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Scorsese por inteiro

16 jan

Os fãs do cineasta americano Martin Scorsese vêm de receber um presente da Editora CosacNaify: a publicação brasileira de “Conversations with Scorsese”, do crítico americano Richard Schickel. Em suas 528 páginas de oportuna entrevista, o livro “Conversas com Scorsese” (2011) reconstitui a vida e carreira desse importante cineasta contemporâneo.

O modelo seguido é mais ou menos aquele que está no livro, hoje clássico, “Truffaut/Hitchcock: Entrevistas”. Como no livro de Truffaut, o entrevistador e o entrevistado são amigos e partilham afinidades eletivas; como no livro de Truffaut, a conversa segue uma cronologia rigorosa, e o leitor tem a oportunidade de acompanhar o trabalho do cineasta, de filme a filme, com discussões do processo criativo, influências, entraves, satisfações, decepções, etc…

Para quem está familiarizado com a obra de Scorsese, há coisas surpreendentes, e outras, nem tanto. Por exemplo, o forte sentido autobiográfico dessa obra pode ser uma surpresa aos desavisados. Em várias instâncias, o cineasta faz questão de explicar como temas, enfoques, lances de roteiros, ou soluções plásticas resultaram de seus anseios existenciais mais particulares.

Já as influências declaradas são as esperadas: basicamente, Elia Kazan, John Cassavettes, a nouvelle vague francesa, e o cinema italiano, tanto o neo-realismo, como os ricos anos sessenta. E, interessante, com idênticas motivações autobiográficas. Exemplo: depois de revelar as dificuldades de relacionamento com o pai, Scorsese conclui que “é por isso que “Vidas Amargas” (Kazan, 1955) é um filme tão importante para mim.”

Em momentos repetidos, Scorsese descreve o percurso de sua formação. Tudo começou nos anos quarenta, com o cinema comercial americano – o ruim e o bom – até, início dos sessenta, aparecer o chamado cinema de arte europeu e virar sua cabeça. E de repente, o fã de Ford, Zinnemann e Hawks estava envergonhado de sê-lo, tentando substituí-los pelos Fellini, Truffaut e Bergman da vida.

Mas, a conversa começa com Marty (apelido familiar) ainda pequeno, asmático e frágil, tentando sobreviver na violenta Little Italy, gueto italiano de Nova Iorque, sempre conduzido pela mão fria mas generosa do pai aos cinemas do bairro. Fruto de uma modesta família católica italiana, não deixa de ser comovente ouvi-lo dizer o que o cinema representou na sua vida de criança: “Eu tinha fé quando ia à igreja. E tinha fé quando ia ao cinema” – os dois lugares onde “havia alguma esperança.”

Logo cedo, a sua esperança virou a de fazer aquilo que via: cinema, e, desenhando filmes, sonhou com isso o quanto pôde. Na escola secundária, a Cardinal High School, ainda pensou em ser padre, ou professor de literatura inglesa, mas – confessa – não gostava muito de ler, e justifica: “isto não fazia parte do nosso perfil cultural”. Quando teve que decidir, foi para a Universidade de Nova Iorque fazer o curso de cinema, e no terceiro ano, já estava rodando uns filmezinhos experimentais.

Profissionalmente, Scorsese começou como montador, o que nunca deixou de ser. Depois da incrível experiência de participar das filmagens do festival de Woodstock, foi convidado por Cassavettes para ser assistente de montagem em “Assim falou o amor” (1971). Instrui-se com o mestre Roger Corman para fazer “Sexy e marginal” (1972), e daí, não parou mais. Nem de montar, nem de filmar.

Nos capítulos que enfocam os filmes, o leitor vai ver discutidas questões cruciais, de várias ordens, mas todas instrutivas para se conhecer, não apenas, Scorsese, mas a arte cinematográfica em si.

Se o protagonista de “Taxi Driver” era um psicopata, como se explica a sua heroicização no desenlace? “New York, New York” foi mesmo uma tentativa frustrada de misturar a Hollywood de antigamente com a nova, dosando clima de estúdio com improviso neo-realista? Em que medida foi “O rei da comédia” um filme sobre a decepção decorrente do choque entre sonho e realidade?

“Cabo do medo” teria sido rodado como “puro entretenimento” (sic), e só depois virou o que é, um drama sombrio sobre a dissolução familiar. Em “A época da inocência” será que se sente a associação sugerida entre aristocracia e máfia, ambas com suas regras rígidas, que, de modos diferentes, destroem as criaturas?

Já “Kundun” foi a busca do elemento espiritual, que pudesse sê-lo sem religião. E a seção sobre “O aviador” é uma verdadeira aula sobre o uso da cor no cinema, onde se declara o aprendizado com os velhos filmes de antigamente, daquele tipo “Amar foi minha ruína” (1945).

Obsessões? Várias, uma delas sendo mesmo o perfeccionismo. Mas, a mais caracterizadora de seu estilo talvez seja mesmo a antipatia à trama. “Acho que um dos poucos filmes que eu fiz que tinha uma trama foi “Os infiltrados”. E eu fiz o possível para destruir essa trama”. E explica: “sempre acho que posso fazer um filme de gênero e acabo indo de encontro as suas regras”.

A rigor, o livro não nos faz entender somente Scorsese, mas todo o contexto histórico em que trabalhou; ele, e toda uma geração de jovens cineastas (Spielberg, Coppola, DePalma, Nichols, Penn…) que assistiram a derrocada do Sistema de Estúdios, e passaram a fazer cinema em outro modelo de produção, gerando o que passou a se chamar de Nova Hollywood. Num retrospecto de sua carreira, o próprio Scorsese se auto-define, dentro desse contexto, como: “o sujeito que achou que ia ser diretor de estúdio e se deu conta de que os estúdios acabaram”.

De um ponto não há dúvidas: diferentemente dos antigos diretores do passado, que aprenderam a fazer cinema, fazendo, Scorsese pertence a essa “nova” geração que foi cinéfila antes de ser cineasta. Como ele afirma, comovido: “uma porção de filmes mudou meu jeito de perceber o mundo a minha volta em certos momentos chave da minha vida”.

Coisa que diria de si qualquer cinéfilo, porém…

Cinema em 68

27 mai

Se considerarmos que no ano de 1968 estrearam, no mundo todo, cerca de 5.289 filmes, a idéia seria a de que não houve, em termos cinematográficos, nada de especial nessa data. Afinal de contas, esta era a média de filmes por ano no planeta, pelo menos a média da década…

E mesmo em termos qualitativos não parece haver uma distinção a fazer. Cinematograficamente falando, o ano de 68 só se distingue dos outros anos da década por um aspecto de alguma maneira irônico: marcava o fim dos grandes movimentos de cinema, eclodidos entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta.

O mais badalado de todos, a Nouvelle Vague francesa, estava nos seus estertores em 1968. O que se viu nos cinemas parisienses quando os estudantes e os operários tomaram as ruas da cidade eram filmes, se importantes nas carreiras de seus autores, sem grande expressão cultural e com pouca relação com o momento histórico. Para citar apenas os (ex)nouvellevaguistas: de François Truffaut estreava “Beijos roubados” (“Baisers volés”) uma comédia leve sobre um jovem sem vocação para o trabalho e o amor; de Claude Chabrol “As corças” (“Les biches”), um drama homossexual passado em Saint-Tropez; de Resnais “Eu te amo, eu te amo” (“Je t´aime, je t´aime”), um science-fiction sobre regressão temporal. A bem da verdade, dentre os fundadores da Nouvelle Vague, somente Jean-Luc Godard dava – evidentemente, sem o saber – uma resposta à inquietação reinante com o seu “Weekend”, que mostrava um engarrafamento de tráfego quase tão grande quanto a revolução estudantil.

O Free Cinema inglês, outro movimento da década, parecia igualmente diluído em 68. Os seus mentores, como Richard Lester, Tony Richardson (de “A carga da brigada ligeira” em refilmagem) e Karel Reizs (de “Isadora”, sobre a vida de Duncan) tomavam outros rumos estilísticos, e nesse ano, um dos seus participantes, John Schlesinger se mudara para Hollywood onde estava rodando – é verdade – um dos filmes que viriam a definir o perfil da década: “Midnight cowboy” (“Perdidos na noite”). Sobre a revolta radical num colégio inglês, o filme mais próximo do momento histórico foi o “Se…”  (“If…”) de Lindsay Anderson, pela temática análoga, com certeza o mais relevante a ser citado a propósito de 1968.

No Brasil, o Cinema Novo vivia as suas últimas experiências, logo sufocado pelo AI-5 de 13 de dezembro. O enfurecido Glauber Rocha tentava lançar “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”; Paulo César Saraceni operava uma adaptação de Machado de Assis em “Capitu”, Roberto Santos filmava “O homem nu”, Gustavo Dahl mostra o seu “Bravo guerreiro, e Rogério Sganzerla, por outro caminho, se saía com o seu “underground” e ainda hoje tão pouco conhecido, “O bandido da luz vermelha”, porém, no mais, era o cinema comercial que o povo consumia, como o sucesso do ano “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias.

Quem mantinha uma certa vitalidade era o cinema italiano, tão vigoroso nos primeiros anos da década, mesmo sem um nome que o definisse como movimento. Michelangelo Antonioni dera o que falar com o seu “Blow up” no ano anterior e, neste ano de 1968, estava preparando o seu “Zabriskie point”. Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini estavam ocupadíssimos com os seus respectivos “Satyricon” e “Teorema”, que só estreariam em 69. E a Cinecittà continuava investindo nesse novo gênero, o western spaghetti de Sergio Leone, o qual, neste 68, lançou o elaborado e hoje clássico “Era uma vez no Oeste”.

Abalada pela televisão e, mais ainda, pelas mudanças comportamentais, Hollywood clássica já não era mais clássica havia muito tempo. Os grandes cineastas do passado, como John Ford, Frank Capra, Raoul Walsh, George Cukor, etc, estavam aposentados ou em vias de, e os que ainda atuavam não tinham mais o velho pique. Lançado no ano, “Funny girl” de William Wyler não significava grande coisa. Nem o “Eldorado” de Howard Hawks, nem o “Topázio” de Alfred Hitchcock, aliás, rodado na Inglaterra. “A noite dos generais” de Anatole Litvak era um filme de guerra interessante, mas só isso – aliás, com a curiosidade de que era o título em cartaz nos cinemas brasileiros na noite em que os generais deram o golpe do AI-5. Quem ainda inquietava era esse teimoso John Huston, neste ano com o seu perverso “Reflections in a golden eye”, onde Marlon Brando encarnava um militar que se descobria homossexual, filme que no Brasil teve um título estranhamente comprometedor: “O pecado de todos nós”.

Enquanto isso, fora dos estúdios, um independente John Cassavettes continuava dando o seu recado, neste ano com “Faces” (“Rostos”). Mas, claro, mesmo com todas as vicissitudes, Hollywood não entregava os pontos, e um certo sangue novo surgia no Arthur Penn de “Bonnie e Clyde”; no Mike Nichols de “A primeira noite de um homem”, e nos westerns sanguinários de Sam Peckimpah, que neste ano estava rodando o marcante “Meu ódio será tua herança”, para estrear no ano seguinte. Isto para não falar no acontecimento cinematográfico que foi o longo e delirante “2001 uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, provavelmente o filme mais importante de 1968.

Se quisermos insistir nos termos qualitativos, penso que a coisa certa a dizer é que o ano de 1968 vai encontrar, no mundo, um cinema de autores isolados, gênios individuais, pensando o século, sim, mas, cada um de acordo com o seu imaginário mais privado. Nesse rol, perfilo os já citados Fellini, Glauber, Kubrick, Antonioni, Godard, e figuras como Bergman (“A hora do lobo” e “Vergonha”, dois filmes em 1968) e Buñuel, que em 67 nos dera “A bela da tarde”, e, em 69 daria “O estranho caminho de São Tiago”. No contexto cinematográfico, são desses cineastas que lembramos quando paramos para pensar no ano em questão, ou nos seus arredores, temporais e/ou espaciais. Nem todos os filmes destes cineastas tiveram a ver, diretamente, com os avassaladores acontecimentos de 1968, mas, em termos históricos, a eles se integraram e, hoje, deles por tabela fazem parte.

Em tempo: como o espaço é pequeno e os filmes são muitos, acrescento uma relação de 10 títulos de 1968 que, por uma razão ou por outra, tiveram considerável repercussão junto ao público:

As sandálias do pescador (Michael Anderson)

Barbarella (Rober Vadim)

Inferno no pacífico (John Boorman)

Meu nome é Coogan (Don Siegel)

O bebê de Rosemary (Roman Polanski)

O planeta dos macacos (Franklin Schaffner)

O submarino amarelo (George Duning)

Primavera para Hitler (Mel Brooks)

Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)

Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards)

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