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Antes do cinematógrafo

20 nov

A historiografia cinematográfica há muito concorda em que a primeira exibição pública de cinema aconteceu em Paris, no salão indiano do Grand Café, rua Capucine, 69, em 28 de dezembro de 1895, quando os irmãos Lumière projetaram, entre outros, filmes como “A chegada do trem à estação”.

Mas, será que esta foi mesmo a primeira exibição de cinema no mundo? Como se diz hoje em dia com assuntos polêmicos, há controvérsias. Ou não haveria?

O fato é que dois meses antes disso, em primeiro de novembro de 1895, em Berlim, mais precisamente no teatro Wintergarten, rua Martin Luther, outros irmãos, os inventores Max e Emil Skladanowsky, fizeram a exibição pública de oito pequenos filmes, num total de quinze minutos de projeção. “A dança serpentina”, por exemplo, mostrava na tela uma dançarina em movimento frenético, toda paramentada com uma roupa branca e frouxa, de longas mangas em estilo asas, que esvoaçavam no ritmo da dança e lhe concediam o ar de serpente enfurecida. Já “o canguru boxeur” exibia um rinque onde os lutadores era um atleta do boxe e o animal australiano, ou seja, um homem assim fantasiado, com uma enorme cauda que atrapalhava a contenda.

E aí, onde ficamos?

Cena de "Um truque de luz" (Wim Wenders, 1995)

Cena de “Um truque de luz” (Wim Wenders, 1995)

Bem, o que, segundo estudiosos do assunto, dá a razão histórica aos franceses, e não aos alemães, é que o aparelho – chamado Bioskop (bioscópio) – inventado pelos irmãos Skladanowsky não teve sustentação científica, o que significa dizer, o cinema consagrado não seguiu o esquema básico do seu funcionamento.

E em que consistia esse funcionamento? Indo por etapas, os irmãos Max e Emil Skladanowsky usavam máquinas fotográficas, com as quais batiam fotos seguidas, de um mesmo objeto ou pessoa, mudando ligeiramente as posições em cada tomada, e depois montavam os fotogramas numa fita Kodak, numa ordem tal que, ao ser rodada a fita e projetada em tela, desse a impressão de movimento. A rigor, portanto, não se tratava ainda da invenção de uma câmera que captasse o movimento do real.

Era só “Um truque de luz”, como está no título do semi-documentário que o cineasta alemão Wim Wenders rodou para a televisão, no ano do centenário do cinema, 1995.

Entrevistando uma das filhas dos inventores, a sra Lucie Skladanowsky, com noventa e um anos de idade, o filme se reporta à época e a reconstitui.

Um dos irmãos Skladanowsky testando seu material

Um dos irmãos Skladanowsky testando seu material

Bolado com humor e criatividade o filme de Wenders mistura documento com ficção, para recriar toda a fase em que os irmãos Max e Emil estão desenvolvendo a sua invenção, até o momento grandioso da exibição pública. A seção ficcional é toda filmada em preto e branco, com todas as características plásticas e técnicas das películas primitivas, e narrada em primeira pessoa, pelos personagens envolvidos, que às vezes se dirigem à câmera: primeiramente Gertrude, a filha mais velha de Max, na ocasião uma garota de dez anos de idade, extrovertida e brincalhona, mas ajudante dedicada do pai e do tio; em seguida, o próprio Max, que relata todos os atropelos de dois inventores, às vezes atrapalhados e truculentos. Para fazer o contraste temporal, a seção documental é toda colorida, com a Sr Lucie, respondendo a perguntas da equipe, relembrando a infância e nos mostrando souvenirs preciosos.

A filha pequena dos inventores ajuda no trabalho de filmagem

A filha pequena dos inventores ajuda no trabalho de filmagem

Como, na maior parte dos seus filmes, os irmãos Skladanowsky investiam fortemente no humor, Wim Wnders tenta fazer a mesma coisa e quase todas as cenas caseiras da família – baseadas em relato biográfico ou simplesmente inventadas – são engraçadas, lembrando gags dos filmes dessa fase do cinema. Um exemplo é aquela sequência em que o ator que fazia o canguru, no filme do ringue, um mulherengo incorrigível, leva, à noite e às escondidas, uma de suas conquistas amorosas aos ´estúdios´ dos irmãos Skladanowsky e, para não acenderem lâmpadas e assim serem notados, usam velas que, inadvertidamente, aproximam dos aparelhos de filmagem, consequentemente provocando um incêndio no local, que destroi metros e metros de imagens arduamente registradas.

Evidentemente, Wim Wenders não teve a pretensão de defender uma patente cinematográfica para seus compatriotas, e “Um truque de luz” (titulo original: “Die Gebrüder Skladanowsky” / ´os irmãos Skladanowsky´) foi feito como uma homenagem carinhosa a dois bravos criadores que quase chegaram lá, onde os irmãos Lumière haviam chegado. No filme há mesmo uma bem humorada admissão da inferioridade científica alemã, quando se mostram cenas da sessão no Grand Café de Paris, com a exibição de “A saída da fábrica Lumière”, e a voz de um dos Skladanowsky confessa sua admiração pelo filme estrangeiro.

Uma pena que, feito para televisão, “Um truque de luz” não nos tenha chegado na época própria, a do centenário do cinema. Vejo-o agora em cópia eletrônica e me reporto às tantas comemorações de 1995.

Wim Wenders filmando e sendo filmado em "Um truque de luz".

Wim Wenders filmando e sendo filmado em “Um truque de luz”.

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