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No cinema, com Marcus Vinicius

3 abr

Desde sempre, filme e música foram coisas inseparáveis. Quando ainda mudo, o cinema não dispensava o pianista que, diante da tela, improvisava feito louco, para fazer a melodia corresponder ao movimento das imagens.

Quando o som pôde ser adicionado à película, o invento foi saudado como a coisa que faltava. E logo a música – e não apenas a voz humana, ou os ruídos – passou a ser parte integrante da narrativa fílmica.

Hoje e há muito, ninguém concebe um filme sem música, a não ser os casos especiais dos silêncios eloqüentes.

E a música pode estar no filme de tantos modos diferentes. Pode nem ter sido composta para ele, e ser “comprada” e incorporada. Pode ter sido encomendada para o filme e, mesmo assim, possuir autonomia temática e uma estrutura completa, com começo, meio e fim. O mais comum, no entanto, é que seja composta de modo mais pontual, a partir de cada cena, variando o seu andamento de acordo com o andamento do enredo, às vezes os segmentos individuais sendo bem diferentes uns dos outros.

Esta introdução sobre música no cinema é somente para poder falar de um dos músicos brasileiros que admiro. Refiro-me ao compositor e maestro Marcus Vinicius de Andrade que, com seu talento e sua criatividade, vem dando uma contribuição notável à cinematografia nacional.

Quem quiser avaliar o excelente trabalho de Vinicius no cinema que veja, ou reveja, filmes como “A hora da estrela” (direção de Susana Amaral) “A próxima vítima” (João Batista de Andrade), “A volta do filho pródigo” (Ipojuca Pontes), “Pedro Mico” (I. Pontes), “O país de São Saruê” (Vladimir Carvalho), “O evangelho segundo Teotônio” (V. Carvalho), “Barra 68” (V. Carvalho”, “Uma questão de terra” (Manfredo Caldas), “Negros de cedro” (M. Caldas), “O romance do vaqueiro voador” (M Caldas), todos estes, casos em que a música, não é apenas impressionantemente apropriada ao desenrolar da trama ou ao aprofundamento do drama, mas, um fator a tornar o filme memorável, porque ela mesma – em que pese a sua inevitável dependência diegética e eventual segmentação – memorável.

Por estas trilhas sonoras, Marcus Vinicius recebeu vários prêmios, nacionais e internacionais. Somente pela trilha musical de “A hora da estrela” foram três: o de melhor música no Festival de Cinema de Brasília (1985), idem no Festival do Cinema Latino-americano de Havana (1986), além do prêmio Governador do Estado (São Paulo, 1986).

Nascido em Recife, e há muito residente em São Paulo, Marcus Vinicius passou a sua juventude na capital paraibana, onde participou intensamente da vida cultural da cidade. Nos meios literários locais, o seu nome sempre vem à tona com referência ao revolucionário “Grupo Sanhauá”, mas, na verdade, a militância pessoense de Marcus Vinicius foi além da poesia. Nos bancos da Bambu, e noutros bancos, pontificou com conhecimento de causa sobre arte e cultura e nisso foi uma espécie de mentor para muita gente boa, inclusive, para mim.

Final dos anos sessenta, aos dezenove anos de idade, Marcus Vinicius deixa João Pessoa e vai para o Sul do país, em busca de um espaço maior para o seu tirocínio e o seu gênio. E encontra.

O seu currículo é vasto demais para ser aqui levantado, porém, lembremos apenas que foi, no Rio de Janeiro, professor de orquestração e análise musical no Instituto Villa-Lobos, e de instrumentação e orquestração na Faculdade de Música do Instituto Musical de São Paulo. Tem ocupado cargos da mais alta relevância no setor musical, no país e fora, sendo atualmente presidente da Associação de Músicos Arranjadores e Regentes (AMAR), entidade administradora dos direitos autorais dos nomes mais representativos da MPB. Por sua contribuição à música, foi biografado na História da Música Popular Brasileira, publicação da Abril Cultural.

Conheci Marcus Vinicius no Lyceu Paraibano e depois, a conselho do professor Jairo Guedes, estudamos juntos no Curso Colegial Artístico, ali na Duque de Caxias. Logo me chamou a atenção aquele baixinho que discutia com os professores em pé de igualdade, e, em alguns casos, em pé de superioridade. Lembro de um embate sobre a estética de Augusto dos Anjos, com o professor Serafim, que ultrapassou o retângulo da sala de aula e ficou na história do Curso Clássico do Lyceu.

Gostava de sua companhia e lhe tinha afeto, porém, confesso que nunca me senti completamente à vontade com ele: embora fosse ele mais novo, sabia que estava na presença de uma pessoa bem mais informada e dotada que eu, e, na minha timidez, tinha receio de dizer tolices e passar vergonha. Preferia ficar calado e ouvir, e Marcus Vinicius sempre tinha muito a dizer.

Lembro que foi dele que, pela primeira vez, ouvi falar do “Ulisses” de Joyce, um romance – me explicava, vibrando com a ideia, nas calçadas do Lyceu, entre uma aula e outra – que re-narrava a longa aventura do herói homérico em um só dia e lugar. Obedecendo às palavras de ordem da época, eu me via enfronhado nos obrigatórios catecismos marxistas, quando, de repente, ele me introduziu à filosofia de Kiekergaard e eu quase pirei. Nessa época, eu já devorava tudo que era de livro sobre cinema, e, no entanto, era Marcus Vinicius quem me falava do neo-realismo italiano, como se fosse parente próximo de Roberto Rosselini. Que outra alternativa tinha eu, se não  ficar encantado?

Quando Marcus Vinicius deixou a Paraíba, perdi-o de vista e, atolado em salas de aula, agora como docente, não pude acompanhar sua brilhante trajetória profissional.

Até que um dia, duas décadas adiante, vou à estréia local do filme de Manfredo Caldas “Uma questão de terra” (1988) e me impressiono com a trilha sonora. Sobre o assassinato da líder popular Margarida, o filme é impactante pela temática, mas, – senti – tinha algo transcendente à sua condição documental e política: era a música, sem coincidência, premiada (soube mais tarde) no Festival de Cinema de Brasília.

Para minha agradável surpresa li, nos créditos do filme, que a composição era de Marcus Vinicius, e, desde então, fiquei atento ao seu trabalho cinematográfico e fui descobrindo, agora sem mais surpresas, a sua providencial e fértil participação musical em filmes paraibanos e nacionais.

Como a Paraíba nunca o esqueceu, Marcus Vinicius tem sido, com relativa frequência, convidado a dar palestras e/ou oficinas, nos Fenarts da vida e noutros eventos locais, o que, para minha alegria, permitiu que retomássemos o contato. Sua última visita foi ao I Salão Internacional do Livro, onde proferiu palestra sobre direitos autorais.

Claro que Marcus Vinicius não compôs só para cinema. É autor de três belos CDs (“Dédalus”, 1973; “Trem dos condenados”, 1976; e “Nordestino”, 1979) e trabalhou, compondo, orquestrando ou produzindo discos, com meio mundo de cantores e compositores brasileiros, como: Nara Leão, Belchior, Paulinho Nogueira, Arthur Moreira Lima, Radamés Gnattali, Guerra Peixe, Maurício Tapajós, MPB-4, Alceu Valença, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, e tantos outros.

Como compositor, apresentou-se em países estrangeiros (de Angola aos Estados Unidos), tendo sido o representante brasileiro no Festival da Canção Popular, na Alemanha, em 1985.

Também compôs e fez direção musical de peças de teatro tão importantes quanto: “Calabar” (Chico Buarque e Ruy Guerra, direção de Fernando Peixoto), “Pegue e não pague” (Dario Fo, direção de Gianfracesco Gaurnieri), e “O burguês ridículo” (Molière, direção de Guel Arraes). Em 2000 recebeu o Prêmio Shell do Teatro Brasileiro pela música da peça “Turandot”, de Bertolt Brecht, direção de José Renato.

Mas é para o seu trabalho no cinema que chamo a atenção do leitor, entre outras razões porque a “música cinematográfica” requer um tipo raríssimo de talento, praticamente sem tradição no país – um talento que Marcus Vinicius parece esbanjar quando, feito o antigo pianista do cinema mudo a que me referi na abertura desta matéria, se põe diante da tela com a missão sublime de produzir música.

E um “em tempo” que não poderia faltar: não sei se ainda disponível para o consumo, mas, em 1997 Marcus Vinicius de Andrade providencialmente reuniu a sua produção musical para cinema no CD duplo “Música do Cinema Brasileiro” – um belo e imaginativo apanhado de trilhas que faz com que nos sintamos “no cinema, com Marcus Vinicius”.

Garoto de cinema

7 ago

Visceral é o mínimo que pode ser dito da relação entre Vinicius de Moraes e o cinema, relação esta que começou na infância e nunca terminou; digo, na infância do poeta, e na infância do cinema, quando este era mudo, fase da arte cinematográfica tão importante para Vinicius que, pela vida inteira, a defendeu como a mais autêntica, a melhor, a insuperável.

O som chegou ao cinema em 1927, mas isto na distante Hollywood, de forma que só lá pelos dezoito anos começaria Vinicius a ter contato com filmes sonoros, ou seja, sua primeira intensa e decisiva formação cinematográfica foi realmente com o cinema mudo. O som, segundo o poeta, veio comprometer a “autonomia da imagem” que, em si, já era suficientemente poética.

De qualquer forma, o som não obstaculou a vivência cinematográfica de quem poderia muito bem ser chamado de “garoto de cinema”: em 1936, aos 23 anos de idade, já vamos encontrar Vinicius trabalhando no Ministério da Educação – infelizmente como “censor cinematográfico”. Em 1941 já iniciava a sua carreira de crítico, no jornal “A Manhã”, estendida até os anos cinqüenta no jornal “Ultima Hora”.

A fama de poeta e compositor de alguma forma apagou a prolífera e interessante militância de Vinicius como crítico cinematográfico, conhecida de poucos, não fosse o testemunho que dela faz o livro “O cinema de meus olhos” (Companhia das Letras, 1991), reunindo uma seleção de seus textos – organização de Carlos Augusto Calil.

Nesse livro se lê o cinéfilo apaixonado que discorre sobre assuntos tão díspares quanto – dois exemplos bem típicos: (1) a importância da realização cinematográfica de Charles Chaplin, ou (2) a figura de carne e osso do freqüentador de cinema que perturba a projeção fazendo barulho ao meter os dedos no seu saco de pipoca.

Para relembrar a relação de Vinicius com o cinema, aqui retomo três matérias já veiculadas por este mesmo Correio das Artes, comentários críticos de três filmes, sendo duas adaptações de sua peça “Orfeu da Conceição” (1956) e o documentário que à sua pessoa dedicou o cineasta Miguel Faria Jr.

 

(I)

 

Curiosa é a selagem em DVD de um filme histórico como “Orfeu do carnaval” (“Orphée nègre”), Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1959. Digo curiosa porque, o espectador que o vê agora, ou se for o caso, o revê, tem a oportunidade de constatar, em que pese ao prêmio, a sua ostensiva má qualidade.

Dirigido, no Rio de Janeiro, pelo francês Marcel Camus (nada a ver com o escritor), o filme tinha, na verdade, uma boa origem, que era a peça do nosso Vinicius de Moraes, “Orfeu da Conceição”, recontando o trágico mito grego em linguagem e cenário brasileiros. Se vocês adicionarem ao texto de Vinicius toda uma trilha sonora com canções de Luiz Bonfá e Tom Jobim, na voz de Agostinho dos Santos (“Tristeza não tem fim, felicidade, sim…”, lembram?), vão ter realmente boas expectativas, lamentavelmente não correspondidas.

Tudo se passa durante o carnaval carioca. Mocinha do interior, recém-chegada da roça, Eurídice é acolhida pela prima Serafina em seu pobre barraco do Morro da Babilônia. Motorneiro dos bondes da Lapa, Orfeu gasta seu tempo de folga tocando seu violão — como acreditam os moleques vizinhos que o admiram — para fazer o sol nascer. Noivo de Mira, vira a casaca logo que conhece Eurídice, mas o amor à primeira vista não dura mais que um carnaval, conforme sustenta a letra da canção já citada. Perseguida por um folião em trajes de caveira, Eurídice é morta. Orfeu vai em busca de sua alma num terreiro de umbanda, mas a perde para sempre quando (mesmo avisado) olha para trás durante a manifestação.

Os problemas do filme começam com a adaptação do mito grego à realidade brasileira, que deve ter dado certo no palco, porém, na tela nem tanto. Para o espectador que não conhece esse mito, o enredo fica obscuro, e, por exemplo, a figura do folião que mata Eurídice é um mistério diegeticamente inexplicado. Acho que mesmo para quem conhece o mito, a falta de explicação incomoda, e este não é o único problema num filme cheio de gritantes improbabilidades.

Uma delas é a razão pela qual Orfeu, já claramente interessado em Eurídice, consente em que Mira compre o anel de noivado, porém, a mais incômoda de todas as improbabilidades do filme é de natureza antropológica, consistindo num erro de continuidade cultural injustificável. Vejam bem, no dia do desfile da Escola de Samba, a foliã  fanática que é Serafina (sem comida em casa porque investiu sua grana toda na fantasia que vai usar) empresta a fantasia à prima Eurídice, que acabou de conhecer, e, efusivamente, abdica da participação no desfile, sem mais nem menos. Ora, os europeus que premiaram o filme podem ter achado isso natural e necessário para o andamento da estória (Orfeu e Eurídice desfilando juntos), contudo, duvido que algum espectador do “país de carnaval” tenha engolido essa manobra de roteiro.

A narração é mal conduzida (para que servem aquelas brigas amorosas entre Serafina e seu companheiro?) e sempre interrompida, ou prolongada, por cenas musicais que não se encaixam, ou por longas panorâmicas turísticas do horizonte carioca, sem função dramática. Os personagens são rasos e convencionais e, para piorar, a direção de atores é desastrosa: Orfeu (Breno Mello) e Eurídice (a americana Marpessa Dawn) trocando juras de amor parecem insuportavelmente teatrais.

Acho que o mais desagradável exemplo de má condução de personagem acontece com a atriz Lea Garcia (Serafina) que, supostamente para passar a impressão da alegria de viver do habitante do morro, está sempre agitando o corpo todo de um modo desencontrado, os braços subindo e descendo, o tronco se contorcendo, a cabeça girando para todos os lados, os olhos arregalados ou subitamente fechados, lembrando uma marionete que estivesse sendo manuseada por mãos inábeis. Naturalmente, essas mãos são do diretor Camus, com suas idéias francesas sobre o extravagante comportamento brasileiro.

Em canções brasileiras dos velhos tempos, vocês lembram, o morro era feliz e ficava “pertinho do céu”. Em Orfeu do Carnaval essa idéia ingênua, em que pese à presença do inferno no mito adaptado, é mantida e a vida dos personagens ou é carnavalescamente eufórica ou simplesmente idílica. Ainda que se aceite essa idealização como uma exigência do gênero do filme (estória de amor, embora amor trágico), ela tem implicações na estrutura narrativa e psicológica. Por exemplo, pode soar “lírico’ (termo freqüente na crítica européia) os garotos acreditarem que Orfeu é realmente capaz de fazer o dia raiar, tocando sua viola, mas, francamente, do jeito que está encenada no filme, essa crença parece mais debilidade mental que outra coisa.

O elogiado (pelos europeus) epílogo, com um dos garotos assumindo o lugar de Orfeu no uso demiúrgico da viola, pode ter soado poético na época: hoje é esquemático e pedagógico, no mau sentido da palavra.

Confesso que fiz esforços para agüentar o filme até o fim. O único fator a justificar a revisitação, proposta na selagem em DVD, seria o interesse histórico. De fato, não deixa de ser curioso remontar, pela ótica deslumbrada de um estrangeiro, ao Rio de Janeiro de 1959, quando, antes disso, essa mesma cidade aparecera duas vezes na ótica realista de um brasileiro, Nelson Pereira dos Santos, em Rio 40 graus (1955) e Rio zona norte (1957), filmes precursores do Cinema Novo que, estes sim, bem poderiam estar selados.

 

(II)

 

Fico pensando se não foi por pura solidariedade profissional que os críticos e cineastas brasileiros elogiaram, de forma tão franca, o filme “Orfeu” de Cacá Diegues (1999), alguns chegando a falar de poesia a propósito dessa badalada produção.

Ora, poesia houve um dia em “Bye bye Brasil”, mas isso faz tanto tempo… Quem se influenciar pela intensa promoção que o filme vem tendo, inclusive no precioso espaço da televisão, e julgar que vai assistir a um grande filme, na verdade, tem tudo para se decepcionar. E, por falar em promoção, também fico pensando se um elemento que vem atrapalhando a inspiração de Diegues não seria justamente essa intenção de fazer cinema para exportar, com a necessária “pasteurização” para turista consumir, elemento tão visível no seu “Tieta” (1996).

De uma maneira ou de outra, o fato é que o resultado final desse “Orfeu” dificilmente convence enquanto cinema. Defeitos e problemas é que não faltam, mas basta citar um único para dar a medida do descompasso. Refiro-me ao talvez mais óbvo, a saber, a interpretação do cantor Toni Garrido no papel-título, tão péssimo ator que sua presença na tela soa como “erro de continuidade’.

E para piorar, o cantor de “Cidade Negra” não só é mau ator, como está incrivelmente mal dirigido: quem viu o filme sem a boa vontade dos profissionais do ramo, ou sem a influência do advertisement, deve ter se escandalizado com a eternamente impecável indumentária de Garrido, que passeia pelo cenário sujo das favelas cariocas, como um “superstar” ao meio da imundície circundante, sem nunca se amarrotar ou perder o brilho da roupa. À parte e acima das implicações do roteiro, o ator, muito mais do que o personagem, desfila seu charme como um recado insinuante aos fãs que pagaram ingresso por causa de sua imagem.

Além desse merchandising nada discreto, a figura do personagem, ela mesma, não funciona muito bem. A intenção de se fazer dele um verdadeiro galã, por quem todas as mulheres se apaixonam perdidamente, e que, no fundo, não ama ninguém, pelo menos até encontrar a sua Eurídice, no filme parece mal trabalhada, meio exagerada, e, ao invés de ganhar a qualidade trágica das fontes adaptadas, remete muito mais às convenções hollywoodianas do “grande amante”, daquele tipo que Humphrey Bogart, ou William Holden, ou Rock Hudson, fizeram em tantos filmes.

Aqui e acolá há momentos aproveitáveis e soluções interessantes, como a transformação da mitológica “descida aos infernos” na descida literal de Orfeu, montanha abaixo, até o local onde fora jogado o corpo de Eurídice, um depósito de lixo. Com certeza, se o filme, desde o início, tivesse conseguido envolver emocionalmente o espectador no caso Orfeu-Eurídice, o paroxismo da cena final, com todos aqueles retardamentos, repetições e circunvoluções em torno do motivo, poderia ter arrancado, se não lágrimas, ao menos entusiasmo com o show de mise-en-scène. Mas não.

Como é sabido, o mito clássico do apaixonado que desce aos infernos em busca da amada morta, já fora abrasileirado pela peça de Vinicius de Moraes, “Orfeu da Conceição” (1956), a qual, por sua vez, virou filme nas mãos do francês Marcel Camus, “Orfeu de Carnaval” (1959), sem tampouco a felicidade esperada, apesar dos muitos prêmios para o filme de Camus. Distribuído pela Warner e, portanto, com previsão de carreira internacional, o filme de Diegues fecha, por enquanto, o círculo do processo adaptativo sem acrescentar praticamente nada.

 

(III)

 

Poesia, música e cinema, tudo junto, eis a receita do filme “Vinicius”, do cineasta Miguel Faria Jr, lançado em 2005 e disponível em DVD.

Semi-documentário amoroso sobre o nosso querido poeta e compositor Vinicius de Moraes, concebido e realizado com carinho e extremo bom gosto, o filme de Faria Jr tem tido boa resposta de público, pelo menos de um certo público.

Composto de depoimentos de amigos, parceiros e parentes de Vinicius, performances musicais e poéticas, algumas encenações, e registros de época em fotos e películas, o filme corre com agradável fluência, todo amarrado por uma linha narrativa que fica nas vozes e caras dos atores, ótimos, Camila Morgado e Ricardo Blath.

A propósito das recitações de Morgado, devo dizer, antes de tudo, que, pela primeira vez no cinema, pude sentir nos meus ouvidos de espectador a beleza sonora da “última flor do Lácio” (o velho Bilac tinha razão!). Já do ponto de vista plástico, um dos momentos altos do filme está na encenação do poema “Balada do Mangue”, onde, num prostíbulo decadente, prostitutas semi-nuas se oferecem ao espectador como as (cito) “pobres flores gonocócicas \ que a noite despetalais \ as vossas pétalas tóxicas…”

Tônia Carrero, Ferreira Gullar, Chico Buarque, Antônio Candido, Caetano Veloso, Carlos Lyra, Gilberto Gil, Edu Lobo, Tom Jobim (voz e imagem de arquivo), Rubem Braga (texto de crônica recitada), e outros tantos, dão instrutivos e iluminados testemunhos sobre o autor de “Garota de Ipanema”, mas, o grande lance desse documentário é não ser apenas documental. Nem ser tampouco apenas uma série de shows interpretativos da obra de Vinicius. As performances, especialmente as de Olívia Byington, Mônica Salmaso, e Mariana Moraes, são deslumbrantes, porém, o que mais agrada é o efeito conjunto, que só se completa no final.

Como todo filme com cenas documentais, imagino que Vinicius deve ter tido um copião imenso, de onde foram certamente cortadas muitas horas de falas dos depoentes. Muito bem editado, o que fica, contudo, é básico e reflete o bom senso de quem escolheu.

Aqui cito alguns casos que considero chave para uma intepretação pertinente do filme.

O primeiro é Maria Betânia definindo o compositor de “Eu sei que vou te amar” a partir de sua paixão por aquela clássica canção americana, “Nature Boy” (autoria de Eden Ahbez), que, como se sabe, formula o que poderíamos chamar de “a ideologia do amor” — tão fundamental para Vinicius! — especialmente em seu refrão, cantado no filme, que diz assim: “the greatest thing you’ll ever learn, is just to love, and be loved in return”: ‘a maior coisa que você poderá aprender é apenas amar e ser amado’.

Um segundo é a leitura coletiva, feita em partes pelos depoentes, do poema “Pátria Minha”, uma saída simples mas efetiva, que dá idéia de como o roteiro do filme foi rigorosamente construído com um sentido autoral, preconcebido, proposital.

Um outro, ainda, é Ferreira Gullar explicando, sempre a propósito de Vinicius, claro, que “a vida é invenção; que você inventa, para o ruim ou para o bom, para cima ou para baixo, como queira”, e concluindo que “já que ninguém sabe mesmo o que é a vida, é melhor escolher inventar para cima”.

Com nove casamentos no bisaco e uma carreira de diplomata que sempre entrou em choque com a boemia assumida, Vinicius de Moraes deve ter tido os seus momentos para baixo. O filme o inventa para cima e a opção foi ótima.

Aliás, o lance de abrir o filme com trechos do triste “Poema de Natal” (‘Para isso fomos feitos…” lembram?) e fechá-lo com as desbragadas risadas dos amigos do poeta, motivadas pela recontagem da piada sobre o desejo de Vinicius de, no caso de existir a reencarnação, reencarnar como ele mesmo, “só que com o pau um pouquinho maior”, é um achado para passar a idéia de descontração que, no geral, marcou a vida do biografado e, tudo indica, a feitura do filme a que se assiste.

Viva a vida, sobretudo a (bem) inventada! Eis a sensação ao sairmos do cinema.

 

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