Pipocando

17 set

Não sei se vocês conhecem esse programa sobre cinema, na televisão paga, chamado “Pipocando” – aliás, também disponível no Youtube onde, na verdade, originou-se.

A rigor, são dois jovens comentando cinema – normalmente filmes atuais, relançamentos, bastidores das produções, ou coisas temáticas do tipo cenas de ação, de amor, etc. Ou curiosidades cinematográficas, como filmes que fizeram predições sobre o futuro, filmes que conduziram a escândalos, filmes sem finais, filmes com finais alternativos, filmes estragados pelos finais, filmes com sexo de verdade, os piores filmes do ano, coisas assim.

Ficam os dois frenéticos rapazes sentados no mesmo sofá, de frente para o espectador e falam, falam, falam… enquanto mastigam uma montanha de pipoca.. Isto numa velocidade incrível, com gestos igualmente céleres, um interrompendo o outro o tempo todo. Até caretas valem, ou mímicas ridículas, imitando certas interpretações de atores. O alvoroço é tão grande que nas primeiras vezes que assisti, tive dificuldade de entender do que falavam, e só com certo esforço auditivo pude acompanhar.

Claro, é um programa dirigido a adolescentes e a linguagem – a plástica e a verbal – é de adolescentes. Tanto é assim que, nas falas, dá pra contar quantas vezes é usado, por exemplo, o vocativo “galera” – sempre metido no meio das frases, como se a querer saber se o espectador “está ligado”. Erros de português são comuns (“ele viu ela”) e mesmo palavrões (“vá se ferrar”), eventualmente dirigidos aos espectadores.

Se porventura você abstrair o assunto, vai ter a impressão de que se trata de dois jovens contando um pro outro, as peripécias ocorridas na balada da noite anterior – quem comeu quem -, ou, se for o caso, as últimas fofocas picantes do colégio onde estudam.

A pergunta é: há crítica cinematográfica em “Pipocando”? Há sim, e em alguns casos, até bem fundamentada. Uma instância legal é quando a dupla discorda entre si na avaliação do filme comentado… e assume a discordância.

Com certeza, o programa tem uma boa audiência e deve ser um meio interessante para despertar, no adolescente, o interesse pelo cinema. Afinal, queiramos ou não, cinema também é cultura de massa e qualquer abordagem é válida, se consegue atrair um público jovem que, mais tarde, pode amadurecer e tornar-se mais criterioso. Criado pela dupla de apresentadores Rolandinho e Bruno Bock, originalmente para o Youtube, o programa já gerou até um livro: “Pipocando – os bastidores do maior canal de cinema da América Latina”.

Pessoalmente, o meu receio com esse “internético/televisivo estilo jovem” de discutir cinema está em como ele vai tratar o cinema clássico. Até agora não vi nenhum grande clássico do passado sendo ´discutido´ pelos dois frenéticos apresentadores. Nem sei se quero ver.

De repente, me vejo imaginando – digamos – “Casablanca” (1942) sendo recriado nesse descontraído estilo teen de hoje em dia, algo assim como:

“Dono de cassino beberrão se topa com velho xodó, só que agora ela tem um maridão a tiracolo, e, pior, comete a maluquice de pedir ao negão do piano que toque a musiquinha que embalou o chamego dos dois, no passado”.

Ou “Cidadão Kane” (1941) assim:

“Figurão da imprensa fica puto ao perder eleição e, só de teima, casa com a rapariga que fora o assunto do escândalo. Vive e morre à procura de uma palavra que, segundo uns, seria o nome de um brinquedo infantil, e, segundo outros, mais maliciosos, seria uma referência subliminar à xoxota que o fez perder a eleição.”

Ou “Crepúsculo dos deuses” (1950) assim:

“Roteirista fodido se refugia no casarão de coroa que tinha sido atriz do cinema mudo. Desmiolada, ela quer voltar às telas, e quando ele discorda, leva um balaço nas costas e vai morrer no fundo da piscina de onde (milagres do cinema) nos conta a encrenca toda.”

Pensando bem, volto atrás: até que seria interessante ouvir o que os dois jovens pipoqueiros do programa teriam a dizer sobre estas obras primas… e outras. Enfim.

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Escritor de Segunda Unidade

10 set

A expressão acima não existe. Acabei de criá-la, e o fiz em analogia ao cinema. A expressão cinematográfica é “Diretor de Segunda Unidade”, que preciso explicar pra justificar o título desta matéria. Vá lendo, que chego lá.

Hoje nem tanto, porém, nos velhos tempos da Hollywood clássica o “Diretor de Segunda Unidade” era uma figura imprescindível na produção de um filme. Sobretudo se o filme era de ação, mais ainda se essa ação se estendia a campos de batalha. Os combatentes poderiam ser os índios e a cavalaria americana, ou os nazistas e os aliados, ou os gregos e os troianos, pouco importava…

O que ocorria é que essas cenas com centenas ou milhares de figurantes na frente da câmera (e claro, sem tomadas dos atores principais) normalmente não eram filmadas pelo diretor principal – aquele cujo nome aparecia nos créditos do filme. Não. Essas cenas cheias de movimentação – cujo conjunto tinha a finalidade de dar uma visão geral da batalha – ficava ao encargo do nosso Diretor de Segunda Unidade.

Um empregado da Companhia com função bem particular, o Diretor de Segunda Unidade não tinha direito a crédito, e, em muitos casos, mal era conhecido do pessoal da produção. Até porque as suas filmagens eram feitas em locais distantes de Hollywood – e não necessariamente ao mesmo tempo da produção.

Quantas cenas de batalha nos filmes de, digamos, Raoul Walsh, Howard Hawks, Michael Curtiz ou mesmo de John Ford, não foram rodadas na ausência deles, apenas vistas depois em salas de montagem, onde eram “ajeitadas” para caber bem no fluxo narrativo do filme.

Pronto, devidamente apresentado o Diretor de Segunda Unidade,  vamos à questão: por que dei a esta matéria o título de “Escritor de Segunda Unidade”?

É que vivo sempre comparando cinema e literatura, e fico me indagando como poderia ser útil, no âmbito literário, um profissional desses, que ajudasse o romancista a não perder tempo com longas descrições de batalhas… pois ele mesmo as escreveria. Pensem no Tolstoi de “Guerra e paz”. Acho que ele teria ficado grato a um cara desses.

E no caso dessa arte essencialmente verbal que é a literatura, por certo a providencial atuação desse Escritor de Segunda Unidade não se limitaria às cenas de ação. Todas aquelas tediosas descrições de fachadas de casas antigas, ou mobiliários cheios de detalhes inúteis, ou de paisagens intermináveis, teria facilitado, se feitas por outrem, a vida de – digamos, Sthendal, Balzac, Melville, José de Alencar, Victor Hugo, e até mesmo Proust.

Naturalmente essse “Escritor de Segunda Unidade” teria que ser uma pessoa muito bem treinada para o ofício, e que, como no caso do cinema, receberia o seu devido pagamento… sem direito a crédito.

Pois bem, se existisse esse tipo de profissional no âmbito literário, acho que eu mesmo iria começar a me organizar para escrever um belo e longo romance. Já que não seria um romance de guerra, o meu Escritor de Segunda Unidade ficaria responsável pelas longas descrições das paisagens, das fachadas de prédios, e da rotina do personagem, coisas que me aborrecem só de pensar em fazer.

Aliás, para o meu Escritor de Segunda Unidade imagino um monte de funções com mais minúcias do que a do seu colega cinematográfico. Por exemplo, arranjar um título para o romance a ser escrito, como se sabe, coisa muitas vezes mais difícil do que escrever o próprio romance. Inventar os nomes dos personagens também poderia ser muito útil, nomes que os futuros exegetas da obra pudessem achar que tinha a ver com a temática abordada.

Mas, um serviço adicional, com direito a pagamento extra, que eu iria querer do meu Escritor de Segunda Unidade seria o seguinte: seria o de transmudar minhas pobres e insossas frases prosaicas em construções metafóricas, cheias de belas imagens que dessem ao texto algum viço, e se possível algum encanto.

O perigo seria, pronto o livro, ele reivindicar uma co-autoria.

Ou, pior, a autoria completa.

A sociedade literária e a torta de casca de batata

28 ago

Ao tempo do III Reich, se os alemães não chegaram à Inglaterra, chegaram perto. Por exemplo, da costa norte da França ocupada para a ilha de Guernsey foi um pulo. Sim, em 1941 essa ilha britânica foi invadida e sua população, sob o domínio nazista, comeu o pão que o diabo amassou.

A estória está contada, e muito bem contada, no filme de Mike Newell, “A sociedade literária e a torta de casca de batata” (2018), em exibição no NetFlix.

Para o espectador, tudo começa um pouco mais tarde, no ano de 1946, a guerra já finda, e os estragos já feitos. E começa com correspondência. Em Londres, a escritora Juliet Ashton descobre que existia na referida ilha essa curiosa “sociedade literária” do título do filme, espontaneamente formada por pessoas comuns que gostavam de literatura e se juntavam para comer torta e conversar sobre livros e autores.

Depois de um tempo correspondendo-se com um dos membros, o bibliófilo e criador de porcos Dawsey, Juliet resolve viajar para Guernsey e visitar a tal sociedade, com o intuito de escrever, para o “The Times”, uma inspiradora reportagem sobre o caso. É bem recebida pelo pequeno grupo, discute com eles a ficção das irmãs Brontë e come da torta de casca de batata, porém, ao propor a entrevista para a revista, recebe um retumbante não.

Por que a Sra Emilia, a mais idosa do grupo, opõe-se tão terminantemente à entrevista? É claro que Juliet não se conforma com a recusa, e tomada pela curiosidade, passa, a partir daí, a investigar sobre o caso todo, tendo e dando oportunidade ao espectador de vir a saber o que, de fato, teria acontecido nessa ilha isolada do Canal da Mancha ao tempo em que os alemães lá estiveram.

De cada membro do grupo, as revelações vão vindo aos poucos, com muitas reservas, mas, de todo jeito, cada uma delas endossada por flashbacks generosos, que nos revelam talvez mais do que estava no intento de cada um revelar.

Misturando guerra, amor e literatura, o enredo é empolgante e prende a atenção do espectador, como sempre fazem os filmes de Newell. Não pretendo revelar esse enredo, mas apenas nele apontar um eixo actancial essencial, formando por duas figuras, uma presente na estória, a outra, ausente: a primeira é uma garotinha de quatro anos, kit; a segunda é uma mulher apaixonada e corajosa, Elizabeth, que enfrentou o nazismo de várias formas. Aquela é criada pelos membros da Sociedade literária; esta última, já morta, só a vemos em flashbacks. Naturalmente, se trata de filha e mãe. Pois bem, o modo difícil como a escritora Juliet se apazigua com a Sociedade literária e seus membros passa por essa dupla dramática. E mais não conto.

Baseado no romance homônimo de Mary Ann Shaffer e Annie Barrows, não sei até que ponto o filme tem raízes na História real, mas, se não tem, bem que poderia ter, pelo menos por uma razão: é que a ilha de Guernsey possui background literário. Foi, no século XIX, refúgio do escritor francês Victor Hugo, que lá morou por quinze anos e lá escreveu o seu magistral “Os miseráveis”.

Como sugere o título do filme (no original: “The Guernsey literary and potato peel pie society”), a literatura é uma dominante na estória, e é uma delícia acompanhar as discussões do grupo sobre quem, das irmãs Brontë, seria a maior, ou coisas desse nível. Depois do desenlace, durante a exposição dos créditos, não desliguem a televisão e fiquem atentos às vozes dos personagens lendo trechos chave dos seus autores preferidos, que vão de Virginia Woolf a Shakespeare, passando por Charlotte Brontë e Robert Louis Stevenson.

Enfim, uma estória de amor (para ser mais correto, duas), um filme de guerra, mas também, uma obra sutil e delicada sobre afinidades literárias e o modo como elas formam e transformam as pessoas, eventualmente unindo-as, ou, no caso de faltar, separando-as.

Duas Hollywoods

21 ago

Já me perguntaram por que, sendo tão ligado a cinema, nunca quis visitar Hollywood. Ao me fazerem a pergunta, tenho sempre a resposta na ponta da língua: se a viagem daqui pra lá fosse, não espacial, mas temporal, eu iria com muito prazer.

Aí então eu iria conhecer os grandes estúdios dos velhos tempos, que fizeram a glória da Meca do Cinema: a MGM, a Fox, a Universal, a Warner, a Paramount… Hoje, o que eu vou ver em Hollywood, senão computadores e executivos? Gastar um dinheirão pra isso?

Pois bem, por módicos 34 reais, fiz a visita a esta Hollywood de agora, e isto, sem sair de casa. Em livraria local, acidentalmente encontrei esse livro “Hollywood é como a escola” (Zoey Dean, Record, 2013) que, pela orelha, vi logo que supria o meu suposto intento de ter, de perto, uma visão de como funciona por dentro a Hollywood de hoje em dia.

Ficcional, o livro é um romance, mas escrito por quem conhece muito bem os bastidores da Hollywood atual, local onde a estória se passa. Em primeira pessoa verbal, é a protagonista quem nos relata a estória. Ela, Taylor Henning, é uma moça simples e determinada, que ganha o emprego do que eles hoje chamam pela sigla de C.E., ´Creative Executive´, cuja função é ler roteiros, opinar sobre, e decidir quais podem eventualmente virar blockbusters ou Oscar winners, ou, se não isso, ao menos um filme rentável. Mas, a criatividade desse executivo também se estende à toda a logística da produção e da divulgação, aí incluídas todas as infindáveis trapaças da atividade. Quase tudo resolvido nas teclas dos mil computadores.

Como se imagina, a vida não é nada fácil nesse mundo semi-virtual de fakes e fatos indistintos, povoado por ambição e controlado pelo dinheiro. Taylor é só uma mocinha talentosa, mas inexperiente, e seu aprendizado sobre a luta pela ascensão profissional é penoso e devasta sua alma. Às vezes ela tem que ser vil, mesquinha e até traidora; às vezes tem a chance de ser nobre e, claro, ela é uma coisa ou outra, a depender da conveniência.

Para mim, são duas.

De minha parte, me agradaram duas coisas no livro – a verossimilitude do enredo (sim, com certeza, a eletrônica Hollywood atual funciona assim) e, apesar do predomínio do virtual, o empenho da narradora em ser descritiva ao extremo. Não apenas a geografia da cidade é retratada com realismo, como também as roupas, sapatos, drinques, pratos, cachorros, móveis, smartphones e automóveis dos personagens – tudo descrito com uma minúcia documental.

Depois de ter lido, soube que o livro – escrito a quatro mãos por um casal que usa o codinome de Zoey Dean – virou uma série televisiva e não me surpreendi. Seu enredo é novelesco, cheio de pequenas intrigas que se enlaçam e desenlaçam, sem perder o foco duplo em dois caminhos centrais, nem sempre paralelos: subir na profissão e conseguir o grande amor.

Achei que ia me aborrecer com um livro que só estava lendo por curiosidade, mas que nada: identifiquei-me com essa “executiva de criação” meio truculenta, vibrei com suas astúcias sacanas e sofrei com suas quebradas de cara.

A moderna Taylor Henning se refugia no clássico de Capra (1946)…

Um dado a favor de minha curtição é que, embora diferentes nos resultados artísticos, as duas Hollywoods – a de hoje e a antiga – se tocam em vários pontos, claro. O principal, para mim, é que, se porventura opaca e limitada, a de hoje continua perseguida pelo imenso brilho da antiga. Sem coincidência, o texto está cheio de referências à era clássica. Por exemplo, qual é o filme que Taylor, depois de um certo retumbante fracasso profissional, vai ver, tristonha, no seu aparelho de televisão caseiro? Claro, “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946).

Uma dessas referências ao passado é mais sintomática que todas as outras. Quando por acaso Taylor põe as mãos no interessante roteiro de uma principiante tímica e insegura, em quem ninguém acreditava, a frase que lhe vem à mente é: quem sabe se esse roteiro não poderá ser o “Casablanca” moderno? Se vai ser mesmo o leitor não vem a saber (o livro termina no meio das filmagens), mas uma coisa é certa: a frase de Taylor constitui, a rigor, uma grande ironia do livro, pois  esconde de propósito a verdade que  todos nós estamos cansados de saber: que, na Hollywood de hoje em dia, ninguém tem capacidade para fazer um filme com a grandeza de “Casablanca”. E por extensão, com a grandeza de todo o cinema clássico dos anos 30, 40 e 50…

Por essas e outras é que só aceitaria ir a Hollywood, se a viagem fosse temporal. Tenho dito.

Já não se fazem mais filmes com a grandeza de Casablanca….

“Duelo de titãs” no Arte 1

14 ago

Assisti a “Duelo de titãs” (“Last train from Gun Hill, 1959, de John Sturges) pela primeira vez em torno de 1960, no Cine Sto Antonio, e, fã de faroestes, junto com a garotada toda de Jaguaribe, torci feito louco pra Kirk Douglas sair ileso da briga com Anthony Quinn e seus malfeitores.

Hoje, quase sessenta anos depois, o vejo exibido na televisão, com a rubrica “cineclube”, num canal chamado Arte 1, que, como o nome diz, só exibe obras artísticas de alto nível.

O tempora, o mores… Naquela época de sua estreia local, jamais “Duelo de titãs” seria considerado arte. Jamais seria mostrado, por exemplo, no “Cinema de arte” do Cine Municipal, cuja programação era selecionada pela Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba. Afinal, “Duelo” era só um faroeste hollywoodiano, mais um – cinema comercial, feito pra entreter a gurizada.

Hoje no Canal Arte 1, ele é arte, sim, senhor. O reconhecimento demorou sessenta anos, mas valeu.

De minha parte, confesso que me sinto bem em perceber que, nos meus treze anos de idade, eu já intuía que “Duelo de titãs” era tão bom, ou melhor, que alguns dos petardos vanguardistas que nos atingiam, vindos da Europa, e que os críticos locais tanto elogiavam.

Uma experiência maravilhosa, revê-lo agora só confirma o que eu sempre soube. Com um elemento adicional: o filme de Sturges confirma uma tese que defendo – sempre defendi – o de que, ao contrário do que julgam algumas feministas – o gênero faroeste deu um papel mais que destacado às mulheres.

Vejam o papel dessa Linda (a ótima Carolyn Jones) na estória toda. Na pequena Gun Hill, ela é só uma mulher de vida mais ou menos fácil, ex-amante do chefão Craig Belden (Anthony Quinn), mais respeitada pelos marmanjos locais por essa relação que por outra razão. E, no entanto, correndo todos os riscos do mundo, é ela a única no local a ajudar o enrascado Matt Morgan (Kirk Douglas), que veio da cidade vizinha com uma missão impossível: prender o filho do Chefão Belden, de quem era amigo de longas datas.

O imbróglio é o seguinte. Dias atrás, uma mulher fora estuprada e morta numa estrada deserta. Índia de origem, acontece que essa mulher era ninguém menos que a esposa de Matt Morgan, Xerife da cidade. Depois de alguma busca, Morgan descobre que o culpado era filho de Craig Belden, seu amigo do passado, hoje um poderoso dono de terras e gentes na vizinha Gun Hill. O que faz? Toma o trem para Gun Hill, disposto a impor a lei.

É claro que o amigo protesta, e não só isso, monta um esquema para impedir a prisão do filho. De todo jeito, o rapaz é capturado por Morgan e, devidamente algemado, é conduzido a um quarto de hotel, onde, amarrado ao leito, com Morgan de seu lado, deve esperar o último trem que deixa Gun Hill… com destino à forca. Lembrar que, no original, o título do filme é justamente “Last train from Gun Hill” (´o último trem de Gun Hill´).

Com praticamente a cidade inteira armada contra ele, é improbabilíssimo que Morgan consiga a proeza de, carregando o seu prisioneiro, tomar o trem. É aí que entra a participação de Linda. Mas não dá pra contar o resto do enredo. Lembro só a cena em que ela, furtando a espingarda no balcão do hotel, esconde-a debaixo de suas muitas saias e sobe as escadas, decidida a ajudar esse quase desconhecido que ela, por razões óbvias, admira, e sofrer todas as consequências.

O filme é narrado num ritmo apropriadamente acelerado, com um fato seguindo o outro de modo lógico, no melhor estilo fluente da chamada “decupagem clássica”. Sem ser propriamente um mestre, Sturges era um artesão experiente que sabia tirar emoção, tanto da ação, como dos jogos psicológicos que um diálogo inteligente e ferino enriquecia.

Toda a sequência, por exemplo, no quarto do hotel onde estão Morgan e seu prisioneiro é uma lição de cinema que está, plasticamente, no uso do espelho do guarda-roupa para ver o corredor e a escadaria, e, verbalmente, no embate oral entre os dois personagens, aquele primeiro, por exemplo, fazendo para o outro, a longa e horripilante descrição psico-fisiológica de como será sua morte no cadafalso.

Enfim, vamos ao Arte 1, que só mostra arte!

Anna Karenina – a história de Vronsky

9 ago

O romance de Tolstoi, Anna Karenina é um dos meus livros mais amados. Por isso fui ver este filme em cartaz “Anna Karenina – a história de Vronsky” (2017) do diretor russo Karen Shakhnazarov.

O outro chamativo para mim foi a segunda parte do título, sugerindo que a história da trágica protagonista de Tolstoi seria, agora, uma versão do seu amante. Tudo indicava que o que eu ia ver era aquele artifício, de que tanto gosto, de ir-se atrás das lacunas que uma obra ficcional oferece e preenchê-las a seu bel prazer. Eu mesmo já praticara essa brincadeira, num livro chamado “Um beijo é só um beijo”.

E, sim, era isso mesmo. Em 1904, trinta anos depois do suicídio de Anna, estamos na China, nos campos de batalha da guerra russo-japonesa. Numa aldeia devastada, o médico que cuida dos feridos é Sergei, filho de Anna, e um dos feridos quem é? Sim, esse militar já maduro que responde pelo nome de Vronsky.

Como esperado – ou inesperado? – depois de tratá-lo, Sergei pede a Vronsky que lhe conte o que de fato teria ocorrido à sua mãe. Este concorda, porém, sabiamente o previne de que “as pessoas só lembram o que elas querem”, certamente um recado aos espectadores, vindo diretamente dos roteiristas. Ou, se for o caso, do autor do conto adaptado “Notas de um médico sobre a guerra russo-japonesa”, do escritor Vikenty Veresaev.

Produção suntuosa e extravagantemente longa, o filme recria o luxo da Rússia aristocrática com gosto. A cena do baile em que Anna e Vronsky se conhecem e dançam é só um exemplo, pois até a desolação da aldeia chinesa destruída é caprichada, para não falar nas explosivas cenas de batalha.

Para mim, o problema do filme não é o luxo da produção. Ele fica mais embaixo, ou seria mais acima: está na construção mesma da personagem central, Anna.

Na primeira parte do filme, Anna é uma mulher imperiosa, decidida, forte, sempre de cabeça erguida e nariz arrebitado, decidida, na sua condição de adúltera num meio extremamente conservador e hipócrita, a enfrentar o marido e a sociedade – possivelmente mais imperiosa do que a triste heroína de Tolstoi. Para conferir este perfil, basta lembrar, no filme em questão, cenas emblemáticas, como: (1) a do referido baile; (2) a dramática cena no hipódromo, com a queda do cavalo de Vronsky; (3) a quase heroica cena no teatro em que ela, de pé no camarote, se impõe ao público como se no palco estivesse.

Pois bem, depois disso, em toda a longa e difícil de engolir segunda parte do filme, ela vai evoluindo (eu diria, involuindo) para se transformar – desculpem a expressão popular – numa chata de galocha. Poupo o leitor da descrição, mas, com toda certeza, nada do que se espera da alma dilacerada e trágica que tomará a atitude drástica do desenlace conhecido de todos.

Ainda sobre personagens, o espectador poderá se indagar sobre a função daquela garota chinesa, na aldeia destruída pela guerra, que tanto atrai o interesse de Vronsky. No conto adaptado é possível que seu papel estrutural esteja mais claro. Aqui ela é um dado solto, sem relação necessária com o caso Anna/Vronsky, e que apenas prolonga o que já está longo demais, um filme com 2 horas e 38 minutos de duração.

Estruturalmente, o espectador curioso vai notar o uso estratégico que é feito disso que a teoria do cinema chamada de paralepse.

Vejam que a estória de Anna nos é contada no ponto de vista limitado de Vronsky, e, no entanto, em várias ocasiões, temos acesso a momentos íntimos, tipo quatro paredes, entre Anna e o esposo Karenin, ou entre Anna e sua criada, ou entre Anna e o irmão Stiva, momentos que Vronsky jamais poderia haver testemunhado. Nessas ocasiões é uma narração onisciente que se infiltra na limitação narrativa do personagem, isto sem que o espectador distraído se dê conta. Mas, atenção, longe de ser defeito, este é o recurso narrativo mais comum na Sétima Arte de todos os tempos. Ironicamente, talvez aqui ele endosse a observação inicial do próprio Vronsky: a de que quem conta uma história, lembra o que quer – e acrescentaríamos… até o que não pode lembrar.

“Anna Karenina – a história de Vronsky”, devo recomendar o filme? Talvez sim, porém, com menos convicção a quem é leitor de Leon Tolstoi.

Bergman 100 anos

30 jul

O cineasta Ingmar Bergman sentia dores estomacais constantes, detestava legumes e comia, o tempo todo, bolacha Maria. Coisas assim, e outras mais, estão no documentário “Bergman – 100 anos” (2018), em exibição local.

O filme da diretora Jane Magnusson concentra-se no ano de 1957, supostamente, o mais produtivo na carreira do cineasta sueco, tanto é assim que o título original se traduz por “Um ano em uma vida” (“A year in a life”).

De fato, nesse ano Bergman lançou e/ou rodou vários filmes, tanto para o cinema como para a televisão, e encenou mais de uma peça de teatro – numa demonstração homérica, não apenas de talento superior, mas de extraordinária capacidade de trabalho.

O filme segue a cronologia do ano, de janeiro a dezembro, embora, em cada caso, a narração retroceda ou se adiante no tempo, para incluir outros momentos da linha existencial do cineasta. De forma que, no geral, o espectador pode desfrutar de um passeio pela carreira e pela vida do biografado – do começo ao fim.

Como mantém o título brasileiro, o filme celebra o centenário de nascimento do autor e é, portanto, elogioso. Trata-se de um dos maiores cineastas de todos os tempos e a narração faz nisso a ênfase cabível. O que não impede que se revelem aspectos da personalidade do biografado não muito edificantes, suas idiossincrasias, suas contradições, incorreções políticas e suas sombras tímicas.

Uma dessas sombras mais desconcertantes para os fãs do cineasta é ficar sabendo que, na juventude, Bergman foi viver na Alemanha e se envolveu até a alma com o nazismo, tornando-se um declarado entusiasta da política de Hitler. Tanto assim que, ao término da guerra, quando os horrores dos campos de concentração vieram à tona, ele se recusou a acreditar, e, por um tempo, permaneceu fiel à ideologia nazista.

Cena em “Morangos silvestres”, 1957.

Menos desconcertante, até porque já conhecida, é a vida amorosa de Bergman, sempre envolvido com várias mulheres, algumas das quais suas belas atrizes. Acho que seu lado “monstro sagrado” tampouco deve ser surpresa para o espectador que, no documentário, tem notícias de seu massacre ao pessoal de sua equipe de filmagem a um nível que sugere sadismo.

Colegas de trabalho, como assistentes de direção, fotógrafos, roteiristas, atores, atrizes, além de amigos e parentes, dão depoimentos que, uns mais outros menos, confirmam esse comportamento autoritário de uma celebridade que usava seu status para conseguir seus objetivos artísticos.

Entre os depoentes alguns são meros fãs, como a cantora Barbra Streisand, e, em momentos assim, o espectador sente falta de fãs bem mais consequentes, por exemplo, o cineasta Woody Allen, que dele tanta influência recebeu. Sim, uma ausência incompreensível.

Bergman em ação.

Para o fã do Mito Bergman, a penetração na vida privada do seu ídolo é estimulante. Já para o estudioso da obra do cineasta sueco um problema seria o que fazer com todos esses dados biográficos. Ocorre que, se alguns deles se refletem nessa obra, outros, – a maioria – não, e ficam cheirando a mexerico de coluna social. Por exemplo: a competição entre o pessoal da equipe de filmagem para atacar a caixa de bolacha Maria e furtar bolachas sem Bergman pressentir. Ou depois do furto, devolvendo a bolacha, com receio da descoberta e consequente reprimenda.

Compreensivelmente, os filmes não são analisados – mesmo os do ano em foco (“O sétimo selo” e “Morangos silvestres”) e o espectador mais exigente sai do cinema com a sensação de ter visto mais “vida” que “obra”.

De minha parte, adorei o modo como o documentário se fecha, com Bergman revelando – e mostrando – qual é a sua tomada cinematográfica mais querida, aquela meio onírica do close no rosto do velho médico aposentado, no final de sua obra prima “Morangos silvestres”. Adorei porque esta também é a minha tomada favorita: no vídeo que montei com cem cenas de cinema, exibido no lançamento de meu livro “Imagens Amadas”, em 1995, foi esta a tomada que escolhi para representar Bergman, no ano do centenário da Sétima Arte.

Claro, o efeito colateral de “Bergman – 100 anos” é a vontade que nos ataca de rever os filmes do autor, se possível fosse, todos, se possível fosse, na ordem dos lançamentos.

O ator veterano Victor Sjöström, na tomada preferida de Bergman.