor secundário, com pretensão de dramaturgo, Murray Burnett, que, por coincidência estava passeando na Europa quando estourou a Segunda Guerra Mundial.

Ora, uma certa noite, estava Murray num cassino de Marselha, sul da França, ouvindo um pianista negro tocar e cantar para uma platéia composta quase toda de refugiados e judeus. Não deu outra: ouvindo a música de Hupfeld, teve a idéia de redigir o esboço de uma peça que girasse em torno dessa situação dramática – refugiados num cassino – com, no meio de tudo, uma grande estória de amor acontecendo, conforme solicitado pela letra romântica da música de que ele mais gostava, “As time goes by”. A mudança do cenário de Marselha para a cidade de Casablanca veio depois.

De volta aos Estados Unidos, Murray, sem condição de encenar, vendeu a peça a empresários do cinema,em Nova Iorque, e sua cópia hibernaria nos arquivos da Warner durante mais de um ano, até ser casualmente encontrada, no começo de 1941, por um caça-talentos da referida companhia.

Com o título de “Everybody comes to Rick´s” (´todo mundo vem ao Rick´s’), a peça em si era fraca, mas a sua básica situação dramática podia render, principalmente naquele momento em que, por causa do ataque japonês a Pearl Harbor, os Estados Unidos se juntaram aos Aliados, e Hollywood, sempre atrás de lucros, se empenhava em produzir “emocionantes filmes de guerra”.

A tarefa de roteirizar a peça de Burnett foi dada a uma dupla experiente, os irmãos gêmeos Julius e Phillip Epstein, autores de roteiros de filmes que haviam dado certo, e mais tarde Howard Koch foi adicionado à dupla. A direção foi delegada ao igualmente experiente Michael Curtiz (de “A carga da brigada ligeira”, 1936, e “As aventuras de Robin Hood”, 1938), o diretor húngaro que nunca aprendeu inglês direito, mas aprendeu cinema e muito bem.

Enquanto o trio trabalhava no roteiro, a produção da Warner Brothers procurava o elenco. Para o papel da bela Ilsa Lund, a primeira contactada foi a atriz francesa Michelle Morgan, que cobrou muito alto, e, afinal, a sueca em começo de carreira, Ingrid Bergman, terminou “fazendo por menos”. Outra pensada, antes de Bergman, foi Hedy Lamarr, que estava sob contrato com a MGM. Para viver Rick, o amargo dono do “Café Américain”, ainda se cogitou de George Raft, e para ser o marido de Ilsa, Victor Laszlo, pensou-seem Ronald Reagan, mas, graças a Deus, a ideia não vingou. A depender do produtor Hal B. Wallis, o pianista do cassino teria sido uma mulher, Ella Fitzgerald.

 Em vista da pressa, as filmagens começaram sem que o roteiro estivesse concluído, e dizem que parte da angústia estampada nos rostos dos dois atores principais, deveu-se à falta de informação em relação aos paradeiros de seus respectivos personagens. No final da estória, Ilsa iria ficar com Victor Laszlo (Paul Henreid) ou com Rick Blaine (Humphrey Bogart)? A própria Ingrid Bergman contaria, mais tarde, que, durante as filmagens, perguntou várias vezes a Curtiz e a resposta foi sempre evasiva.

Esse roteiro frouxo, como se sabe, terminou levando o Oscar do ano, em 1943, e em parte é nele que vou me deter um pouco. (Houve mais dois Oscar, para filme e direção). Nele destaco o diálogo, uma pérola verbal que nos deu algumas das mais famosas falas do cinema, das quais não resisto em citar umas poucas, chamando a atenção do leitor/espectador para pelo menos três ou quatro de suas funções semióticas, especialmente no modo como: (1) introduzem o humor, esse elemento pouco destacado pelos comentadores, talvez por causa do peso dramático da estória; (2) ajudam nas caracterizações dos personagens, muitas vezes e curiosamente, sonegando ao invés de fornecendo informação diegética sobre eles; (3) intensificam o drama e incrementam o nível de expectativa do espectador; e (4) fazem muitas vezes as três coisas acima, ao mesmo tempo.

Assim, relembremos cenas de “Casablanca”.

No começo do filme, Ugarte (Peter Lorre) entrega a Rick, para que ele os guarde, os dois salvo-condutos que vão, mais tarde, ser determinantes no desenlace, ao mesmo tempo lhe perguntando se Rick não estava impressionado com o seu gesto. Deduzindo que os salvo-condutos haviam pertencido a um casal que, dias atrás, fora assassinado em um trem, Rick lhe responde que sim, que está “muito impressionado”. E aqui já fica dada ao espectador a atmosfera moral do ambiente.

 No dia seguinte a sua chegada a Casablanca, o casal Ilsa-Lazslo vai à delegacia, como ordenado pelo Major alemão Strasser (Conrad Veidt). Ao entrar lhes pergunta o delegado francês Renault (Claude Rains) se “dormiram bem?”, ao que Laszlo responde “sim, muito bem”. E o delegado: “estranho, ninguém dorme bem em Casablanca”. E eis que nos dão a atmosfera psicológica do lugar.

Quando Laszlo, na mesma delegacia, alega que gostaria de conversar com Ugarte, o Major Strasser, ao invés de lhe dar uma resposta direta, lhe diz que “o senhor vai achar a conversa um tanto e quanto unilateral”, do que já deduzimos que Ugarte fora liquidado pela polícia. E temos a atmosfera de terror na cidade, conforme um dos personagens já colocara: ´em Casablanca, a vida humana é barata ´.

“Esse barulho são os tanques alemães ou é meu coração batendo?” pergunta a jovem Ilsa, ainda em Paris, no dia da invasão nazista, nisso misturando dois dos eixos temáticos da estória: guerra e paixão. “Os alemães usavam cinza, você, azul”, relembra um Rick ressentido a Ilsa, no Cassino de Casablanca, aliás, operando a mesma mistura temática da fala anterior.

“Nós sempre teremos Paris”, justifica esse mesmo Rick, algum tempo depois, agora no aeroporto, na hora da partida do avião, após ter conhecido a verdadeira estória da relação Ilsa-Laszlo…

Aliás, se o desenlace preocupou os atores durante a filmagem, também preocupa os espectadores, mesmo nas revisitações. E por quê? Porque em Rick – e não apenas em seu gesto final – parece residir o mistério de tudo. Não esquecer que é a ele que é delegada (por Ilsa: “pense por nós dois”, diz ela) a árdua tarefa de resolver todo o imbroglio em que estão metidos. Note-se que tudo o que o espectador sabe de Rick é que ele é “um cara com um passado”, e o filme se fecha sem que esse passado se revele completamente… E é o próprio Rick quem alimenta esse mistério.

Quando, ainda nas primeiras cenas do filme, o delegado lhe pergunta por que ele viera parar em Casablanca, Rick responde que foi por causa da saúde, pois tinham lhe informado que a água do lugar era boa. “Água?” retruca o delegado – “mas nós estamos no deserto!”. “Então eu fui mal informado”, responde Rick, e neste momento, a direção corta para outro plano e outra cena, deixando a reticência como pista

Ao ser indagado pelo Major alemão sobre a sua nacionalidade, Rick responde com uma palavra só: “bêbado”; e ao ler o dossiê alemão de sua vida, que o Major lhe mostra, ele pergunta: “meus olhos são realmente castanhos?”

No entanto, desse passado misterioso de Rick, (digo, o anterior a Paris), sabe-se ao menos que ele lutou na Etiópia e na revolução espanhola, e isto do lado dos desfavorecidos. E mais: se, ao começar o filme, ele é o amargurado egoísta que não arrisca o pescoço por ninguém (“I stick my neck out for nobody” – ele repete a frase várias vezes), ao terminar, é o ser nobre que soube renunciar à amante, entregando-a a um líder da resistência que ele admira profundamente.

Em outras palavras, quando está mal do coração, Rick é um descrente ideológico, quando está bem, sua fé retorna. Ou seja, em sua persona complexa parecem confluir os dois pilares semânticos do filme, a saber, ideologia e amor. O primeiro, crucial no contexto histórico (ameaça nazista, etc), o segundo, crucial – segundo a letra da canção de Hupfeld – em qualquer contexto.

A propósito, sobre o emprego de “As time goes by” como a trilha sonora romântica de Rick e Ilsa, não pode deixar de ser dito que o compositor, arranjador e maestro Max Steiner, contratado para fazer o serviço, nunca acreditou que desse certo, nem que a música valesse alguma coisa. Só depois do sucesso do filme, esse grande compositor, que fez a trilha de centenas de produções hollywoodianas, foi forçado a admitir que estava – quem não sabe? – redondamente enganado.

Recentemente (em 2006) o Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos escolheu, por votação, os dez melhores roteiros de filmes americanos de todos os tempos: não foi surpresa saber que “Casablanca” ganhou o primeiro lugar.

Por outro lado, não resisto em contar esta: nos anos oitenta (1986) fez-se um teste em Hollywood com “Casablanca”. Os autores do teste apagaram o título e os nomes dos personagens e distribuíram cópias do roteiro de “Casablanca” com toda uma gama de jovens roteiristas, executivos, produtores e demais envolvidos nas escolhas dos argumentos a filmar. Resultado: um terço identificou “Casablanca”, mas só um terço. O restante, portanto a maioria, achou que se tratava apenas – pasmem! – de uma estoriazinha datada, com diálogo demais e sexo de menos.

De minha parte, todas as vezes em que revejo “Casablanca” – o que faço com relativa assiduidade – não consigo me desvencilhar daquela sensação incômoda de que os filmes de hoje em dia, por bons que sejam, não chegam nem perto dos filmes de antigamente. Saudosismo? Provavelmente…

Em tempo: a letra que o pianista Sam canta, no filme, difere num pequeno detalhe da gravada em disco. Ao invés de dizer “a kiss is still a kiss”, ele diz: “a kiss is just a kiss” – o que, aliás, me rendeu o título de um livro: “Um beijo é só um beijo” (João Pessoa: Editora Manufatura, 2006).

Um cineclube inominado

5 ago

Foi em fevereiro de 2000 que tudo começou. Eram umas cinco horas da tarde, e eu, lecionando no mestrado, tinha saído da sala de aula e estava conversando com uns amigos na “pracinha da alegria” da UFPB. A semana seguinte seria o feriadão do Carnaval, e entre os presentes, ninguém morria de amores pela festa de Momo e ninguém tinha nada para fazer de especial.
“Por que não nos encontramos para ver filmes?” Fui eu que formulei a frase? Ou teria sido o poeta André Ricardo Aguiar? Ou outro presente na ocasião? Se afirmasse estaria mentindo, pois não recordo, porém, o certo é que a idéia pegou de imediato e, logo, providências foram tomadas para a mostra cinematográfica, com a adesão incondicional de outros interessados, principalmente, o crítico Renato Felix e o fotógrafo cinematográfico João Carlos Beltrão.
Claro que a mostra de cinema (três filmes vistos e discutidos em três dias) não limitou-se a esse carnaval de 2000. O gesto de ver filmes juntos e analisá-los tornou-se regular e esse cineclube espontâneo, itinerante e inominado existe até hoje e esta matéria pretende fazer o seu registro.
Desde então já aconteceram vinte e oito (28) mostras e já vimos, juntos, noventa e nove (99) filmes. Pode não parecer muito para o périplo de dez anos, mas, de fato é, pois nunca nos limitamos a meramente assistir aos filmes: após cada sessão nos entregamos ao debate, que consiste na análise objetiva, aprofundada e rigorosa dos filmes, recobrindo, se possível, todos os seus aspectos formais, conteudísticos e contextuais. De tal forma que considerado o conjunto, a atividade do grupo consiste num curso de cinema que nos demos a nós mesmos, cada um aprendendo e ensinando ao mesmo tempo. Que nos demos a nós mesmos e nos damos, pois a atividade continua.
A casa de João Carlos foi a nossa primeira “sede”, mas o local das sessões tem variado sempre, de acordo com as conveniências dos membros. Também de acordo com estas conveniências, as datas das mostras são previamente escolhidas para cair em feriadões, ou, se for o caso, em fins-de-semana em que todos – ou pelo menos a maioria – estejam disponíveis.
Como são normalmente exibidos três filmes em cada mostra, e como estes filmes têm sempre algo em comum, criamos desde o início, o hábito de dar nomes às mostras. A primeira, por exemplo, chamou-se “Carnaval noir”, uma brincadeira bolada em cima da data e do gênero enfocado; a segunda foi “grandes dramas dos anos cinquenta” e a terceira teve como tema o faroeste.
Uma mostra de título curioso foi a quarta, onde vimos filmes tão diferentes um do outro quanto “Os incompreendidos” de Truffaut, “A esposa solitária” de “Satyajit Ray, e “Laura” de Otto Preminger, ou seja, um “nouvelle vague”, um “filme indiano” e um “noir”. Ora, como, na discussão, veio à tona o fato de que cada um destes filmes fugia ao seu rótulo, chamou-se a mostra de “Me engana que eu gosto”.
Acho que foi a partir deste quarto encontro que optamos por escolher os temas das mostras com antecedência. Nessas primeiras sessões era eu mesmo quem levava os filmes, geralmente escolhas pessoais, e os espectadores nem sabiam o que iam ver. O elemento surpresa era interessante, porém, com o tempo, e para o bem de todos, isso foi modificado, e passou-se a, democraticamente, votar o tema das mostras seguintes, e os filmes cabíveis dentro do tema também passaram a ser votados.
Como o leitor poderá constatar na relação das mostras apresentadas abaixo, os temas escolhidos variam de questões gerais (medo, adultério, prostituta, criança…) a problemas de linguagem ou técnica (metalinguagem, remakes, cinema mudo…) passando pelas obras de diretores ou atores (Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Katherine Hepburn…).
Dessas primeiras mostras participou um número grande de espectadores, porém, nem todos mantiveram a freqüência. O grupo – digamos assim – “hardcore” passou a ser, doravante: eu, Renato Felix, João Carlos Beltrão, Mauro Luna, Fernando Castor, Shirley Martins, André Ricardo, Matheus Andrade, Wellington Modesto, Elysio Junior, Alex Lacerda, Karen Matias, Philio Terzarkis e mais recentemente Cláudio Marzo, embora, claro, ao longo desses dez anos, um número considerável de convidados tenham esporadicamente comparecido, alguns ilustres como o médico e escritor Emanuel Ponce de Leon, cujo contributo foi tão importante.
Nunca houve estatutos, mensalidades, carteirinhas ou livros de presença para esse “cineclube inominado” e acho que se tivesse havido, ele teria se dissolvido em pouco tempo. O fato mesmo de ele não ter nome diz de sua natureza informal, o que, contudo, não quer dizer que não haja regras – e regras rigorosas – que foram sendo estabelecidas e aceitas de forma espontânea e consensual, desde o princípio.
Cito algumas. Uma vez iniciada a exibição do filme, não se permite interrupções de nenhuma ordem: se você tem sede ou quer ir ao banheiro, isto tem que ser feito antes do início do filme, ou depois. Todos os telefones devem ficar desligados, inclusive, o fixo, da residência onde a mostra acontece. Não invente de comer pipoca ou bolacha durante a sessão, pois o barulhinho do papel, ou do mastigado, atrapalha.
Finda a exibição do filme, aí sim, geralmente se servem bebidas com algum tira-gosto, que os convidados trazem ou que o dono da casa providencia. Organizada a mesa, começa a discussão do filme visto, cujo objetivo é a análise, interpretação e apreciação. Não se permitem discussões paralelas sobre outros assuntos que não o filme, e mesmo à discussão do filme não são bem-vindas questões periféricas, do tipo mexericos de bastidores que não sirvam para enriquecer a análise.
Cada um dos participantes tem a sua vez de falar, quantas vezes queira, contando que não interrompa a vez do outro, e, por outro lado, não se espera que alguém permaneça calado, sem nada a dizer sobre o filme. Se, tratando do filme, você porventura usa algum termo (técnico ou teórico) que não seja do conhecimento de pelo menos um dos presentes, você é obrigado a explicar o seu significado. Por exemplo, se você destaca no filme o uso de “plongée”, e alguém na turma desconhece a palavra, você vai ter que interromper o seu argumento para explicá-la.
O cineclube é aberto e os participantes estão sempre à vontade para trazer amigos ou conhecidos para integrar-se ao grupo, e com freqüência fazem isso. Naturalmente, espera-se que o perfil do convidado mais ou menos coincida com o do cinéfilo que quer aprofundar-se na arte cinematográfica.
Lamentavelmente – sou franco em dizer – nem todo convidado novato é aprovado no cineclube. Explico: assim como o cineclube é aberto para aceitar novos sócios, ele também é livre para, estrategicamente, descartar pretensos sócios que, numa primeira participação, já demonstram que não se enquadram no perfil do cinéfilo. Assim, por exemplo, um convidado novato que demonstra não estar interessado propriamente em cinema, mas noutra coisa (seu umbigo, por exemplo) não será convidado para uma próxima sessão. Como as sessões não têm local nem data pré-estabelecidos, a ausência de convite (normalmente feito por telefone ou e-mail) vai, estrategicamente, equivaler a uma dispensa.


Para a curiosidade do leitor, e, se for o caso, também para o seu proveito, apresento, em ordem cronológica, o quadro completo das mostras ocorridas até a presente data. Após as denominações das mostras, faço seguir os títulos dos filmes vistos, com o nome do diretor e ano de lançamento entre parênteses. Como se notará, algumas dessas mostras ultrapassaram o número de três filmes.
CARNAVAL NOIR: “Um retrato de mulher” (Fritz Lang, 1944), “Anjo do mal” (Samuel Fuller, 1953), e “Baixeza (Robert Siodmak, 1949)”.
DRAMAS DOS ANOS 50: “Férias de amor” (Joshua Logan, 1955), “Vidas amargas (Elia Kazan, 1955) e “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951).
WESTERN: “O homem que matou o facínora” (John Ford, 1962), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952) e “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953).
ME ENGANA QUE EU GOSTO: “Os incompreendidos” (François Truffaut, 1959), “A esposa solitária” (Satyajit Ray, 1964) e “Laura” (Otto Preminer, 1944).
METALINGUAGEM: “Salve o cinema” (Mohsen Makhmalbaf, 1995), “A noite americana” (Trauffaut, 1973) e “Splendor” (Ettore Scola, 1989).
BILLY WILDER: “Sabrina (1954), “A montanha dos sete abutres” (1951), “Se meu apartamento falasse” (1960), “Quanto mais quente melhor” (1959), “Crepúsculo dos deuses” (1950).
ALFRED HITCHCOCK: “Sabotador” (1942), “Os 39 degraus” (1939), “Intriga internacional” (1959), “O homem que sabia demais”, “Os pássaros” (1963).
JOHN HUSTON: “O tesouro de Sierra Madre” (1948), “Os desajustados” (1960), “O falcão maltês” (1940).
CINEMA MUDO: “A última gargalhada” (FW Murnau, 1924), “O inquilino” (Hitchcock, 1927), “O circo” (Charles Chaplin, 1927).
KIRK DOUGLAS: “Glória feita de sangue” (Stanley Kubrick, 1957), “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli, 1952), “Sem lei e sem alma” (John Sturges, 1957).
ORIGINAIS E REFILMAGENS: “Nosferatu” (Murnau, 1921) e “Dracula de Bram Stoker” (FF Coppola, 1992); “Ninotchka” (Ernst Lubitsch, 1939) e “Meias de seda” (Rouben Mamoulian, 1957); “Os sete samurais” (Akira Kurosawa, 1954) e “Sete homens e um destino” (J. Sturges, 1960).
WILLIAM SHAKESPEARE: “Henrique V (Kenneth Brannagh, 1989), “Sonhos de uma noite de verão” (Michael Hoffman, 1999), “Otelo” (Oliver Parker, 1995).
CRIANÇA: “Esperança e glória” (John Boorman, 1987), “Filhos do paraíso” (Majid Majidi, 1997), “Ladrões de bicicleta” (Vittorio DeSica, 1948).
MEDO: “Um corpo que cai” (Hitchcock, 1958), “Táxi driver” (Martin Scorsese, 1976), “O iluminado” (S Kubrick, 1980).
WOODY ALLEN: “Noivo neurótico, noiva nervosa” (1977), “Manhattan” (1979), “Hannah e sua irmãs” (1986).
KATHERINE HEPBURN: “Núpcias de escândalo” (George Cukor, 1940), “Levada da breca” (Howard Hawks, 1938), “O leão no inverno” (Anthony Harvey, 1968).
ENNIO MORRICONE: “Os intocáveis” (Brian DePalma, 1987), “Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore, 1989), “Era uma vez no Oeste” (Sergio Leone, 1968).
CURIOSIDADES TÉCNICAS: “Cliente morto não paga” (Carl Reiner, 1981), “A vida em preto-e-branco” (Gary Ross, 1997), “Festim diabólico” (Hitchcock, 1948).
IMPRENSA: “A primeira página” (B. Wilder, 1974), “Todos os homens do presidente” (Alan Pakula, 1976), “Jejum de amor” (H. Hawks, 1940).
UNIVERSOS PARALELOS: “O mágico de Oz (Victor Fleming, 1939), “Almas gêmeas” (Peter Jackson, 1994), “Horizonte perdido” (Frank Capra, 1937).
GÊNEROS EM DESUSO: “O segredo de Berlim” (Steven Soderbergh, 2006), “Silverado” (Lawrence Kasdan, 1985), “Os produtores” (Susan Stroman, 2005).
GASTRONOMIA: “A festa de Babette” (Gabriel Axel, 1987), “Ratatouille” (Brad Bird, 2007), “Simplesmente Martha” (Sandra Nettelbeck, 2001).
PROSTITUTAS: “Noites de Cabíria” (F. Fellini, 1957), “A bela da tarde” (L. Buñuel, 1967), “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1961).
ROUBO: “Butch Cassidy” (G. Roy Hill, 1969), “O grande golpe” (S. Kubrick, 1956), “Rififi” (Jules Dassin, 1955).
TRIBUNAL: “Doze homens e uma sentença” (Sidney Lumet, 1957), “Anatomia de um crime” (Otto Preminger, 1959), “O vento será tua herança” (Stanley Kramer, 1960).
ROAD MOVIES: “Aconteceu naquela noite” (F. Capra, 1934), “Encurralado” (Steven Spielberg, 1971), “Thelma e Louise” (Ridely Scott, 1991), “Sideways” (Alexander Payne, 2004).
ADULTÉRIO: “Desencanto” (David Lean, 1945), “Amor à flor da pele” (Wong Kar-wai, 2000), “Match Point” (W. Allen, 2006).
CURADORIAS: “Clube dos cinco” (John Hughes, 1985), “Pacto de justiça” (Kevin Costner, 2003), “Tarde demais” (William Wyler, 1949), “A viagem do capitão Tornado” (Ettore Scola, 1990).
Como se vê, são filmes de todos os tempos, lugares e estilos.
Inevitavelmente, esses tempos lugares e estilos comparecem à discussão, na medida em que estão ligados à significação do filme, porém, o grande exercício praticado, creio que posso dizer que é mais imanente: consiste na análise do filme em si mesmo, na dissecação de seus componentes estruturais, e na busca da necessária correlação entre conteúdo e forma. Em outras palavras, não queremos apenas saber o que o filme nos diz, mas também, como ele nos diz o que diz.
Embora não necessariamente explicitado, um princípio que sempre guiou o grupo – além do amor ao cinema – foi a objetividade nas abordagens, evitando-se com isso que gosto pessoal, posição ideológica, ou alguma idiossincrasia do espectador, atrapalhe a análise, interpretação e apreciação.
Participando deste “Cineclube Inominado”, aprendi a aguçar a minha capacidade de leitura, e penso que, ao dizer isto, falo por todos os integrantes do grupo.


Concluo com um “em tempo”: por consenso ficou há muito decidido que o centésimo filme do cineclube será “Casablanca” (precisa explicar por quê?), e, como já chegamos ao filme de número 99, no momento, o grupo está pensando na organização de uma sessão especialíssima, que deverá acontecer brevemente, com a devida divulgação..

Em tempo 2: a “Sessão Casablanca” aconteceu no dia 29 de dezembro de 2011, e as duas fotos que ilustram o post mostram alguns dos participantes do Cineclube Inominado, em conversa descontraída, após a sessão e discussão do filme.

O que aconteceu ao cinema?

23 set

De acordo com estatísticas recentes, somente cerca de 2% da população do planeta freqüentam salas de cinema. Considerando-se que esse percentual ultrapassava os 90% na época áurea do cinema – anos 30, 40 e 50 – não seria o caso de se perguntar o que aconteceu ao cinema?

Uma resposta possível pode ser encontrada no livro do historiador americano Edward Jay Epstein, que a Summus editou no Brasil neste ano de 2008: “O grande filme: dinheiro e poder em Hollywood”.

Mas, antes, um esclarecimento: o percentual de 2% citado não indica propriamente o número de pessoas que assistem a filmes no mundo: indica apenas os que o fazem em salas de projeção, pois, bem mais elevado é o percentual de pessoas que vêem filmes em casa, em VHS, DVD, televisão paga, televisão convencional, ou outros meios menos legais.

Na verdade, segundo Epstein, o que aconteceu não foi tanto uma queda no consumo cinematográfico, mas, muito mais, um deslocamento, no caso, das salas de exibição pública, para o recinto doméstico. Usando uma metáfora da Moda, o autor explica que, hoje em dia, as estréias nos multiplexes funcionam como espécies de “desfiles”, preparatórios para o verdadeiro consumo – aquele que efetivamente dará lucro às companhias produtoras: o doméstico.

Como foi possível esse deslocamento? Acho que há duas palavras que podem resumi-lo, embora Epstein não faça uso delas. A primeira é (desculpem o palavrão) eletronicização. Sim, tudo começou com o invento da televisão que, nos EUA, já nos anos quarenta, passou a ameaçar o sistema de estúdios de Hollywood. De início, os donos de estúdios reagiram à ameaça com recursos novos, como o cinemascope, e se recusaram a veicular os seus filmes na telinha. Vencida a batalha financeira pela televisão, os filmes hollywoodianos terminaram indo parar nos aparelhos domésticos. Além de tirar o público das salas de cinema, a televisão sub-nivelava o produto cinematográfico, misturando-o com programas de humor, reportagens, etc.

A situação estava nesse pé quando, da mesma parafernália eletrônica que gerara a televisão, surgiu um novo meio que – pelo menos isso – resguardava a autonomia do cinema: o vídeo-cassete. Com a expansão das locadoras de vídeo, apareceu um novo interesse público pelo cinema, até porque, os acervos das grandes companhias do passado, passaram a ser selados nesse novo formato, e o espectador que tinha visto, um dia, “Casablanca” em cinema, podia agora revê-lo em sua televisão caseira, e podia até comprá-lo. Bem, o resto da estória vocês conhecem, quando o surgimento do DVD veio aperfeiçoar a técnica do registro, e a transmissão via satélite tornou possível, para a televisão paga, um nível de qualidade impressionante.

Segundo Epstein, a distribuição e exibição cinematográficas há muito obedecem a uma lógica impensada nos velhos tempos, que está centrada em uma cadeia de “janelas”. Assim, cronologicamente falando, a primeira janela para os filmes produzidos atualmente é o referido “desfile” nas salas de projeção dos multiplexes; terminado esse desfile, começam os reais lucros, quando eles vão para a segunda janela, as locadoras de DVD; a terceira janela, igualmente lucrativa, são os canais de TV paga; e, finalmente, última janela não menos lucrativa, os canais de televisão convencional. O espaço de tempo entre as janelas é uma média de dois a três meses, do contrário o esquema entraria em colapso.

Uma segunda palavra para indicar o deslocamento da recepção cinematográfica pode ser “infantilização”, que começou em 1936, com o desenho animado “Branca de Neve e os sete anões”. Sim, foi Walt Disney quem primeiro teve a idéia de que muito mais lucro do que um filme realizado e exibido dariam os sub-produtos dele derivados, como bonecos, brinquedos, jogos, guloseimas e parques temáticos. Com o sucesso absoluto dos sub-produtos Disney, as outras companhias começaram a pensar em público infantil (antes, só se pensava em espectadores adultos!) e na possibilidade de estender, e até eternizar, a renda de um filme, através de seus sub-produtos. Que Disney estava economicamente correto, comprova-se ainda hoje quando se vêem crianças brincando, fascinadas, com o boneco do Homem Aranha, ou adolescentes sonhando em conhecer Orlando. Para os exibidores, essa infantilização também implicou um lucro “deslocado”: como se sabe, os donos de cinema de hoje ganham mais com a venda de pipoca e refrigerante do que com a venda de ingressos.

Da segunda metade do século XX em diante, com a queda do sistema clássico de estúdios, as grandes companhias cinematográficas (Columbia, MGM, Paramount, Fox, Warner, Universal, RKO…) foram sendo vendidas a conglomerados multinacionais (alguns completamente estrangeiros, como a Sony), porém, ao contrário do que se pensaria de chofre, não foi este o principal fator que fez o cinema mudar.

Evidentemente, a eletronicização não mudou somente a maneira de distribuir, exibir e formar mercado, mas mudou também a maneira de fazer cinema. Para dar um exemplo único, no filme recente “O gladiador”, as cenas na arena foram realizadas com uma cabeça virtual do ator Russell Crowe, construída em computador a partir de algumas tomadas, cabeça esta colocada nos corpos de mais de noventa dublês, que lutam, na arena do Coliseu, no lugar do ator. O espectador à antiga pode se indagar se isto ainda é cinema, mas não pode mudar a direção eletrônica/cibernética que a arte cinematográfica tomou.

Para Epstein, há duas Hollywoods distintas: a do passado com o seu sistema clássico de estúdios, e a de hoje, completamente eletronizada/informatizada e financeiramente sustentada pela cadeia de janelas acima referido.

Aparentemente nada teria sobrado do passado de glória do cinema clássico, porém, para Epstein, não é bem assim. Por enquanto, por incrível que pareça, a cópia final de um filme – a que sai das companhias produtoras para as salas de exibição – ainda é em celulóide como as de antigamente. E uma coisa curiosa, que não pode deixar de ser mencionada: embora em número menor, cineastas reconhecidos junto à critica e ao público continuam “dando ordens” na produção de um filme, em alguns casos, até mais do que antigamente. E Epstein se dá ao trabalho de relatar como diretores prestigiados como Coppola, Scorcese e DePalma têm mais voz na produção do que um dia tiveram os grandes do passado. Para dizer a verdade, existe – assegura Epstein – um setor dessa Hollywood atual que, em nome do prestígio, pensa em cinema como arte e se dá ao luxo de perder dinheiro com filmes que nem são tão “eletrônicos” nem implicam sub-produtos.

Bem, deve ser esse pequeno setor que ainda faz os filmes a que um público adulto pode assistir hoje em dia, sem pensar em pipocas, refrigerantes, ou brinquedos eletrônicos. Ufa!

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