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Tudo sobre os gringos

11 fev

Quem são os americanos, afinal de contas? Gente materialista e obtusa que só pensa em dinheiro e poder? Um povo laborioso e empreendedor que construiu a primeira democracia do planeta e a maior potência econômica do mundo? Uma nação ambiciosa e autoritária que vive de intervir nos destinos alheios? Uma civilização liberal que acolhe pensadores de toda parte do mundo? Um país etnocêntrico e racista que não tem visão para a alteridade? Uma raça de gênios que já abocanhou 320 prêmios Nobel?

Enfim, seriam os Estados Unidos o leito maligno do capitalismo selvagem, ou “o país das oportunidades”?

Quem nos convida a refletir sobre esse assunto instigante é o historiador brasileiro Antônio Pedro Tota, no seu livro “Os americanos” (2009), na verdade, um item na série “Povos e Civilizações” que, mui oportunamente, a Editora Contexto vem publicando.

Nada mais complicado – e também arriscado – do que definir uma civilização, o que, aparentemente, só poderia ser feito através de estratégias conceituais. Se assim é, a de Tota foi recontar a história dos Estados Unidos, do começo até hoje, mas isto, driblando a historiografia tradicional e atacando a questão com um enfoque novo e interessante.

Assumindo o recurso criativo do ensaio, Tota privilegia uma abordagem que se equilibra entre o pessoal e o imparcial, e que torna a leitura, não apenas instrutiva, mas também saborosa, às vezes divertida.  Havendo residido nos Estados Unidos, não hesita em incluir experiências particulares, que são eventualmente contrapostas a experiências alheias, retiradas de trechos obscuros da bibliografia consultada.

No geral, o seu enfoque é predominante comparativo, e Tota não se incomoda de quebrar a cronologia da narração para confrontar fenômenos equivalentes ou tematicamente relacionados, embora distantes no tempo (exemplo: a escravidão negra e a eleição de Obama); do mesmo modo que desmonta o espaço (no caso, o território americano) para cotejar fatos ou atitudes americanas com – por exemplo – fatos ou atitudes brasileiras.

Um dos cotejos que opera com certa graça é o da realidade com a ficção. Com freqüência, marcas de produtos comerciais, quadrinhos, pinturas, letras de música, desenhos animados, propagandas e slogans são evocados como textos que iluminam problemas sociais, econômicos e/ou políticos de modo esclarecedor.

Às vezes as suas explicações são verdadeiras aulas de semiótica, como quando convida o leitor a considerar a ironia na expressão “Cuba Libre”, a famosa bebida cubana, surgida ao tempo do ditador Batista, e composta, como se sabe, do rum autenticamente cubano com a americana Coca Cola. Tudo isso, para ilustrar o nada discreto intervencionismo dos Estados Unidos na ilha vizinha.

Um cotejo usual é com o cinema, a quem, aliás, Tota dedica um capítulo final. Mas, na verdade, o interessante não é vê-lo tratar do “país do entretenimento”, coisa já sabida do leitor; o mais interessante é quando, ao longo do livro, Tota evoca cenas ou sequências cinematográficas para explicar a formação do país.

Assim, os filmes de Frank Capra lhe servem para ilustrar a fé do povo americano no New Deal de Roosevelt, o pacote governamental que teria tirado o país da depressão de 29. Às películas “Adorável vagabundo” e “A mulher faz o homem” Tota dedica uma discussão da vida americana, como se os personagens fílmicos fossem verídicos. Do mesmo modo, as ficções científicas dos anos cinqüenta (mais o “Doutor Fantástico” de Stanley Kubrick) ajudam o leitor a entender a guerra fria e o marcartismo.

De modo extremamente pertinente, os faroestes de John Ford exemplificam pontos chave, não apenas na conquista do Oeste, mas noutra conquista maior, a dos direitos civis, que mais tarde desaguariam na instituição da democracia, num país que sequer unidade territorial possuía. Citado em várias instâncias, o personagem Ransom Stoddard (James Stewart), o advogado que vem ao Oeste bravio com um livro de direito debaixo do braço, parece ser, para Tota, uma figura tão significativa quanto qualquer líder real da história política americana.

Na mesma linha comparativa, “O poderoso chefão I” de Francis Ford Coppola é citado a propósito da imigração do começo do século XX, e “Touro indomado” de Martin Scosese, a respeito da obsessão americana por entretenimento.

Os paradoxos da vida americana despontam em toda parte e enriquecem a discussão. Um exemplo pequeno, mas bem sintomático: quem diria que o grande pensador, estadista e democrata Abraham Lincoln planejou – assim que a abolição da escravatura estivesse devidamente confirmada – enxotar a população negra do país, (cerca de quatro milhões de ex-escravos!)  para a nossa Amazônia, e só não o fez por causa da reação negativa do governo brasileiro?

Muito bem explicado está por que é que os avançados democratas de hoje eram republicanos, e os retrógrados republicanos do momento, eram democratas no passado. Pois é, antes, durante e mesmo um pouco depois da Guerra de Secessão, os aristocráticos ruralistas do Sul, que defendiam o sistema de escravidão, se auto-denominavam “democratas”, e a população esclarecida do Norte que, antenada com Lincoln, lutou pela abolição, se auto-intitulava “republicanos”. Pode?

Um tópico que não podia faltar é o da opinião alheia sobre os americanos. A esse respeito Tota argumenta que “o antiamericanismo anda de mãos dadas com o americanismo”. E cita o caso do Líbano onde, segundo pesquisa internacional, 60% da população é francamente hostil aos Estados Unidos, e onde, no entanto, o consumo de filmes hollywoodianos é avassalador. E, claro, o leitor sabe que o Líbano é apenas um caso entre muitos, no meio dos quais está o Brasil.

Correndo as páginas de “Os americanos”, em momento algum o leitor sente que está lendo um maçante Livro de História. Tudo nele parece mais um depoimento inteligente, vivaz, diversificado, rico, profundo – um depoimento de quem vivencia na pele as questões tratadas, no caso a pele de um brasileiro, ao mesmo tempo fascinado e intrigado (vários sentidos da palavra ´intrigado´) com esse povo tão antropologicamente diferente de nós.

À guisa de conclusão, Tota levanta algumas palavras que poderiam resumir o perfil antropológico do povo americano: “fé”, “perseverança”, “segurança”, “patriotismo”, “nacionalismo”, “eficiência”, “engenhosidade”, “autoestima”, “excepcionalidade” – explicando cada uma na perspectiva do já exposto ao longo do livro. A impressão que o leitor tem, contudo, é que algumas dessas palavras podem estar no corpo antropológico de outros povos: vejam o caso da última: será que todo povo, se comparado a outros, não se revela excepcional?

De minha parte, senti falta de uma discussão da expressão “o sonho americano”, conceito tão inerente à realidade dos Estados Unidos. Considerem que nunca se ouviu falar do “sonho brasileiro” ou do “sonho francês”, ou do “sonho russo” e, no entanto, o sonho americano é uma expressão-conceito que faz parte da civilização desse povo: está no folclore, na literatura, na música, nas artes em geral, na política e, sobretudo, no imaginário americano, assim como o carnaval, ou o futebol está no nosso imaginário. Acho que, num livro desses, cabia uma retomada da expressão.

Em tempo: com um pouco de ironia, o título desta matéria faz referência ao título do filme americano “All about Eve”, ou seja, ´tudo sobre Eva´. Para ficar mais clara a ironia: no Brasil, a ´Eva´ do filme é “A malvada”.

 

O plano americano e a plongée francesa

15 ago

Vendo cinema, duas alternativas opostas se colocam: ou você se envolve com o filme, ou não se envolve. Aparentemente, você se envolve se o filme é bom, e não se envolve, se o filme é ruim. Mas a coisa não é simples assim.

Por exemplo: você pode não se envolver, sem que o filme seja propriamente ruim. É que há filmes, eventualmente grandes filmes, que foram feitos para provocar o efeito do distanciamento. São filmes que não querem tanto que você se emocione com a estória narrada, como querem que você reflita sobre os meios que a narram. Técnicos ou semióticos, esses meios são, neste tipo de filme, enfatizados.

São dois modelos de cinema bem distintos: o que disfarça os meios narrativos e causam o efeito do envolvimento, e o que enfatiza esses meios e provoca o distanciamento do espectador. De um modo geral, pode se dizer que o cinema americano cabe no primeiro modelo, e que o europeu cabe no segundo.

Uma mesma estória pode ser narrada com distanciamento ou com envolvimento. O mero uso da câmera já permite as duas alternativas, e o simples gesto de enquadrar o ator já diz tudo. Um enquadramento que mostra o ator de cima para baixo, ou então, de baixo para cima, cria um efeito de distanciamento, pelo simples fato de que estes são, na vida cotidiana, ângulos esquisitos, inusitados, anormais. Salvo em casos muito especiais, ninguém olha para alguém como se estivesse sobrevoando a sua cabeça, ou como se estivesse posto no nível dos seus pés.

Mantenhamos-nos, contudo, na horizontal e recordemos os tipos de enquadramento que, nesta perspectiva realista, são possíveis. Na vida real, podemos avistar uma pessoa de longe (Plano Geral), ou de uma relativa distância (Plano de Conjunto), ou de perto (Plano Médio), ou de muito perto (Primeiro Plano), ou ainda de perto demais (Primeiríssimo Plano).

Tomada a realidade como parâmetro, qual desses planos – assim denominados no linguajar dos cineastas – é mais normal, ou mais anormal? Com certeza, o menos normal de todos é o Primeiríssimo Plano, no qual vemos da pessoa filmada, apenas uma orelha, ou um dedo, ou uma sobrancelha, como se a estivéssemos analisando com uma lupa.  Já os outros planos parecem normais, no sentido de prováveis, recorrentes, habituais.

Dentre os normais, há, porém, um mais normal que os outros: é o Plano Médio. Se você pensar direitinho, a distância mais freqüente – estatisticamente falando – entre o nosso olho e as pessoas em torno de nós é a desse Plano Médio, que nos faz ver os outros como os vemos habitualmente na vida diária: de corpo quase inteiro, mais ou menos dos joelhos para cima.

Com efeito, foi este o Plano Cinematográfico mais usado nos estúdios americanos da primeira metade do século, período em que a sétima arte formava e consolidava a sua linguagem básica. Hollywood clássica usou tanto esse Plano que, lá chamado de “medium shot”, ficou conhecido no mundo inteiro como “o Plano Americano”.

Para voltar aos dois modelos de cinema mencionados, uma coisa que faltou ser dita é que o cinema do distanciamento requer um espectador mais culto, intelectualizado, ao passo que o cinema do envolvimento não precisa disso: o seu espectador pode ser o homem comum sem muita instrução, que compra um ingresso para se distrair, sem qualquer compromisso intelectual. Conseqüência prática inevitável: o cinema do distanciamento dá menos lucro financeiro do que o cinema do envolvimento.

Ora, retomando o emprego dos planos no enquadramento horizontal, se dos cinco tipos de planos divisados, o Plano Americano é o mais recorrente na vida real, ele é consequentemente o de maior envolvimento, e, consequentemente, o que dá mais lucro. Nele, freqüência real, efeito semiótico e conseqüência financeira se coadunam de modo ideal.

Ora, malícias à parte, ou não, isso nos deixa com vontade de ir atrás de um segundo sentido para a expressão lingüística “plano americano”. Não é irônico que este modo tão conveniente de usar a câmera se chame justamente assim?

Sim, ninguém é ingênuo ao ponto de supor que não houve, na história do cinema americano – explicitado ou não – “um plano” (agora na acepção de ´projeto´, ´objetivo´, ´intento´, ´meta´) para ganhar dinheiro com a sétima arte. Com esse “plano americano” (sentido duplo: ´modo de usar a câmera´ e ´objetivo financeiro´) ganharam-se montes de dólares e se rodaram filmes ruins e bons. Ainda bem que, se esse convenientemente duplo plano gerou o chamado cinema comercial hegemônico do planeta, também gerou os filmes de Ford, Hawks, Minnelli, Wilder, Zinnemann, Wyler, Hitchcock, e de tantos outros cineastas geniais.

Para fechar, uma pergunta final inevitável: se a expressão técnica “plano americano” pode servir – como aqui sugerido – para, no bom e no mau sentido, metaforizar o cinema do envolvimento, que termo do vocabulário cinematográfico poderia simbolizar o cinema do distanciamento?

Não estou seguro, mas, creio que uma boa sugestão é a palavra francesa “plongée”, que, em sua acepção original de ´mergulho´, pode muito bem ser lida em sentido duplo para abarcar as duas coisas: a baixa freqüência real do ângulo inclinado e a intenção do cinema europeu de, contra o comércio, ser “profundo”.

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