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Sete dias com Marilyn

18 abr My-Week-with-Marilyn

Embora viesse de família ilustrada e ilustre, esse senhor inglês, chamado Colin Clark, nunca foi grande coisa na vida e nunca fez nada de relevante para sê-lo.

Não? Bem, lá por volta de 1957, quando tinha apenas 23 anos de idade, ele foi terceiro assistente de direção do mitológico Sir Laurence Olivier no filme “O príncipe encantado” (“The Prince and the showgirl”).

Isso é pouco? Ora, o filme era com Marilyn Monroe e a bombshell americana– sabe Deus por que – engraçou-se dele de modo que, interrompendo as filmagens, os dois passaram cerca de uma semana em contato mais ou menos privado.

Depois de velho e sem maiores realizações a exibir, Clark resolveu contar a estória dessas filmagens e em 1995 publicou o livro “The Prince, the showgirl and me” (´O príncipe, a corista e eu´), que foi bem recebido pela crítica.

Não conformado com este pequeno sucesso tardio, publicou, em 2000, uma continuação do livro, com o título de “My week with Marilyn” (´Minha semana com Marilyn`), desta feita sendo mais ousado e adiantando coisas bem mais íntimas de seu contato privado com a atriz americana, como beijos e outras carícias, palavras de amor pronunciadas por debaixo de lençóis e banhos de lago, os dois despidos, nos arredores de Londres.

A crítica anglo-americana não gostou dessa continuação e não lhe deu créditos, mas que importa? Verídica ou não, era uma estória bem mais estimulante do ponto de vista, digamos, artístico.

Tão estimulante que o diretor e homem de televisão Simon Curtis decidiu que daria uma boa realização cinematográfica.

E é o que temos em “Sete dias com Marilyn” (“My week with Marilyn”, 2011).

Seguindo o livro, o filme narra os bastidores das filmagens de “O príncipe encantado” – primeira produção da recém fundada companhia da própria Marilyn Monroe. Nessa época, de saco cheio de ser apenas famosa, a atriz abandonara Hollywood e agora, casada com o dramaturgo e intelectual Arthur Miller, viviaem Nova York, estudando arte dramática no Actors Studios de Lee Strasberg.

Para dirigir e atuar nessa comédia semi-musical com cenário londrino, foi contratado ninguém menos que Laurence Olivier, e, para as filmagens, Marilyn vem a Londres com a sua pequena entourage, o marido e a inseparável professora de arte dramática Paula Strasberg.

É aí que as confusões começam. Doente e cheia de problemas pessoais, Marilyn atrapalha a rodagem do filme e leva o orgulhoso e fleumático Sir Olivier a ataques histéricos. Para se ter ideia, uma discordância básica residia no modo mesmo de interpretar: o célebre “método” do Actors Studios, assumido por Marilyn, batia contra toda a experiência teatral de Olivier.

Foi então que o insignificante terceiro assistente de direção, o nosso Colin Clark, começou a ganhar relevância. Com o marido de volta aos States e a relativa conivência de Paula Strasberg, a atriz famosa descobriu esse rapazinho de 23 anos, moleque de recado da produção (como ele mesmo se define), e o caso entre os dois passou, contraditoriamente, a se tornar importante para o andamento das filmagens, na medida em que, entre outras coisas, abrandava os chiliques da Monroe.

Em “Sete dias com Marilyn” o diretor Simon Curtis chega a romantizar o caso por conta própria, compondo a cena de despedida do casal com um desfile de imagens bucólicas, ao som da belíssima canção “Autumn leaves”, na voz de Nat King Cole. O efeito é duplo de remeter à época e reforçar a emoção do desenlace.

Será que houve mesmo esse nível de envolvimento sentimental entre Marilyn e Colin? Mais uma vez, não importa: no filme de Curtis, há.

Narrado em primeira pessoa pelo personagem de Colin, o filme de Curtis é agradável e flui bem, do começo ao fim. Nada extraordinário, mas ao menos decente. Naturalmente, ajuda muito o elenco escolhido: Kenneth Branagh como Laurence Olivier, e mais especialmente, Michelle Williams no papel chave de Marilyn Monroe, ambos, como se sabe, indicados ao Oscar.

Não sei até que ponto seria interessante para o espectador conhecer o filme dentro do filme, digo, “O príncipe encantado” (1957). De qualquer modo, Curtis apelou para a estratégia de não mostrar nenhuma cena dele, nem tampouco da Marilyn real, de forma a que o espectador se acostume com o que está vendo no momento, nesta tela, e não nas outras, Uma boa saída, suponho.

Em tempo: “Sete dias com Marilyn” não compareceu ao nosso circuito de exibição, e o espectador fica, assim, limitado a suas edições em formato eletrônico.

Noblesse oblige

4 abr

Nada como se acomodar na poltrona para rever um clássico. Esta semana me acomodei para rever “A princesa e o plebeu” (William Wyler, 1953). Não é um filme que agrade a intelectuais, mas, no mágico território da cinefilia, quem se importa com intelectuais?

Passeei pelas ruas de Roma, andei de lambreta, tomei sorvete, botei a mão na boca da verdade, fiz um pedido impossível, dancei, me meti em brigas, e, evidentemente, acabei apaixonado por Audrey Hepburn… Finda a sessão, fiquei pensando no roteiro, que, aliás merecidamente, ganhou o Oscar de estória original.

Fiquei imaginando como tudo teria começado na cabeça do roteirista Ian Hunter. Não acho nada improvável que o ponto de partida tenha sido aquela frase feita que a gente usa, toda vez que está diante de uma obrigação a cumprir: “noblesse oblige”. O genial foi Hunter haver remontado ao sentido literal do clichê (´a nobreza obriga´) e, a partir daí, haver concebido uma pessoa da corte, de saco cheio com protocolos, querendo escapar das obrigações reais.

Talvez de início tenha lhe ocorrido um príncipe fugindo da corte, mas, essas estórias de nobres cavalheiros passando por plebeus já era batida na época. Assim, era melhor inverter os sexos e fazer uma princesa ter uma crise nervosa e escapulir do palácio para se meter com o povo na rua. E isso onde? Não poderia ser no seu próprio país, pois ela seria facilmente identificada. Assim, inventou-se uma tournée diplomática. A cidade poderia ter sido qualquer uma, mas, claro, nada mais excitante do que Roma, onde tudo é tão anti-protocolar. E cuidado, aquela gag inicial, em plena cerimônia oficial, em que se mostra, por debaixo do vestido da princesa, o sapato fora do pé, e depois reposto, não é nada gratuita: se você prestar bem atenção, ela contém a estória inteira do filme.

Como o filme era produção de Hollywood, tinha que haver um repórter americano, perseguindo a princesa fugitiva e, inevitavelmente, se apaixonando por ela, ao ponto de, no romântico desenlace, renunciar ao furo. A existência desse repórter, além de produzir o conflito necessário e garantir o gênero, tinha a vantagem de remeter a um outro clichê, igualmente reformulado: o “príncipe encantado” das mocinhas, virando “a princesa encantada” dos homens. O final é tão idealista e sublime que não admira que Capra, antes de Wyler, tenha querido fazer o filme.

O papel da princesa foi pensado para Elizabeth Taylor, mas, ainda bem, Wyler insistiu nessa novata, que fizera o teste para a produção. Em seu primeiro papel principal, Audrey se saiu tão maravilhosamente bem que ganhou o Oscar, o seu único.

Adoro aquela cena em que ela, sob o efeito do sedativo, entra no minúsculo apartamento de Gregory Peck e pergunta se estamos no elevador. Antes de deitar-se repete a frase que, na condição de princesa, costumava emitir aos seus súditos: ´você tem minha permissão para retirar-se´. Estas eram dicas de sua realeza (que, nem inconsciente, ela perdia), mas Peck, julgando-a apenas bêbada, estava longe de desconfiar. Na verdade, ele começa a ter uma idéia de que aquela mocinha perdida nas ruas de Roma não era nada vulgar, quando ela recita os versos de Shelley, embora supondo ser Keats: “Aretusa ergueu-se do seu leito de neve…” Sim, mas era cedo para adivinhar a sua posição na pirâmide social.

A ficha cai, para ele, no dia seguinte, ao ver a foto da princesa estrangeira no jornal. É aí que ele, jornalista espertinho, monta o seu plano de ganhar dinheiro em cima do caso, porém, mais interessante para o espectador seria o exercício de identificar, no andamento do filme, o exato momento em que ele desiste do plano. Teria sido no beijo ensopado que o casal troca, depois do mergulho forçado no rio? Ou um pouco adiante, na despedida dentro do carro? Uma outra pergunta gostosa a fazer seria: em que momento da estória ela ficou sabendo que ele sabia de tudo?

Naturalmente, estas perguntas são só pretextos para o cinéfilo ver o filme mais uma vez.

Inventação não tem fim

6 nov

- anotações sobre “O vôo da guará vermelha” -

 Impressionante como continua rendendo o velho esquema “rapaz conhece moça”, aquele de todas as estórias de amor, recitadas, escritas, encenadas e filmadas. Que o diga a escritora Maria Valéria Rezende no seu romance recente “O vôo da guará vermelha” (Objetiva, 2005), cujo esqueleto narrativo, se você quiser, coincide com o de “Love Story”, o filme que Umberto Eco ironizou com o seguinte resumo: “Ele a ama; ela o ama; ela morre: fazer o que com o resto da estória?”

Ora, Valéria Rezende sabe o que fazer com o começo, o meio e o fim de sua estória, e o faz muito bem. Mas vamos por etapas.

De fato, a trama principal de “O vôo da guará vermelha” não é extensiva, e poderia talvez ser resumida numa sinopse tão breve quanto a de Eco. Mas ora, o que mais interessa no livro é justamente o que não se submete a resumos.

Um operário analfabeto conhece uma prostituta enferma e esta, antes de morrer, lhe ensina a ler. Este “esquema narrativo” nem parece suficiente para compor um romance, e, no entanto, quando se lê “O vôo da guará vermelha” a impressão é a de que qualquer coisa, quase nada, é o bastante para encher o corpo de qualquer romance. É só ter o poder criativo de Valéria Rezende, que conta a sua estória como quem pinta um arco-íris, ou melhor, como quem monta um caleidoscópio, com combinações de duas cores para cada capítulo, exigindo do leitor o dom poético de transitar entre o abstrato cromático e o – digamos assim – figurativo.

Sim, salvo o gesto obsessivo de contar estórias, quase nada acontece entre Rosálio e Irene, e, contudo, o leitor não sente necessidade de ação. Até porque, quase toda mnemônica, a ação aparece na voz de Rosálio que, obsessivamente, conta à companheira as estórias que ouviu ou que vivenciou.

Depois da própria Valéria Rezende, Rosálio é o grande narrador em “O vôo da guará vermelha”, mas o que se constata é que ele não é a rigor um auto-narrador, e o alheio (João dos Ais, Suécio, o Bugre, o Gago, Maria Flora, João e Joana e tantos outros personagens fascinantes) lhe interessa do mesmo modo, pois, como já posto, o que, de dentro para fora, o move é o ato mesmo de narrar.

Entre outras coisas, são essas estórias, e o seu gesto de narrar-se, que vão unindo os dois protagonistas, porque, como a autora, ambos partilham essa pulsão de contar/ouvir narrativas que a vida, o mundo, ou os outros criaram, ou que eles mesmos criam para preencher a existência com o sentido que lhes falta.

De modo que, se o livro tiver um tema, este deve ser a pulsão de narrar, nele tão forte que ultrapassa os limites da verossimilhança. Vejam que Rosálio é um operário que, sem saber ler, carrega consigo, para todo lugar, uma caixa de livros, com a vaga esperança de que um dia aprenderá a desvendar os mistérios das letras. Do mesmo modo saudavelmente improvável, Irene é uma pobre e sofrida prostituta que conhece as lendas de Sherezade e tantas outras.

Com tantas estórias em trânsito, o livro possui, inevitavelmente, uma estrutura frouxa, móvel, aberta, como se se tratasse, não de um romance, mas de obra de gênero indefinido, talvez um estranho livro de contos; contos unidos – entre outras coisas menos evidentes – por esse elo diegético que é o mundo precário, frágil, efêmero, e ao mesmo tempo, forte e belo, de Rosálio e Irene.

Contos? Gênero indefinido? Romance? Não seria demais dizer que, inovador, ousado, pessoal, genuíno, o “Vôo da guará vermelha” se alimenta de deliciosos paradoxos. Se o leitor prestar bem atenção vai notar, por exemplo, que, assim como a sua unidade é parcial e as suas partes, unitárias, o seu realismo é fantasioso, e a sua fantasia, real; do mesmo modo, a sua simplicidade é complexa, e a sua complexidade, simples. Qualquer uma das estórias contadas por Rosálio evidencia estas verdades, porém, a melhor evidência talvez esteja na lírica caracterização da dupla protagonizante e na sutil mas perturbadora construção de sua estória de amor.

É fato que, no desenlace, como previsto por ela mesma, Irene morre, mas Valéria Rezende não se preocupa com “o que fazer com o resto da estória” (Vide Eco acima). Antes de partir para o “azul sem fim” – título do último capítulo, o único monocromático – essa “guará vermelha” havia legado a seu amado o dom maravilhoso de decodificar letras, e o havia deixado preparado para assumir um novo ofício, mais visceral e mais verdadeiro, esse de juntar o povo na praça e encantá-lo com estórias inventadas ou a inventar, pois, como mantém a frase que, sem concluir, fecha o livro: “inventação não tem fim”.

Contrariando os dicionários, a guará de Valéria Rezende é feminina, como tinha de ser para sustentar uma metáfora fundante no livro. É dessa tríplice metáfora titular que desabrocham os campos semânticos que perpassam o livro inteiro – o cinético em “vôo”, o ornitológico em “guará” e o cromático em “vermelha” – e que se entrecruzam em instâncias especiais para conceder ao conjunto do texto, se não a forma, a postura de um poema. Um poema a ser lido com sofreguidão, sobretudo se, como Valéria Rezende e seus personagens, o leitor também partilha dessa “fome de palavras” – conceito chave que, simetricamente, abre o livro.

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