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Scorsese por inteiro

16 jan

Os fãs do cineasta americano Martin Scorsese vêm de receber um presente da Editora CosacNaify: a publicação brasileira de “Conversations with Scorsese”, do crítico americano Richard Schickel. Em suas 528 páginas de oportuna entrevista, o livro “Conversas com Scorsese” (2011) reconstitui a vida e carreira desse importante cineasta contemporâneo.

O modelo seguido é mais ou menos aquele que está no livro, hoje clássico, “Truffaut/Hitchcock: Entrevistas”. Como no livro de Truffaut, o entrevistador e o entrevistado são amigos e partilham afinidades eletivas; como no livro de Truffaut, a conversa segue uma cronologia rigorosa, e o leitor tem a oportunidade de acompanhar o trabalho do cineasta, de filme a filme, com discussões do processo criativo, influências, entraves, satisfações, decepções, etc…

Para quem está familiarizado com a obra de Scorsese, há coisas surpreendentes, e outras, nem tanto. Por exemplo, o forte sentido autobiográfico dessa obra pode ser uma surpresa aos desavisados. Em várias instâncias, o cineasta faz questão de explicar como temas, enfoques, lances de roteiros, ou soluções plásticas resultaram de seus anseios existenciais mais particulares.

Já as influências declaradas são as esperadas: basicamente, Elia Kazan, John Cassavettes, a nouvelle vague francesa, e o cinema italiano, tanto o neo-realismo, como os ricos anos sessenta. E, interessante, com idênticas motivações autobiográficas. Exemplo: depois de revelar as dificuldades de relacionamento com o pai, Scorsese conclui que “é por isso que “Vidas Amargas” (Kazan, 1955) é um filme tão importante para mim.”

Em momentos repetidos, Scorsese descreve o percurso de sua formação. Tudo começou nos anos quarenta, com o cinema comercial americano – o ruim e o bom – até, início dos sessenta, aparecer o chamado cinema de arte europeu e virar sua cabeça. E de repente, o fã de Ford, Zinnemann e Hawks estava envergonhado de sê-lo, tentando substituí-los pelos Fellini, Truffaut e Bergman da vida.

Mas, a conversa começa com Marty (apelido familiar) ainda pequeno, asmático e frágil, tentando sobreviver na violenta Little Italy, gueto italiano de Nova Iorque, sempre conduzido pela mão fria mas generosa do pai aos cinemas do bairro. Fruto de uma modesta família católica italiana, não deixa de ser comovente ouvi-lo dizer o que o cinema representou na sua vida de criança: “Eu tinha fé quando ia à igreja. E tinha fé quando ia ao cinema” – os dois lugares onde “havia alguma esperança.”

Logo cedo, a sua esperança virou a de fazer aquilo que via: cinema, e, desenhando filmes, sonhou com isso o quanto pôde. Na escola secundária, a Cardinal High School, ainda pensou em ser padre, ou professor de literatura inglesa, mas – confessa – não gostava muito de ler, e justifica: “isto não fazia parte do nosso perfil cultural”. Quando teve que decidir, foi para a Universidade de Nova Iorque fazer o curso de cinema, e no terceiro ano, já estava rodando uns filmezinhos experimentais.

Profissionalmente, Scorsese começou como montador, o que nunca deixou de ser. Depois da incrível experiência de participar das filmagens do festival de Woodstock, foi convidado por Cassavettes para ser assistente de montagem em “Assim falou o amor” (1971). Instrui-se com o mestre Roger Corman para fazer “Sexy e marginal” (1972), e daí, não parou mais. Nem de montar, nem de filmar.

Nos capítulos que enfocam os filmes, o leitor vai ver discutidas questões cruciais, de várias ordens, mas todas instrutivas para se conhecer, não apenas, Scorsese, mas a arte cinematográfica em si.

Se o protagonista de “Taxi Driver” era um psicopata, como se explica a sua heroicização no desenlace? “New York, New York” foi mesmo uma tentativa frustrada de misturar a Hollywood de antigamente com a nova, dosando clima de estúdio com improviso neo-realista? Em que medida foi “O rei da comédia” um filme sobre a decepção decorrente do choque entre sonho e realidade?

“Cabo do medo” teria sido rodado como “puro entretenimento” (sic), e só depois virou o que é, um drama sombrio sobre a dissolução familiar. Em “A época da inocência” será que se sente a associação sugerida entre aristocracia e máfia, ambas com suas regras rígidas, que, de modos diferentes, destroem as criaturas?

Já “Kundun” foi a busca do elemento espiritual, que pudesse sê-lo sem religião. E a seção sobre “O aviador” é uma verdadeira aula sobre o uso da cor no cinema, onde se declara o aprendizado com os velhos filmes de antigamente, daquele tipo “Amar foi minha ruína” (1945).

Obsessões? Várias, uma delas sendo mesmo o perfeccionismo. Mas, a mais caracterizadora de seu estilo talvez seja mesmo a antipatia à trama. “Acho que um dos poucos filmes que eu fiz que tinha uma trama foi “Os infiltrados”. E eu fiz o possível para destruir essa trama”. E explica: “sempre acho que posso fazer um filme de gênero e acabo indo de encontro as suas regras”.

A rigor, o livro não nos faz entender somente Scorsese, mas todo o contexto histórico em que trabalhou; ele, e toda uma geração de jovens cineastas (Spielberg, Coppola, DePalma, Nichols, Penn…) que assistiram a derrocada do Sistema de Estúdios, e passaram a fazer cinema em outro modelo de produção, gerando o que passou a se chamar de Nova Hollywood. Num retrospecto de sua carreira, o próprio Scorsese se auto-define, dentro desse contexto, como: “o sujeito que achou que ia ser diretor de estúdio e se deu conta de que os estúdios acabaram”.

De um ponto não há dúvidas: diferentemente dos antigos diretores do passado, que aprenderam a fazer cinema, fazendo, Scorsese pertence a essa “nova” geração que foi cinéfila antes de ser cineasta. Como ele afirma, comovido: “uma porção de filmes mudou meu jeito de perceber o mundo a minha volta em certos momentos chave da minha vida”.

Coisa que diria de si qualquer cinéfilo, porém…

Um cineclube inominado

5 ago

Foi em fevereiro de 2000 que tudo começou. Eram umas cinco horas da tarde, e eu, lecionando no mestrado, tinha saído da sala de aula e estava conversando com uns amigos na “pracinha da alegria” da UFPB. A semana seguinte seria o feriadão do Carnaval, e entre os presentes, ninguém morria de amores pela festa de Momo e ninguém tinha nada para fazer de especial.
“Por que não nos encontramos para ver filmes?” Fui eu que formulei a frase? Ou teria sido o poeta André Ricardo Aguiar? Ou outro presente na ocasião? Se afirmasse estaria mentindo, pois não recordo, porém, o certo é que a idéia pegou de imediato e, logo, providências foram tomadas para a mostra cinematográfica, com a adesão incondicional de outros interessados, principalmente, o crítico Renato Felix e o fotógrafo cinematográfico João Carlos Beltrão.
Claro que a mostra de cinema (três filmes vistos e discutidos em três dias) não limitou-se a esse carnaval de 2000. O gesto de ver filmes juntos e analisá-los tornou-se regular e esse cineclube espontâneo, itinerante e inominado existe até hoje e esta matéria pretende fazer o seu registro.
Desde então já aconteceram vinte e oito (28) mostras e já vimos, juntos, noventa e nove (99) filmes. Pode não parecer muito para o périplo de dez anos, mas, de fato é, pois nunca nos limitamos a meramente assistir aos filmes: após cada sessão nos entregamos ao debate, que consiste na análise objetiva, aprofundada e rigorosa dos filmes, recobrindo, se possível, todos os seus aspectos formais, conteudísticos e contextuais. De tal forma que considerado o conjunto, a atividade do grupo consiste num curso de cinema que nos demos a nós mesmos, cada um aprendendo e ensinando ao mesmo tempo. Que nos demos a nós mesmos e nos damos, pois a atividade continua.
A casa de João Carlos foi a nossa primeira “sede”, mas o local das sessões tem variado sempre, de acordo com as conveniências dos membros. Também de acordo com estas conveniências, as datas das mostras são previamente escolhidas para cair em feriadões, ou, se for o caso, em fins-de-semana em que todos – ou pelo menos a maioria – estejam disponíveis.
Como são normalmente exibidos três filmes em cada mostra, e como estes filmes têm sempre algo em comum, criamos desde o início, o hábito de dar nomes às mostras. A primeira, por exemplo, chamou-se “Carnaval noir”, uma brincadeira bolada em cima da data e do gênero enfocado; a segunda foi “grandes dramas dos anos cinquenta” e a terceira teve como tema o faroeste.
Uma mostra de título curioso foi a quarta, onde vimos filmes tão diferentes um do outro quanto “Os incompreendidos” de Truffaut, “A esposa solitária” de “Satyajit Ray, e “Laura” de Otto Preminger, ou seja, um “nouvelle vague”, um “filme indiano” e um “noir”. Ora, como, na discussão, veio à tona o fato de que cada um destes filmes fugia ao seu rótulo, chamou-se a mostra de “Me engana que eu gosto”.
Acho que foi a partir deste quarto encontro que optamos por escolher os temas das mostras com antecedência. Nessas primeiras sessões era eu mesmo quem levava os filmes, geralmente escolhas pessoais, e os espectadores nem sabiam o que iam ver. O elemento surpresa era interessante, porém, com o tempo, e para o bem de todos, isso foi modificado, e passou-se a, democraticamente, votar o tema das mostras seguintes, e os filmes cabíveis dentro do tema também passaram a ser votados.
Como o leitor poderá constatar na relação das mostras apresentadas abaixo, os temas escolhidos variam de questões gerais (medo, adultério, prostituta, criança…) a problemas de linguagem ou técnica (metalinguagem, remakes, cinema mudo…) passando pelas obras de diretores ou atores (Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Katherine Hepburn…).
Dessas primeiras mostras participou um número grande de espectadores, porém, nem todos mantiveram a freqüência. O grupo – digamos assim – “hardcore” passou a ser, doravante: eu, Renato Felix, João Carlos Beltrão, Mauro Luna, Fernando Castor, Shirley Martins, André Ricardo, Matheus Andrade, Wellington Modesto, Elysio Junior, Alex Lacerda, Karen Matias, Philio Terzarkis e mais recentemente Cláudio Marzo, embora, claro, ao longo desses dez anos, um número considerável de convidados tenham esporadicamente comparecido, alguns ilustres como o médico e escritor Emanuel Ponce de Leon, cujo contributo foi tão importante.
Nunca houve estatutos, mensalidades, carteirinhas ou livros de presença para esse “cineclube inominado” e acho que se tivesse havido, ele teria se dissolvido em pouco tempo. O fato mesmo de ele não ter nome diz de sua natureza informal, o que, contudo, não quer dizer que não haja regras – e regras rigorosas – que foram sendo estabelecidas e aceitas de forma espontânea e consensual, desde o princípio.
Cito algumas. Uma vez iniciada a exibição do filme, não se permite interrupções de nenhuma ordem: se você tem sede ou quer ir ao banheiro, isto tem que ser feito antes do início do filme, ou depois. Todos os telefones devem ficar desligados, inclusive, o fixo, da residência onde a mostra acontece. Não invente de comer pipoca ou bolacha durante a sessão, pois o barulhinho do papel, ou do mastigado, atrapalha.
Finda a exibição do filme, aí sim, geralmente se servem bebidas com algum tira-gosto, que os convidados trazem ou que o dono da casa providencia. Organizada a mesa, começa a discussão do filme visto, cujo objetivo é a análise, interpretação e apreciação. Não se permitem discussões paralelas sobre outros assuntos que não o filme, e mesmo à discussão do filme não são bem-vindas questões periféricas, do tipo mexericos de bastidores que não sirvam para enriquecer a análise.
Cada um dos participantes tem a sua vez de falar, quantas vezes queira, contando que não interrompa a vez do outro, e, por outro lado, não se espera que alguém permaneça calado, sem nada a dizer sobre o filme. Se, tratando do filme, você porventura usa algum termo (técnico ou teórico) que não seja do conhecimento de pelo menos um dos presentes, você é obrigado a explicar o seu significado. Por exemplo, se você destaca no filme o uso de “plongée”, e alguém na turma desconhece a palavra, você vai ter que interromper o seu argumento para explicá-la.
O cineclube é aberto e os participantes estão sempre à vontade para trazer amigos ou conhecidos para integrar-se ao grupo, e com freqüência fazem isso. Naturalmente, espera-se que o perfil do convidado mais ou menos coincida com o do cinéfilo que quer aprofundar-se na arte cinematográfica.
Lamentavelmente – sou franco em dizer – nem todo convidado novato é aprovado no cineclube. Explico: assim como o cineclube é aberto para aceitar novos sócios, ele também é livre para, estrategicamente, descartar pretensos sócios que, numa primeira participação, já demonstram que não se enquadram no perfil do cinéfilo. Assim, por exemplo, um convidado novato que demonstra não estar interessado propriamente em cinema, mas noutra coisa (seu umbigo, por exemplo) não será convidado para uma próxima sessão. Como as sessões não têm local nem data pré-estabelecidos, a ausência de convite (normalmente feito por telefone ou e-mail) vai, estrategicamente, equivaler a uma dispensa.


Para a curiosidade do leitor, e, se for o caso, também para o seu proveito, apresento, em ordem cronológica, o quadro completo das mostras ocorridas até a presente data. Após as denominações das mostras, faço seguir os títulos dos filmes vistos, com o nome do diretor e ano de lançamento entre parênteses. Como se notará, algumas dessas mostras ultrapassaram o número de três filmes.
CARNAVAL NOIR: “Um retrato de mulher” (Fritz Lang, 1944), “Anjo do mal” (Samuel Fuller, 1953), e “Baixeza (Robert Siodmak, 1949)”.
DRAMAS DOS ANOS 50: “Férias de amor” (Joshua Logan, 1955), “Vidas amargas (Elia Kazan, 1955) e “Um lugar ao sol” (George Stevens, 1951).
WESTERN: “O homem que matou o facínora” (John Ford, 1962), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann, 1952) e “Os brutos também amam” (George Stevens, 1953).
ME ENGANA QUE EU GOSTO: “Os incompreendidos” (François Truffaut, 1959), “A esposa solitária” (Satyajit Ray, 1964) e “Laura” (Otto Preminer, 1944).
METALINGUAGEM: “Salve o cinema” (Mohsen Makhmalbaf, 1995), “A noite americana” (Trauffaut, 1973) e “Splendor” (Ettore Scola, 1989).
BILLY WILDER: “Sabrina (1954), “A montanha dos sete abutres” (1951), “Se meu apartamento falasse” (1960), “Quanto mais quente melhor” (1959), “Crepúsculo dos deuses” (1950).
ALFRED HITCHCOCK: “Sabotador” (1942), “Os 39 degraus” (1939), “Intriga internacional” (1959), “O homem que sabia demais”, “Os pássaros” (1963).
JOHN HUSTON: “O tesouro de Sierra Madre” (1948), “Os desajustados” (1960), “O falcão maltês” (1940).
CINEMA MUDO: “A última gargalhada” (FW Murnau, 1924), “O inquilino” (Hitchcock, 1927), “O circo” (Charles Chaplin, 1927).
KIRK DOUGLAS: “Glória feita de sangue” (Stanley Kubrick, 1957), “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli, 1952), “Sem lei e sem alma” (John Sturges, 1957).
ORIGINAIS E REFILMAGENS: “Nosferatu” (Murnau, 1921) e “Dracula de Bram Stoker” (FF Coppola, 1992); “Ninotchka” (Ernst Lubitsch, 1939) e “Meias de seda” (Rouben Mamoulian, 1957); “Os sete samurais” (Akira Kurosawa, 1954) e “Sete homens e um destino” (J. Sturges, 1960).
WILLIAM SHAKESPEARE: “Henrique V (Kenneth Brannagh, 1989), “Sonhos de uma noite de verão” (Michael Hoffman, 1999), “Otelo” (Oliver Parker, 1995).
CRIANÇA: “Esperança e glória” (John Boorman, 1987), “Filhos do paraíso” (Majid Majidi, 1997), “Ladrões de bicicleta” (Vittorio DeSica, 1948).
MEDO: “Um corpo que cai” (Hitchcock, 1958), “Táxi driver” (Martin Scorsese, 1976), “O iluminado” (S Kubrick, 1980).
WOODY ALLEN: “Noivo neurótico, noiva nervosa” (1977), “Manhattan” (1979), “Hannah e sua irmãs” (1986).
KATHERINE HEPBURN: “Núpcias de escândalo” (George Cukor, 1940), “Levada da breca” (Howard Hawks, 1938), “O leão no inverno” (Anthony Harvey, 1968).
ENNIO MORRICONE: “Os intocáveis” (Brian DePalma, 1987), “Cinema Paradiso” (Giuseppe Tornatore, 1989), “Era uma vez no Oeste” (Sergio Leone, 1968).
CURIOSIDADES TÉCNICAS: “Cliente morto não paga” (Carl Reiner, 1981), “A vida em preto-e-branco” (Gary Ross, 1997), “Festim diabólico” (Hitchcock, 1948).
IMPRENSA: “A primeira página” (B. Wilder, 1974), “Todos os homens do presidente” (Alan Pakula, 1976), “Jejum de amor” (H. Hawks, 1940).
UNIVERSOS PARALELOS: “O mágico de Oz (Victor Fleming, 1939), “Almas gêmeas” (Peter Jackson, 1994), “Horizonte perdido” (Frank Capra, 1937).
GÊNEROS EM DESUSO: “O segredo de Berlim” (Steven Soderbergh, 2006), “Silverado” (Lawrence Kasdan, 1985), “Os produtores” (Susan Stroman, 2005).
GASTRONOMIA: “A festa de Babette” (Gabriel Axel, 1987), “Ratatouille” (Brad Bird, 2007), “Simplesmente Martha” (Sandra Nettelbeck, 2001).
PROSTITUTAS: “Noites de Cabíria” (F. Fellini, 1957), “A bela da tarde” (L. Buñuel, 1967), “Bonequinha de luxo” (Blake Edwards, 1961).
ROUBO: “Butch Cassidy” (G. Roy Hill, 1969), “O grande golpe” (S. Kubrick, 1956), “Rififi” (Jules Dassin, 1955).
TRIBUNAL: “Doze homens e uma sentença” (Sidney Lumet, 1957), “Anatomia de um crime” (Otto Preminger, 1959), “O vento será tua herança” (Stanley Kramer, 1960).
ROAD MOVIES: “Aconteceu naquela noite” (F. Capra, 1934), “Encurralado” (Steven Spielberg, 1971), “Thelma e Louise” (Ridely Scott, 1991), “Sideways” (Alexander Payne, 2004).
ADULTÉRIO: “Desencanto” (David Lean, 1945), “Amor à flor da pele” (Wong Kar-wai, 2000), “Match Point” (W. Allen, 2006).
CURADORIAS: “Clube dos cinco” (John Hughes, 1985), “Pacto de justiça” (Kevin Costner, 2003), “Tarde demais” (William Wyler, 1949), “A viagem do capitão Tornado” (Ettore Scola, 1990).
Como se vê, são filmes de todos os tempos, lugares e estilos.
Inevitavelmente, esses tempos lugares e estilos comparecem à discussão, na medida em que estão ligados à significação do filme, porém, o grande exercício praticado, creio que posso dizer que é mais imanente: consiste na análise do filme em si mesmo, na dissecação de seus componentes estruturais, e na busca da necessária correlação entre conteúdo e forma. Em outras palavras, não queremos apenas saber o que o filme nos diz, mas também, como ele nos diz o que diz.
Embora não necessariamente explicitado, um princípio que sempre guiou o grupo – além do amor ao cinema – foi a objetividade nas abordagens, evitando-se com isso que gosto pessoal, posição ideológica, ou alguma idiossincrasia do espectador, atrapalhe a análise, interpretação e apreciação.
Participando deste “Cineclube Inominado”, aprendi a aguçar a minha capacidade de leitura, e penso que, ao dizer isto, falo por todos os integrantes do grupo.


Concluo com um “em tempo”: por consenso ficou há muito decidido que o centésimo filme do cineclube será “Casablanca” (precisa explicar por quê?), e, como já chegamos ao filme de número 99, no momento, o grupo está pensando na organização de uma sessão especialíssima, que deverá acontecer brevemente, com a devida divulgação..

Em tempo 2: a “Sessão Casablanca” aconteceu no dia 29 de dezembro de 2011, e as duas fotos que ilustram o post mostram alguns dos participantes do Cineclube Inominado, em conversa descontraída, após a sessão e discussão do filme.

O contador de filmes

14 dez

Quem foi que disse que Picuí só dá carne de sol? Essa pequena cidade do interior paraibano, incrustada no seio seco do Curimataú tem outros tantos valores…

Um deles se chama Ivan Araújo Costa, que todos conhecem como Ivan Cineminha, e o apelido não é nada gratuito.

Fã de cinema desde tenra idade, e possuidor de uma memória fabulosa, Ivan é capaz de lhe dar, assim de chofre, a ficha técnica de uma quantidade absurda de filmes, filmes que ele viu ao longo da vida, desde o tempo em que o seu pai era proprietário do “Cine Guarani”, em Picuí.

Por causa desse raro dom mnemônico, Ivan já esteve duas vezes no programa de Jô Soares, e até convidado para o Fantástico já foi.

Mas, estou chovendo no molhado, porque, em João Pessoa e mesmo na Paraíba, todo mundo conhece (ou ouviu falar de) Ivan Cineminha. E se você é cinéfilo, então! Quem é que não já consultou Ivan para tirar uma duvidazinha sobre o elenco de um certo filme antigo, visto 20, 30 ou 40 anos atrás? Eu mesmo já fiz isso várias vezes.

Pois bem, de tanto ir ao cinema, o cinema veio a Ivan.

É que acaba de estrear, no último Fest-Aruanda, o curta-metragem “O contador de filmes”, que tem por assunto ninguém menos que o nosso herói de Picuí.

Realizado pelo cineasta Elinaldo Rodrigues, a partir de um projeto submetido e premiado pelo MEC, o filme “conta”, em breve quinze minutos, a estória de Ivan e sua paixão pelo cinema.

Trata-se de um documentário que não se importa de ser ficcional. Abre-se com uma encenação da infância de Ivan, quando ele vai ao cinema com o irmão menor. Com atores infantis, o filme mostra Ivan criança, de lápis e caderno na mão, anotando, do cartaz na parede, o título do filme que vai ver, enquanto o seu irmão, Tonheco, o apressa que “o filme já vai começar”.

A cena toda é mostrada em pedaços, entre os quais se intercalam momentos do tempo presente: Ivan hoje, com seus 65 anos de curtição cinematográfica e seus cabelos brancos, comprando ingresso no Cine Box Manaíra para ver o filme do dia.

O filme do dia ninguém sabe qual seja, mas, aquele a que Ivan assiste na infância só podia ser “O intrépido General Custer” (“They died with their boots on”, de Raoul Walsh, 1941) e por que? Porque foi este o primeiro filme a que o menino Ivan assistiu. O primeiro a que assistiu e o primeiro que anotou, hábito que nunca perdeu, até hoje.

A partir daí tem-se um longo depoimento do próprio Ivan que, à vontade como sempre está – na telona, na telinha ou na vida real – relata os momentos importantes de sua trajetória de fã.

Quem não sabe fica sabendo como nasceu o apelido, começo dos anos sessenta, nos bancos do Lyceu Paraibano, que Ivan mal freqüentou porque, na hora das aulas, estava sempre no cinema. Ao ponto de uma professora de desenho solicitar uma reunião discente, exclusivamente para conhecê-lo, já que, às quartas-feiras, dia da aula dela, ele nunca comparecia ao colégio.

Na garupa de uma moto (veículo predileto de Ivan), o espectador é transportado ao Picuí de hoje, onde Ivan nos mostra o prédio do antigo cinema do pai, atualmente um prosaico depósito de mercadorias. Com ele, entramos no prédio e somos informados de como era o cinema por dentro, onde ficava a tela, e, curioso, medido com três passos do próprio Ivan, o lugar onde ele sentava porque “queria se sentir perto dos atores, dentro do filme”. Ou seja, somos, desta forma, transportados ao Picuí de ontem.

Ainda nesse Picuí de hoje/ontem, outro momento comovente é quando a produção do filme leva Ivan à casa onde ele nasceu, hoje pertencente a outras pessoas, e que ele não visitava havia mais de cinqüenta anos. Com ele, entramos no imóvel e Ivan, remontando ao passado saudoso, nos aponta, entre outras nostalgias, o local onde dormiam ele e os irmãos, os resquícios desses leitos sendo os armadores das redes, por sorte ainda existentes nas paredes da residência.

Falando de sua vida presente, Ivan nos conta uma prática curiosa. Um grupo de amigos costuma com ele se reunir em algum restaurante da cidade, e um deles, sempre leva uma sabatina, preparada com antecedência, para testar a sua memória cinematográfica. Ele não diz, mas o grupo referido são os “cinéfilos do Ponto de Cem Réis”, academia fundada pelo professor e intelectual Silvino Espínola.

“Em que filmes trabalhou a grande coadjuvante do cinema americano Thelma Ritter, nos seguintes anos?” Ivan vai respondendo e os presentes, com as respostas nas mãos, vão conferindo, deslumbrados.

Um detalhe dessas reuniões de cinéfilos é que um dos membros, o juiz Gustavo Urquiza, sempre brinda os presentes com belas execuções, ao piano, de músicas de cinema, e a escolhida para constar de “O contador de filmes” foi a deslumbrante “Por una cabeza”, do filme “Perfume de mulher”.

Tudo isso e um pouco mais está no filme de Elinaldo Rodrigues. Digo um pouco porque não deve ter sido fácil para a direção imprensar em 15 minutos toda a estória de Ivan Cineminha.

Na verdade, o hábil diretor quis fazer caber pelo menos três temas entrecruzados e interdependentes: a figura ímpar de Ivan, a estória dos velhos cinemas de interior, e a força do cinema sobre o espectador de qualquer tempo. Para tanto, o filme está repleto de colagens onde se misturam as três temáticas.

Exemplos: quando o antigo operador do cinema picuiense se refere à preferência do público pelos filmes de Tarzan, vemos o próprio articulando o seu grito famoso. Para cada resposta correta de Ivan à sabatina, temos uma cena do filme em questão. Quando, em Picuí, Ivan nos mostra a fachada do antigo Cine Guarani, esta imagem, em sobreimpressão, se mistura a imagens cinematográficas que trazemos na memória: Carlitos manipulando talheres, Janet Leigh sendo morta no banheiro de “Psicose”, os motoqueiros de “Easy Rider” em plena estrada, o garoto de “Cinema Paradiso” de carona na bicicleta do padre… E claro, tudo isso ao som do “Danúbio Azul” de Strauss que, segundo Ivan, era a música que tocava no cinema de seu pai, antes de a projeção começar.

“Nunca passou pela minha cabeça me formar em cinema, ou ser cineasta, ou montador, ou mesmo ator, mas, um simples espectador, que ama o cinema” – nos confessa um Ivan comovido na sua fala final. O que ele não disse é o que sabemos: que ele não é um simples espectador, mas um especialíssimo.

Em suma, o mal do filme de Elinaldo Rodrigues é ser curto, e, pela dimensão, não corresponder à incomensurável memória cinematográfica de Ivan Cineminha.

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