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Músicas e lágrimas

27 dez

Pode não acontecer com todo mundo, mas muita gente traz consigo, em sua memória afetiva, uma música especial, uma que mudou sua vida. Foi em cima desse pressuposto que o documentarista Eduardo Coutinho concebeu e rodou “As canções” (2011), filme em exibição na cidade.

Mas como rodar um documentário desses? Quem poderiam ser as pessoas a depor: famosos ou anônimos? Feita a segunda opção, a produção pôs-se nas calçadas do Rio de Janeiro com a faixa de chamada: “Se você tem uma música que mudou sua vida, cante e conte sua estória”.

Nada menos de 237 pessoas toparam a parada e, rodadas as tomadas iniciais, procedeu-se a uma primeira seleção – já que o filme não poderia ficar tão longo – e 195 foram eliminados. Dos 42 restantes, o próprio Coutinho cortou mais 24 e montou as cenas definitivas com apenas 18 depoentes.

Variando de sexo, profissão, grau de instrução e faixa etária (dos 20 aos 80 anos), os entrevistados fazem, diante da câmera, o que a faixa de chamada pedia: cantam uma canção amada e contam por que ela o é. O cenário é sempre o mesmo – uma cadeira em um palco, vendo-se por trás as cortinas de um azul escuro e mais nada. Os “cantores” por vezes desafinam, ou eventualmente erram uma palavra ou outra das letras, mas, com pouco movimento de câmera e poucos cortes, Coutinho mantém tudo, como se a resguardar a verdade do momento.

Sensível, emotivo, empolgante, ao mesmo tempo dolorido e delicado, o filme só faz confirmar o extraordinário talento de um consagrado documentarista brasileiro que já nos deu tantas obras primas no seu gênero, porém, a mim, a primeira impressão que ocorreu foi a de como cada estória contada consistia em um verdadeiro roteiro de cinema a filmar. Possivelmente como filme ficcional, mas tudo bem.

Vejam o caso daquela senhora idosa que cantou o samba-canção de Fernando César “Do ré mi”, aquele que começa assim: ´Eu sou feliz, tendo você sempre ao meu lado / e sonho sempre com você, mesmo acordado´ (lembram?).

A tal senhora nos conta que, muito jovem,em sua Minasde origem, ficou mãe solteira e foi destratada pela família e deportada para o Rio, com a filha pequena. Pobre, sem muita instrução e sem apoio familiar, a vida na cidade grande era tão difícil que um dia, desesperada, decidiu matar a filha e suicidar-se. Tomou um trem para consumar o gesto fatal bem distante, mas, o que ocorre? Ainda no trem, um rapaz a observa e os dois trocam olhares. Ao descer, pensando em como executar o que tinha planejado, tem sua atenção chamada pela menina, que lhe diz: “Mãe, o moço que estava no trem está atrás da senhora e parece que quer lhe falar”. Ela se vira e pergunta o que ele quer dela, e ele responde com a letra da canção referida. Resultado: o suicídio é esquecido, os dois começam a namorar, logo casam e são felizes para o resto da vida, uma vida longa, tranquila e apaixonada, tão apaixonada que, todo dia, ao acordar, antes de qualquer coisa, os dois solfejavam o “do re mi”, até ficarem velhinhos e ele falecer.

Eu sei, pode ser que haja um certo grau de invenção na estória contada, mas, que importa? O roteiro está dado: é só escrevê-lo e rodar, se você gosta de filme com final feliz.

Se você prefere finais infelizes, é o que mais tem em “As canções”, e, aliás, foi por isso que intitulei esta matéria que se lê de “músicas e lágrimas”, ao mesmo tempo uma referência – como o leitor talvez percebeu – ao clássico de Anthony Mann (1953), sobre a vida e morte do músico Glenn Miller, cujo título brasileiro foi quase este, apenas a primeira palavra no singular: “Música e Lágrimas”

Sim, quase todas as estórias narradas pelos depoentes de Coutinho são relatos tristes com desenlaces disfóricos. Alguns dos “cantores” chegam a chorar, descontrolados perante a câmera, como aquela mulher que canta “Minha namorada”, de Vinicius, ela que passou a existência inteira amando de longe o homem que não pôde ser seu, nem marido, nem amante, nem namorado. Ou aquela outra, abandonada pelo esposo, que nos canta “Retrato em branco e preto” de Chico. Ou ainda aquela outra que descobriu, arrasada, que a canção romântica que ela e o marido alimentavam como tema amoroso, não o era: chegando um dia em casa de surpresa, ele está cantando a tal canção – o “Olha” de Roberto Carlos – no telefone para a amante. 

O impressionante é que, em nenhum momento, o filme descamba para o sentimentalismo ou a breguice, embora os personagens sejam, em sua maioria, sentimentais e bregas. Milagres da mão e olho experientes de Coutinho.

Não é a primeira vez que Coutinho leva os seus entrevistados a cantar, porém, aqui, pela primeira vez, é a música que domina o enfoque e todos a ela se rendem: cineastas, personagens e público.

Claro, saí do cinema comovido e pensando em que música mudou minha vida. Ainda não decidi, e por enquanto, transfiro a tarefa ao leitor que, se ainda não viu, não pode perder esse belo exemplo de como o documentário pode ser tão imaginativo quanto a ficção.

Modo de terminar

14 fev

Como terminar um filme? Que derradeira imagem deixar na tela, antes dos créditos finais? Imagino o quanto os cineastas da vida não se angustiam com a escolha a fazer.

A idéia consensual é que o último elemento de uma obra narrativa (filme, romance ou conto), simplesmente por ser o último, adquire uma significação toda especial, não raramente simbólica, que concederia uma direção interpretativa ao todo.

E, evidentemente, o efeito sobre a recepção pode ser marcante, no caso do cinema, arte visual, mais ainda. Qual é o cinéfilo que não guarda na memória os seus finais preferidos?

Eu tenho os meus, dos quais cito três.

Gosto do modo indireto, periférico, como Joshua Logan encerra o seu “Férias de amor” (1956), sem música nem beijos e abraços: no lugar disso, uma panorâmica bem alta sobre a paisagem campestre inteira onde se veem, diminutos como se fossem brinquedos infantis, de um lado, o trem que leva William Holden, e do outro, o ônibus que conduz Kim Novak, ambos correndo, paralelos, na mesma direção, pois o espectador desse melodrama sabe que o casal vai, em futuro breve, se encontrar em algum ponto do mapa exposto aos seus olhos, para o que der e vier e, como ficara sugerido no diálogo do filme, o que vai dar e vir não tem necessariamente que ser maravilhoso.

Amo o modo contido, implícito, como Billy Wilder fecha o seu “Se meu apartamento falasse” (1960), não com declarações de amor, e sim com um cortante “cala a boca e jogue”, dito pela ex-ascensorista Shirley McLaine ao recém-desempregado Jack Lemmon. Lembrem que, enfática, a cena anterior prometia beijos e abraços, mas, não foi o caso: na comemoração do ano novo, ela ficara sabendo que ele perdera o emprego por causa dela; não faz outra: deixa o amante cretino de lado e sai correndo feito louca até o apartamento dele, e, quando chega, ofegante, à porta, ouve um estouro – que, desesperada, interpreta como sendo um disparo suicida – grita, ele abre a porta e ela constata, aliviada, que era só um champanhe aberto com que ele, sozinho, comemorava o seu fracasso. Por isso mesmo, o final contido, com o jogo de baralho na cama e a frase dela, é uma benção e, mais que isso, é inesquecível.

Adoro o modo documental, quase jornalístico como Sidney Lumet termina o seu “Um dia de cão” (1974): depois de uma tarde inteira de sufoco, dentro de uma agência de banco, com dois assaltantes truculentos (Al Pacino e John Cazale) e funcionários em pânico, o carro da polícia nos conduz ao aeroporto onde, em princípio e pelo combinado, os dois assaltantes embarcariam para um país estrangeiro. Súbito, o tiro certeiro na testa de Cazale, e pronto: a partir daí o que o espectador tem é, não choro nem vela, mas toda uma cena sem personagens, somente a demorada e ensurdecedora movimentação de automóveis e aviões na pista, típica de qualquer aeroporto, com, daí a pouco, os créditos do filme subindo, como quem diz – já contamos nossa estória: faça o que quiser com ela.

Quem revisa a história do cinema costuma dizer que os filmes antigos tinham mais “finais felizes” que os de hoje. Pode ser, mas a coisa não é assim tão simples. Em primeiro lugar, o tipo de final sempre dependia dos gêneros, e, se uma comédia não podia ter um desenlace triste, em compensação um filme noir não podia ter um alegre. Em segundo lugar, ao meio desses dois tipos de desenlace, historicamente apareceu o chamado “final aberto” que, sonegando paradeiros, deixava o espectador livre para preencher lacunas e decidir sobre a inclinação tímica do filme. E, finalmente, em terceiro e mais importante lugar, alegre, triste ou neutro, o chamado “desenlace” sempre foi algo mais longo do que o que aqui estamos chamando de momento final, ou seja, as últimas ou a última tomada de um filme, a qual, por sua vez, pode muito bem assumir as formas mais variadas, eventualmente contrariando o sentido tímico do próprio desenlace. Um exemplo: o desenlace de “Noites de Cabíria” é francamente disfórico, porém, o último fotograma do filme é um belo e reconfortante sorriso da protagonista.

Um elemento complicador aparece quando o filme “começa pelo fim”, casos célebres de, por exemplo, “Cidadão Kane” (1941), “Crepúsculo dos deuses” (1950) e “A malvada” (1950). Nestes casos não é incomum que o roteiro, depois de narrar o que houve antes do final já visto no começo, crie um tempo “pós-final”, para poder encerrar o filme com algo diverso do que o espectador viu nos primeiros fotogramas.

Em “Kane” é a imagem do esqui do garoto Charles, queimando na lareira, com o nome ´rosebud´ impresso, e a fumaça subindo da chaminé para o céu aberto. Em “Crespúsculo” é a chegada da imprensa à mansão de Norma Desmond, e esta, pensando se tratar da equipe da Paramount, encenando a sua pose de estrela para as câmeras. Em “A malvada” é a figura de Phoebe, a nova empregada da famosa atriz teatral, vestindo a roupa da patroa e se olhando, vaidosa, em um espelho que reproduz a sua imagem centenas de vezes.

Uma coisa que se observa, sem dúvida, na história do cinema, é que certos cineastas – sobretudo os de estilo forte – têm maneiras pessoais de terminar os seus filmes, e, com freqüência, repetem fórmulas que, com o tempo, tornam-se reconhecíveis e mesmo previsíveis.

Quem não lembra, em Chaplin, o vagabundo afastando-se na paisagem, enquanto a tela em torno da figura dele vai ficando escura, até o círculo luminoso que o circunda se contrair por completo e tudo ficar preto?

Fellini adorava encerrar tudo com dança e música; Ford com um enquadramento geográfico; Capra com sorrisos e efusão…

Um caso curioso é o de Hitchcock que, pelo menos na sua fase americana, lidava com o conceito de final de uma maneira tão lúdica, ao ponto de uma amiga minha uma vez me confessar que “adoro Hitchcock, mas não gosto do modo brusco e às vezes anedótico como ele termina os filmes”.

E é verdade. Para não citar mais, vejam os casos de “O homem que sabia demais” (1956) e “Intriga internacional” (1959), thrillers densos e tensos que se fecham como piadas.

Depois de todo o sofrimento para o difícil resgate do filho, seqüestrado por uma secreta e criminosa organização estrangeira, James Stewart e Doris Day chegam ao seu apartamento londrino e “explicam” aos amigos, que os esperavam havia séculos, que “demoramos porque fomos pegar Hank”, como se nada demais tivesse acontecido ao filho do homem que sabia demais.

Em “Intriga”, Eva Marie-Saint, pendurada nas duras escarpas das montanhas Rushmore, quase caindo, presa apenas por uma das mãos de Cary Grant, que também não está lá nada seguro, pouco faltando para os dois despencarem e esfacelarem-se lá embaixo, é, num passe de mágica, puxada por Grant para cima do vagão-cama de um trem, que, por sua vez, adentra célere um túnel escuro, sugerindo a cópula que o espectador não pode espiar. Tudo assim, rapidinho e sem explicação nenhuma, salvo a pressa de encerrar, e encerrar bem.

Se não é fácil terminar um filme, tampouco é fácil terminar um artigo como este. Faço-o, sugerindo ao leitor que relembre os filmes que ama e elabore a lista dos seus finais preferidos. Que tal?

 

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