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A nau dos insensatos: prevendo Altman

8 jul

O mundo não passa de uma nau desgovernada, rumando ninguém sabe para onde, repleta de passageiros de pouco ou nenhum juízo.

Em forma de lenda sombria, essa concepção pessimista da humanidade vem de longe, provavelmente da Idade Média, quando a navegação era vista como algo feio. A lenda virou imagem no famoso quadro de Bosch “Nau dos Insensatos” (1490) e, depois, sátira filosófica no livro homônimo de Sebastian Brant (1494). E de lá para cá, nunca saiu do imaginário das artes e da literatura. Até Foucault, como se sabe, tratou dela nos seus escritos sobre a loucura.

No começo dos anos sessenta, a escritora americana Katherine Anne Porter retomou essa concepção lendária, lhe inventou forma ficcional, e não se incomodou de dar a seu romance justamente este título “Ship of Fools”, que narra a viagem de um navio alemão que sai de Vera Cruz, México, com destino a Bremerhaven, Alemanha, num tempo – 1933 – em que o nazismo começava a botar suas feias garras de fora.

O quadro de Bosch

O quadro de Bosch

Uma condessa viciada em drogas, um médico de saúde fraca, um senhor grosseiro que defende idéias racistas, um judeu ingênuo que acha que ninguém vai magoar sua raça, um pintor frustrado, um jogador de baseball estabanado, um gigolô que camufla a profissão com coreografia, uma divorciada que amarga a solidão, um anão debochado… e, no subsolo, toda uma população de miseráveis que estão indo para um destino incerto como mão de obra barata. Tais são os personagens do romance, cada um com seu drama e sua estória própria.

O livro de Porter fez tanto sucesso que o produtor e diretor Stanley Kramer resolveu levá-lo às telas, e em 1965, o filme “A nau dos insensatos” (“Ship of fools”) estreou no mundo todo, concorrendo ao Oscar com sete indicações, das quais levou duas: melhor fotografia (Ernest Laszlo) e melhor direção de arte.

No filme, é o anão Glocken (Michael Dunn) quem faz a narração mais ou menos onisciente. Dirigida à câmera, sua primeira fala tem valor de alerta: “Meu nome é Karl Glocken e este é um navio de loucos” – nos diz ele. E depois de mencionar alguns dos passageiros e suas características mais visíveis, acrescenta: “E, quem sabe, se você olhar bem de perto, pode até ver você mesmo a bordo”.

Simone Signoret e OsKar Werner em cena do filme

Simone Signoret e OsKar Werner em cena do filme

O enredo é difícil de resumir, pelo simples fato de o filme ser um painel narrativo. Como no romance, cada personagem vive uma situação particular que só acidentalmente tem a ver com as dos outros passageiros. Por exemplo, a coroa sulista feita por Vivien Leigh pouco tem a ver com o jogador de baseball feito por Lee Marvin, e, se se tocam, é porque estão forçosamente no mesmo ambiente.

Acho que o caso mais amarrado do ponto de vista narrativo – e provavelmente com mais ´tempo de tela´ – é do Dr Schumann (Oskar Werner) e a Condessa viciada em entorpecentes (Simone Signoret): no processo do atendimento médico, os dois vão se envolvendo até, formarem, embora casados, um par amoroso. Sintomaticamente, são os dois únicos cujos destinos ficam divisados na chegada à Alemanha – ela, como diegeticamente previsto, levada à prisão; ele, como diegeticamente provável, morto.

Embora os problemas que afetem os personagens variem (da mocinha virgem que quer liberdade, ao rapaz que agride o pai paraplégico para pagar uma garota de programa), há, sim, uma temática subliminar que perpassa a viagem – a ascensão do nazismo, tanto mais grave pelo fato de a destinação do navio ser justamente a Alemanha de Hitler.

Talvez o espectador de hoje venha a estranhar o modo como os personagens desafogam os seus problemas privados uns aos outros, com uma franqueza pouco plausível, já que se trata de desconhecidos. Aquela mocinha chorosa, no convés, desabafando suas mágoas a um senhor, conhecido só de vista, é um exemplo que vem ao caso. A impressão – se não a justificativa – é que o filme é curto para o número de casos, e, assim, não teria havido o tempo necessário para o desenvolvimento dos vários relacionamentos.

Um casal improvável: Lee Marvin e Vivien Leigh

Um casal improvável: Lee Marvin e Vivien Leigh

Ao desembarcar, Glocken volta a se dirigir ao espectador: “você deve estar se indagando o que tem a ver com isso”, e responde ele mesmo: “nada”, quando, ironicamente, a essa altura, o espectador já está convencido do contrário.

Vi “A nau dos insensatos” nos anos sessenta, no saudoso Cine Municipal, mas agora, revendo-o em casa, me ocorre uma associação que não poderia ter feito na época de sua estréia – de alguma forma, ele prediz e promete a obra de um cineasta da segunda metade do século XX. Refiro-me ao grande Robert Altman, com suas amplas narrativas, superlotadas de personagens que, por uma circunstância qualquer, circulam no mesmo espaço e no mesmo tempo, na maior parte dos casos sem familiaridade entre si, e cujos paradeiros, com maior ou menor conseqüência, apenas se tocam.

Pois é, seguindo um certo conselho do sábio Borges, inverti a cronologia e li o filme de Stanley Kramer à luz de Altman. Foi legal e surtiu efeito.

A tripulação e os passageiros do subsolo

A tripulação e os passageiros do subsolo

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