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Quinze anos de cinema

1 abr

Creio que todo mundo já experimentou a estranha sensação de ver/ouvir sua vida – ou um trecho dela – contada por outros, em letras de música, peças, filmes ou livros. Passei por essa dias atrás, quando folheava o livro “Cinefilia” de Antoine de Baecque (São Paulo: CosacNaify, 2010).

O livro de Baecque, que já resenhei alhures, reconstitui a cultura cinematográfica francesa nas décadas de cinquenta e sessenta, com ênfase no papel da revista “Cahiers du Cinéma”, porém, o detalhe que me tocou está na Conclusão, onde o autor enfoca a militância do crítico Serge Daney. Em dado momento diz ele:

Em quinze anos, entre 1952 e 1968, período de transição em que ainda coexistiam os produtos mais puros da terra clássica hollywoodiana e as experimentações do novo cinema, a visão nunca foi tão solicitada”.

Sublinhei a frase para voltar a ela mais tarde, mas, na verdade, nem precisava. Ela ficou na minha cabeça, como se fosse eu o autor. É que a frase, de modo direto e preciso, evocava a minha formação cinematográfica, como se o personagem enfocado fosse eu, e não Daney.

Com efeito, foi em 1952 que fui a primeira vez a cinema. Eu tinha apenas seis anos de idade, mas a introdução precoce foi fundamental. Uma irmã me levou pela mão para ver “A mulher tigre”, no há muito extinto Cine São Pedro. E, depois disso, o hábito, ou mais precisamente, o vício, estava criado. Segui vendo filmes ao longo das décadas de 50 e 60…

Parei em 68? Não, porém, a data é realmente chave. Este foi o ano de mudanças universais e também pessoais. No mundo, foi o maio francês e o brado americano pela paz; no Brasil o AI-5; em termos de cinema, era, ao mesmo tempo, o fim da Hollywood clássica e a crise das vanguardas sessentistas. Claro estas coisas me afetaram, mas, isto à parte, no plano pessoal, foi o ano em que, pela primeira vez, assumi emprego e responsabilidade sobre a manutenção de uma casa.

Além do mais – e isto é o mais importante – nestes quinze anos de convivência apaixonada com a tela, estava configurada a minha formação cinematográfica, digo, o meu gosto estava definido e as minhas preferências estabelecidas para sempre. De alguma maneira posso dizer que todo o cinema que vi depois de 68 obrigatoriamente dialogou com estes quinze anos ou os teve como ponto de referência.

Como está dito na frase de Baecque foi um período de transição, e eu mergulhei de cabeça nessa transição sem saber no que ia dar, ou melhor, sem saber que mergulhava. Se fosse para ser simplista, eu poderia dizer que a minha infância/adolescência está associada – nos termos de Baecque – “aos produtos mais puros da terra clássica hollywoodiana”, enquanto que a minha vida de jovem adulto se liga – de novo, Baecque – às “experimentações do novo cinema”, e por novo cinema quer-se dizer: nouvelle vague, free cinema inglês, cinema novo brasileiro, cinema asiático, etc.

Como também está dito por Baecque, estes dois modelos de cinema coexistiram e, no meu caso pessoal, criaram uma tensão que foi perturbadora, mas fértil. Mas vamos por etapas.

É claro que houve uma cronologia e a primeira etapa da minha formação cinematográfica foi totalmente hollywoodiana.

Ao longo dos anos cinqüenta, cinema, para mim, era “Os brutos também amam”, “A princesa e o plebeu” e “Férias de amor”. Na impossibilidade de listar tudo que vi nessa década, cito estes três que são representativos de um modelo de cinema. Aliás, citei três grandes filmes, mas poderia muito bem citar três pequenos que, pelo que lembro, vi com igual interesse, digamos: “Gatilho relâmpago”, “Como fisgar um marido” e “Sortilégio de amor”.

Até os quinze anos de idade eu não tinha muito discernimento e via um filme atrás do outro sem preocupação com qualidade, até porque o expediente crítico não era sequer conhecido, quanto mais praticado. Não é que não houvesse apreciações. Havia, mas tudo na base do gosto pessoal. Entre eu, os amigos e os familiares, “gostei” ou “detestei”, com pequenas variações intermediárias, eram as opiniões comuns que decidiam os destinos das películas.

Repetindo, víamos, ao mesmo tempo, a grande e a pequena Hollywood e, aos trancos e barrancos, formávamos nosso gosto cinematográfico. Sem sabermos, éramos espectadores clássicos de um cinema que tampouco se sabia clássico.

Foi no começo dos anos sessenta que esse modelo de cinema – e, por tabela, esse modelo de espectador – começou a ser abalado.

De repente, sem mais nem menos, a pequena João Pessoa começou a receber cinematografias estrangeiras – filmes franceses, italianos, suecos, e até russos e japoneses passaram a aportar em nossas telas, como marujos que tivessem descido no porto errado.

O comum a esses filmes estrangeiros é que se opunham, em vários níveis, à fabulação hollywoodiana a que estávamos acostumados, e, claro, o estranhamento era inevitável, variando da desconfiança simpatizante até a repulsa radical.

Já contei a estória antes, mas acho que vale a pena repetir a recepção doméstica a um filme bem típico desse novo cinema que apareceu no comecinho dos anos sessenta, “A doce vida”. Um de meus irmãos mais velhos vira e deu o diagnóstico peremptório: “uma merda”.

Com esse diagnóstico desastroso, ninguém lá em casa, foi assistir ao filme de Fellini, porém, por alguma razão estranha, eu fui, e a primeira coisa que notei foi que estava diante de uma nova forma de se fazer cinema que, evidentemente, não soube conceituar, salvo como algo diferente do cinema americano conhecido. Sem nome para dar a esse novo modelo de cinema fiquei chamando-o de “merda”, não para dizer que era ruim, mas apenas para sugerir a mim mesmo que se tratava de algo que meu irmão, fã de faroestes e Kirk Douglas, execrava.

Assim, contrariando os conselhos de meu irmão, passei a ver um bocado de “merda” e, aos poucos, fui me acostumando a esse novo cinema, e, em alguns casos, adorando.

De modo que, retornando à frase de Baecque, posso dizer que o meu olhar fez parte da “visão solicitada”, nesses quinze anos de cinema. Fui generoso em ver e fui generoso em guardar na memória o que vi. Hoje e há muito posso dizer que o conceito de cinema que tenho na cabeça, do qual me orgulho, é, sim, uma bela tensão,sempre produtiva e sempre renovada, entre “os produtos mais puros da terra hollywoodiana e as experimentações do novo cinema”.

Quinze anos que valem por uma vida inteira.

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