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Graças a Deus

24 jan

Hoje não, mas nos velhos tempos quase todo espectador tinha o seu cinema preferido, aquele que mais frequentava e onde, por razões privadas, melhor se sentia.

O meu “cinema de estimação” foi o Cine Teatro Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe. Não era só o mais perto de casa, mas também o que mais alimentou o meu imaginário de cinéfilo, num tempo em que a palavra ´cinéfilo´ nem existia. Passei parte da minha infância e adolescência entre suas paredes e ainda hoje tenho sonhos com ele. Fui também aos outros cinemas de João Pessoa, porém, nenhum foi tão importante para a minha formação cinematográfica quanto o Sto Antônio.

Pois bem, o que eu não sabia na época, mas sei hoje, é que minha formação cinematográfica parcialmente se deveu a um Papa que já era falecido quando nasci, o Pio XI, autor de uma encíclica fundamental para a história do cinema nos países católicos do mundo.

Promulgada em1936, aencíclica se chamou “Vigilanti Cura” e, à parte o tom de censura, chamava a atenção do mundo para a importância do cinema, e mais que isso, estimulava as paróquias a fundarem casas de exibição, para o cultivo da arte cinematográfica. Numa expressão feliz, Pio XI definia o efeito do cinema sobre as platéias, conceituando o filme como uma lição de coisas. “O poder do cinema consiste no fato de que ele fala por meio de vívidas e concretas imagens, as quais a mente recebe com alegria e sem fadiga – explicava Pio XI, e continuava: “o cinema é na realidade uma “lição de coisas” (“rerum schola” no latim original). que, para o bem ou para o mal, ensina a maioria das criaturas muito mais efetivamente do que o faz o pensamento abstrato.” E este deslumbramento papal com a sétima arte se estendia à bula inteira. (Com certeza, foi daí que o poeta Drummond retirou o título do seu bem conhecido livro de 1962).

Pio XI faleceu em 39, mas o seu sucessor, Pio II, deu continuidade a esse interesse pelo cinema e, claro, dentro do mesmo espírito cristão, prosseguiu incentivando, com novas encíclicas, a reflexão sobre o cinema e a construção de novas casas de exibição. Sua encíclica de 1957 sintomaticamente se chamava “Miranda Prorsus”, em bom latim, “coisas absolutamente maravilhosas”, e uma dessas coisas maravilhosas era o cinema.

Ora, foi justamente dentro dessa orientação do Vaticano que os padres da paróquia da Igreja do Rosário tiveram a iniciativa de construir o “meu” Cine Sto Antônio, inaugurado em 1955.

Nessa época eu era garoto e cursava o primário no Grupo Escolar Sto Antônio, vizinho ao recém-surgido cinema, e, claro, não tive idade para a exibição do filme inaugural, que foi, segundo os residentes do bairro, “Romeu e Julieta”, certamente a versão de 1954, de Renato Castellani, com Laureence Harvey e Susan Shentall, que vi depois. Como se percebe, embora projeto do Vaticano, o Sto Antônio não limitou sua programação a filmes de conteúdo religioso.

O primeiro filme que vi no Sto Antônio foi um documentário colorido sobre a vida agrícola na Tailândia, que os padres do Rosário julgaram ser instrutivo para os alunos do Grupo: as aulas foram, assim, interrompidas e fomos, em fila, todos fardados, assistir a essa sessão matinal.

Acho que foi nessa sessão matinal que descobri o que a gente chama de prazer do escurinho.

Logo logo, descobri também que não precisava dos padres do Rosário para ir ao Sto Antônio. Para meu deslumbramento, qualquer criatura podia entrar naquele templo de imagens: era só ter o dinheiro do ingresso, e, claro, o consentimento dos pais. Para mim, essa descoberta era a própria epifania – o paraíso estava ali, do meu lado, e custava pouco.

Comecei com as matinais de domingo, sessão das nove e meia, depois de devidamente purificado pela missa no Rosário: Tarzan, as comédias (em reprise) de Chaplin e do Gordo e o Magro, ou as mais recentes, de Bob Hope ou Jerry Lewis, ou os filmes de aventura, como “As minas do rei Salomão”, “Aliança de aço”, “A volta ao mundo em oitenta dias”, ou os faroestes da vida, como “Gatilho relâmpago”, “Duelo de titãs” e “O passado não perdoa”… O cardápio era enorme e variado.

Depois, mais crescidinho, me meti nas sessões noturnas, agora assistindo a películas mais adultas, que não poderia arrolar, em vista da extensão. Cito apenas alguns exemplos ao acaso de filmes com que o Sto Antônio me presenteou e que marcariam minha formação, a maior parte deles tendo pouco a ver com religião: “Um corpo que cai”, “Meu tio”, “A fonte da donzela”, “A balada do soldado”, “Quanto mais quente melhor”, “O último hurra”, “Duas mulheres”…

Se eu puder dizer que o Cine Sto Antônio me fez espectador, quem me fez crítico? Pois é, o papel da Igreja na minha formação cinematográfica poderia ter ficado por aí, no Sto Antônio. Mas, a rigor, não ficou.

Acompanhem-me. Lembrem que a orientação do Vaticano junto às paróquias, como já dito, não foi apenas para a construção de salas de exibição, mas também, para a instituição e difusão de Associações locais que pensassem e discutissem cinema, sua linguagem, sua temática, sua ética, e que dessem às platéias do mundo parâmetros de apreciação e avaliação. Os parâmetros eram os católicos, sim, mas já eram um primeiro esforço de análise fílmica – coisa na época chamada de “filmologia”.

Ora,em João Pessoauma Associação desse tipo já havia surgido, no início dos anos cinqüenta, um pouco antes da criação do Cine Sto Antônio. Foi o primeiro cineclube da cidade, chamado justamente de “Cineclube de João Pessoa”, fundado por um grupo de pessoas religiosas, uns laicos como o prof. José Rafael de Menezes, outros do clero, como os padres Antônio Fragoso e Luis Gonzaga Fernandes – mas todos orientados pelos desígnios papais. Em depoimento, o historiador Wills Leal me relata o quanto foi decisivo para os cinéfilos de então – católicos ou não – o acesso a toda uma rica bibliografia sobre cinema, trazida da Itália e da França pelos padres que encabeçavam esses estudos fílmicos. “Padre Fragoso – conta Leal – era dono de uma enorme biblioteca privada de cinema, que líamos com voracidade.”

Que essa orientação católica sobre o estudo da sétima arte não era propriamente castradora comprova o programa da primeira mostra do “Cineclube de João Pessoa”, acontecida nas dependências da Rádio Tabajara, em outubro de 1953: desse programa fazia parte, por exemplo, o filme “Desencanto” (“Brief encounter”, 1945), como se sabe, um pesado e – para a época – ousado melodrama sobre relações conjugais em que uma mulher casada se apaixonava por um homem também casado. (Para o programa inteiro da mostra, consultar o livro de Leal. “Cinema da/na Paraíba, Vol 1).

Obviamente, não tive acesso ao Cineclube de João Pessoa, já que era criança nessa época, mas, foi ele que deslanchou todo o movimento cineclubista pessoense que viria em seguida, e que, algum tempo depois, iria fazer minha cabeça, mudando-a da mera espectação passiva para a apreciação ativa, crítica e analítica.

Para dar um exemplo da importância desse cineclube católico, foi dele que indiretamente saiu o primeiro livro de autor paraibano sobre cinema, o precioso “Caminhos do cinema” (Editora Agir, 1958) do saudoso Prof. Rafael de Menezes, um livro com distribuição nacional, que li com admiração no começo dos anos sessenta e nunca esqueci. Sua investigação da psicologia do espectador, por exemplo, já era um estudo de Teoria da Recepção quando esta disciplina, esboçada no âmbito literário, nem havia sido cogitada para o âmbito fílmico.

Sim, do bojo do Cineclube de João Pessoa sairia um grupo dissidente que, mais tarde e junto com outros, formaria a ACCP (Associação de críticos cinematográficos da Paraíba), porém, de todo jeito, não há como escapar: a semente da militância critico-cinematográfica pessoense foi plantada por mentalidades ligadas à Igreja. No meu caso particular, via ACCP ou não, foi essa semente cinéfila que brotou.

Não sei por quê (na verdade, sei), os intelectuais que atuaram na imprensa e na cultura nos anos sessentaem João Pessoa, quase todos situados na faixa etária entre eu e o grupo de Rafael de Menezes, e quase todos de forte formação marxista, fizeram o que puderam para sonegar a influência da igreja católica na formação da cinefilia local. Como não podiam negar, calaram. Tolice…

De minha parte posso, portanto, afirmar que, por incrível que possa parecer, devo, indiretamente que seja, à Igreja Católica, não apenas a minha condição de espectador, mas também a de crítico.

O que mais posso dizer sobre o assunto, se não “Graças a Deus”?

Cinema em 68

27 mai

Se considerarmos que no ano de 1968 estrearam, no mundo todo, cerca de 5.289 filmes, a idéia seria a de que não houve, em termos cinematográficos, nada de especial nessa data. Afinal de contas, esta era a média de filmes por ano no planeta, pelo menos a média da década…

E mesmo em termos qualitativos não parece haver uma distinção a fazer. Cinematograficamente falando, o ano de 68 só se distingue dos outros anos da década por um aspecto de alguma maneira irônico: marcava o fim dos grandes movimentos de cinema, eclodidos entre o final dos anos cinqüenta e o começo dos sessenta.

O mais badalado de todos, a Nouvelle Vague francesa, estava nos seus estertores em 1968. O que se viu nos cinemas parisienses quando os estudantes e os operários tomaram as ruas da cidade eram filmes, se importantes nas carreiras de seus autores, sem grande expressão cultural e com pouca relação com o momento histórico. Para citar apenas os (ex)nouvellevaguistas: de François Truffaut estreava “Beijos roubados” (“Baisers volés”) uma comédia leve sobre um jovem sem vocação para o trabalho e o amor; de Claude Chabrol “As corças” (“Les biches”), um drama homossexual passado em Saint-Tropez; de Resnais “Eu te amo, eu te amo” (“Je t´aime, je t´aime”), um science-fiction sobre regressão temporal. A bem da verdade, dentre os fundadores da Nouvelle Vague, somente Jean-Luc Godard dava – evidentemente, sem o saber – uma resposta à inquietação reinante com o seu “Weekend”, que mostrava um engarrafamento de tráfego quase tão grande quanto a revolução estudantil.

O Free Cinema inglês, outro movimento da década, parecia igualmente diluído em 68. Os seus mentores, como Richard Lester, Tony Richardson (de “A carga da brigada ligeira” em refilmagem) e Karel Reizs (de “Isadora”, sobre a vida de Duncan) tomavam outros rumos estilísticos, e nesse ano, um dos seus participantes, John Schlesinger se mudara para Hollywood onde estava rodando – é verdade – um dos filmes que viriam a definir o perfil da década: “Midnight cowboy” (“Perdidos na noite”). Sobre a revolta radical num colégio inglês, o filme mais próximo do momento histórico foi o “Se…”  (“If…”) de Lindsay Anderson, pela temática análoga, com certeza o mais relevante a ser citado a propósito de 1968.

No Brasil, o Cinema Novo vivia as suas últimas experiências, logo sufocado pelo AI-5 de 13 de dezembro. O enfurecido Glauber Rocha tentava lançar “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”; Paulo César Saraceni operava uma adaptação de Machado de Assis em “Capitu”, Roberto Santos filmava “O homem nu”, Gustavo Dahl mostra o seu “Bravo guerreiro, e Rogério Sganzerla, por outro caminho, se saía com o seu “underground” e ainda hoje tão pouco conhecido, “O bandido da luz vermelha”, porém, no mais, era o cinema comercial que o povo consumia, como o sucesso do ano “Roberto Carlos em ritmo de aventura”, de Roberto Farias.

Quem mantinha uma certa vitalidade era o cinema italiano, tão vigoroso nos primeiros anos da década, mesmo sem um nome que o definisse como movimento. Michelangelo Antonioni dera o que falar com o seu “Blow up” no ano anterior e, neste ano de 1968, estava preparando o seu “Zabriskie point”. Federico Fellini e Pier Paolo Pasolini estavam ocupadíssimos com os seus respectivos “Satyricon” e “Teorema”, que só estreariam em 69. E a Cinecittà continuava investindo nesse novo gênero, o western spaghetti de Sergio Leone, o qual, neste 68, lançou o elaborado e hoje clássico “Era uma vez no Oeste”.

Abalada pela televisão e, mais ainda, pelas mudanças comportamentais, Hollywood clássica já não era mais clássica havia muito tempo. Os grandes cineastas do passado, como John Ford, Frank Capra, Raoul Walsh, George Cukor, etc, estavam aposentados ou em vias de, e os que ainda atuavam não tinham mais o velho pique. Lançado no ano, “Funny girl” de William Wyler não significava grande coisa. Nem o “Eldorado” de Howard Hawks, nem o “Topázio” de Alfred Hitchcock, aliás, rodado na Inglaterra. “A noite dos generais” de Anatole Litvak era um filme de guerra interessante, mas só isso – aliás, com a curiosidade de que era o título em cartaz nos cinemas brasileiros na noite em que os generais deram o golpe do AI-5. Quem ainda inquietava era esse teimoso John Huston, neste ano com o seu perverso “Reflections in a golden eye”, onde Marlon Brando encarnava um militar que se descobria homossexual, filme que no Brasil teve um título estranhamente comprometedor: “O pecado de todos nós”.

Enquanto isso, fora dos estúdios, um independente John Cassavettes continuava dando o seu recado, neste ano com “Faces” (“Rostos”). Mas, claro, mesmo com todas as vicissitudes, Hollywood não entregava os pontos, e um certo sangue novo surgia no Arthur Penn de “Bonnie e Clyde”; no Mike Nichols de “A primeira noite de um homem”, e nos westerns sanguinários de Sam Peckimpah, que neste ano estava rodando o marcante “Meu ódio será tua herança”, para estrear no ano seguinte. Isto para não falar no acontecimento cinematográfico que foi o longo e delirante “2001 uma odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, provavelmente o filme mais importante de 1968.

Se quisermos insistir nos termos qualitativos, penso que a coisa certa a dizer é que o ano de 1968 vai encontrar, no mundo, um cinema de autores isolados, gênios individuais, pensando o século, sim, mas, cada um de acordo com o seu imaginário mais privado. Nesse rol, perfilo os já citados Fellini, Glauber, Kubrick, Antonioni, Godard, e figuras como Bergman (“A hora do lobo” e “Vergonha”, dois filmes em 1968) e Buñuel, que em 67 nos dera “A bela da tarde”, e, em 69 daria “O estranho caminho de São Tiago”. No contexto cinematográfico, são desses cineastas que lembramos quando paramos para pensar no ano em questão, ou nos seus arredores, temporais e/ou espaciais. Nem todos os filmes destes cineastas tiveram a ver, diretamente, com os avassaladores acontecimentos de 1968, mas, em termos históricos, a eles se integraram e, hoje, deles por tabela fazem parte.

Em tempo: como o espaço é pequeno e os filmes são muitos, acrescento uma relação de 10 títulos de 1968 que, por uma razão ou por outra, tiveram considerável repercussão junto ao público:

As sandálias do pescador (Michael Anderson)

Barbarella (Rober Vadim)

Inferno no pacífico (John Boorman)

Meu nome é Coogan (Don Siegel)

O bebê de Rosemary (Roman Polanski)

O planeta dos macacos (Franklin Schaffner)

O submarino amarelo (George Duning)

Primavera para Hitler (Mel Brooks)

Romeu e Julieta (Franco Zeffirelli)

Um convidado bem trapalhão (Blake Edwards)

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