Mary Shelley

17 jul

Com sua atmosfera tenebrosa e seu desenlace triste, a estória dessa “criatura” inominada já faz parte, há muito tempo, do folclore moderno. Inominada? Quem, por tabela, lhe empresta o nome é o seu criador, também ficcional, o Dr. Frankenstein.

Refiro-me ao livro da romancista inglesa Mary Shelly, “Frankenstein ou o moderno Prometeu” (1818) que, como sabemos, já serviu de roteiro para inúmeros filmes, ao longo da história do cinema.

Pois bem, agora é a vida da própria autora da estória que chega às telas, e vem com o seu nome “Mary Shelley” (2017).

Dirigido pela árabe Haifaa Al-Mansour, essa produção inglesa vai entrar na vida de Mary nos dois ou três anos que antecederam a publicação do seu romance. Vivendo com o pai William Godwin – filósofo e escritor famoso – uma irmã, uma madrasta hostil, e, talvez mais grave, a má fama de uma mãe feminista e adúltera, já falecida, Mary é, quando o filme começa, uma adolescente de 16 anos, insatisfeita com a mesmice da rotina, e à procura de uma afirmação e de uma identidade. Rabisca e conta estória de terror à irmã, mas nada que se leve a sério. Na maior parte dos casos, como lhe diz o pai, imitação do que lia. “Encontre sua própria voz”, lhe diz ele um dia.

Bem, antes de encontrar sua própria voz, ela encontra o homem de sua vida, o então já afamado poeta Percy Byssche Shelley, por quem se apaixonada e com quem inicia um caso amoroso no melhor estilo da época, claro, o “romântico”.

Em seguida vêm os elementos fundamentais ao Romantismo: sim, as tempestades e as fúrias, uma coisa atrás da outra. Em primeiro lugar, a notícia de que ele é casado: a briga em família, a fuga de casa, com a desaprovação do pai, problemas financeiros, a perda de uma filha recém-nascida, a vida promíscua do marido e seu parceiro de prática poética, Lord Byron, são fatores que agravam o relacionamento do casal.

Mas claro, essa lista de atribulações no roteiro é só para chegarmos ao seu corolário compensador: a escritura, primeiramente secreta, do livro que imortalizaria a penalizada Mary. O marido é o primeiro a ler o romance, gosta, aprova, e no entanto, lhe faz a pergunta que não cabia fazer: “por que a criatura formada de partes alheias não foi um ser superior, um anjo celeste e feliz?” O interessante é que a irmã, em princípio leiga em questões literárias, é quem entende o romance e o interpreta corretamente: a criatura de Dr. Frankenstein teria nascido do sofrimento da autora.

A primeira edição sai anônima com prefácio de Shelley, o que dá a impressão de ser dele a autoria, embora ele mesmo confesse a verdade, na ocasião do lançamento. A segunda, porém, auspiciada pelo pai reconciliado, já traz o nome da autora e concede a essa jovem de 18 anos de idade o estatuto público de escritora.

O filme é fiel à vida de Mary e, sem escassez nem exagero, cumpre bem o papel de ser biográfico. Com ótima atuação e quase todo o tempo de tela, com planos em close, a atriz Elle Fanning convence como essa jovem sonhadora que vê seus sonhos atropelados pelas circunstâncias da vida e dá a volta por cima, ao menos a volta possível.

Uma das coisas boas no filme é a recriação da atmosfera prevalecente nessa fase tão importante da história da literatura inglesa – o Romantismo. Quase todas as figuras da época aparecem, ou são referidas no diálogo, e muitos dos eventos mostrados, direta ou indiretamente, comentam os princípios da escola literária que deu os cinco nomes maiores no terreno da poesia: Wordsworth, S.T. Coleridge, Byron, Shelley e Keats.

De minha parte, supunha que uma grande influência na criação do romance de Mary Shelley tivesse sido o gótico e apavorante Coleridge de “The Rhyme of the Ancient Mariner”, mas que nada: num sarau, rodeada de poetas, onde estava o próprio Coleridge, em dada ocasião, Mary confessa ao companheiro Shelley, secretamente e com um riso zombeteiro, que Coleridge havia sido leitura infantil que agora, madura, simplesmente descartava.

Enfim, assistindo a “Mary Shelley” senti o que raramente sinto: saudade do tempo em que, professor da UFPB, lecionava literatura inglesa para alunos da graduação e da pós no Curso de Letras. À parte seus eventuais limites estéticos ou de outra ordem, um filme desses, puxa vida, teria sido muito útil para ilustrar o programa do curso. Fica o recado para os professores atuais.

Mary Shelley, a própria.

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Centenário de Ingmar Bergman

10 jul

No dia 14 deste mês de julho comemora-se o centenário de nascimento de um dos maiores cineastas do planeta, o sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Para celebrar, reproduzo crônica que publiquei na ocasião da morte do cineasta, onde relato o meu primeiro impactante contato com sua obra cinematográfica, no caso, com “A fonte da donzela” (1960).

Nunca esquecei o meu primeiro contato com Ingmar Bergman. Foi em 1961, ou 62, no Cine Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa. Consumidor voraz de cinema, eu estava, pelas estatísticas das exibições locais, acostumado a um modelo de cinema americano onde, pelo menos até então, contundência tinha limites. Por mais noir que fosse o policial, por mais selvagem que fosse o western, por mais ousado que fosse o melodrama – vocês lembram – as cenas de violência eram sempre suavizadas pelas lentes auto-censuradas de Hollywood. Pekimpah, Altman e Kubrick só seriam possíveis bem mais tarde…

Pois foi então que assisti a “A Fonte da donzela” (Junkfraukällen, 1960). Num acesso de lucidez da Meca, ele havia ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1961, e creio que somente por essa razão entrara no nosso circuito comercial de exibição.

O impacto foi tão grande que, de repente, me vi obrigado a reconsiderar as minhas ideias de realismo cinematográfico e a questionar o modelo de cinema que o acaso me impusera. Tudo bem, àquela altura eu já conhecia um Eisenstein aqui, um Kurosawa ali, um Clouzot acolá, porém nada que, fora do modelo clássico, tivesse me provocado tamanho abalo.

Ainda hoje me recordo de como, depois de ver “A fonte da donzela” saí do cinema estremecido, e como passei vários dias sob efeito do impacto. Lembro que tentei contar o filme em casa a um irmão, e meu relato, depois de alguns esforços, virou um gaguejado confuso, do qual desisti, com medo de que a família começasse a desconfiar que ir a cinema estava atrapalhando minha sanidade mental. Aquela criança vomitando depois de ter presenciado um estupro e assassinato só podia vir da Suécia.

Mais tarde vi outros Bergmans, inclusive alguns cronologicamente anteriores a “A fonte”, como “Morangos Silvestres”, mas a impressão inicial persistiu, e para mim, na maior parte do tempo, Bergman era “A fonte da donzela”.

A ideia que não consegui transmitir a meu irmão era a de que um filme tão contundente, com cenas de estupro e assassinato mostradas tão cruamente, fosse ao mesmo tempo – e por causa disso mesmo! – tão belo. Como era possível esse milagre de casar a infinita crueldade do tema com a suprema beleza da imagem? Onde residia o ponto de tensão entre conteúdo e forma? Como era possível, em cinema, ser tão inseparavelmente primitivo e requintado, explosivo e contido, pulsional e estruturado?

Hoje em dia, quando a contundência virou regra, o filme pode ter perdido parte de seu impacto, mas duvido que a sua beleza. Revê-lo uns tempos atrás foi uma experiência e tanto, a oportunidade de constatar que não perdeu qualidade com o passar do tempo e que, ainda hoje, se alinha entre o melhor cinema que se fez no século inteiro.

Uma curiosidade sobre essa obra prima, no meu entender e da crítica em geral, quase irretocável, é que tenha sido renegada pelo seu próprio autor. Em “O cinema segundo Bergman” (Paz e terra, 1977), o cineasta considera o filme com certo desprezo como “um acidente de percurso”, segundo ele, “um filme para turista ver”, “imitação miserável de Kurosawa”.

Claro que levei um choque ao ler isso pela primeira vez. Gastei tempo e energia refletindo sobre o assunto e fiquei com questões que sempre lanço aos cinéfilos que, como eu, amam “A fonte da donzela”.

E as perguntas vieram: agnóstico assumido, Bergman não estaria apenas refutando a premissa cristã que o desenlace do seu filme encarna? A alegada imitação de Kurosawa, afinal nem tão visível assim, não seria o pretexto para a renegação? Outra coisa, renegar “A fonte” não é renegar Hollywood, que o premiara? Sejam quais forem as respostas, de uma coisa não tenho dúvidas: é de que o affair Bergman versus “A fonte da donzela” ilustra um desses casos – afinal nem tão raros assim na história das artes! – em que o autor se equivoca redondamente sobre sua própria obra. Umas vezes o equívoco consiste em superestima, outras vezes, como aqui, em subestima.

Quem quiser constatar que reveja “A fonte da donzela”!

Os belos dias de Aranjuez

3 jul

O que nos faz aguentar um filme inteiro sem nenhuma ação, só diálogos? Resposta: o nome de Wim Wenders na direção. É o caso de “Os belos dias de Aranjuez” (2016) que me chegou à vista há pouco.

Baseado na peça de Peter Handke, o filme começa nos mostrando o amplo gabinete de um escritor que, sentado diante de sua máquina de escrever, dedilha, na página em branco, as palavras que constituirão sua próxima obra. Enquanto escreve, é-nos permitido avistar, lá fora, um casal, sentado em torno de uma mesa, no belo jardim dessa ampla residência de campo, toda rodeada de uma vegetação exuberante. É um dia de verão e o casal saboreia um suco, enquanto conversa.

Como as imagens são simultâneas, o espectador é, inicialmente, levado a pensar que são pessoas independentes, o escritor no seu gabinete, e o casal lá fora. Talvez amigos ou parentes. Com o andar da projeção, percebe-se que o casal fala exatamente o que o escritor redige, ou seja, esse casal não passa de dois personagens que estão sendo criados naquele momento pelas palavras do escritor.

Em filmes assim, digo, que começam com alguém escrevendo a estória, a praxe é que o escritor desapareça da tela e a estória tome conta da diegese, até um momento final, quando a figura do escritor retorna para fechar. Aqui não. Os três continuam presentes, e várias vezes, vemos o escritor espiando os seus personagens, ou vice-versa, sendo espiado por eles. Como se todos, e não apenas dois, fossem personagens criados ad hoc. Outra coisa: nem sempre existe sincronia entre o gesto de escrever e o ato de falar dos personagens.

Mas não só isso nos intriga. Como já disse, o mais intrigante é a inexistência de ação. O escritor até que se move: às vezes, para de escrever, se levanta vai lá dentro, e põe uma música para tocar; outras vezes caminha sem rumo por dentro de casa, e mesmo lá fora pelo jardim, e mais adiante floresta adentro. Ao passo que os seus dois personagens mal se movimentam: às vezes mudam suas cadeiras de lugar, mas o movimento é mínimo. Limitam-se o tempo todo a falar, um formulando perguntas ao outro, que responde de bom grado e se estende em suas divagações, sobre assuntos os mais diversos: sexualidade, relação a dois, amor, infância, etc…

Tanto é assim que, lá pelo final, quando o homem se levanta e, imitando um pássaro de que falava, sai correndo pela pradaria de braços abertos, a mulher reclama e lhe grita que “Não estava combinado que teríamos ação, qualquer ação”. O homem alega que um pouquinho de ação não vai fazer mal, mas, nesse momento, o espectador dá-se conta de que havia entre os dois, desde sempre, um código que não permitia certos comportamentos, ou mesmo certos assuntos. Algumas vezes, um deles era brecado ao falar de um tema, que o outro, alegando o código, simplesmente desaprovava.

Em certos momentos, a infindável conversa do casal lembra uma sessão de análise, mas só em certos momentos, pois, no geral, são os dois – e não apenas um – que relatam suas experiências de vida as mais privadas. Por vezes, o diálogo toma rumo surrealista, sobretudo quando o que ela fala nada tem a ver com o que ele fala, e vice-versa. Um exemplo que tem que ser dado é o das frequentes referências dele aos seus belos dias em Aranjuez, os quais, quando mencionados, nada têm a ver com o discurso de sua interlocutora, embora ela o escute com atenção e interesse.

Na verdade, em ambos os casos são discursos poéticos, cheio de imagens líricas que, se concorrem com a beleza da paisagem em torno, acho que ganham. Uma qualidade desses diálogos é, como esperado, a ambiguidade. Tratando de sua vida amorosa, a mulher se corrige com frequência e volta atrás no que disse. É comum que comece fazendo uma afirmação e aí diz “não” e corrige – isso muitas vezes ao longo de sua fala.

Em se tratando de Wim Wenders, um intertexto inevitável é o do cinema, introduzido com alguma sutileza. Exemplo: quando a mulher pergunta ao seu interlocutor se ele acredita que os seus companheiros de cama sempre falavam de amor, a resposta é a seguinte: “sim, acredito, quando penso em filmes antigos”. Num outro instante, mais perto do final, a mulher faz uma longa e comovida homenagem às mulheres dos velhos faroestes, dizendo que, mesmo amando seus heróis, eram independentes e que gostaria de ser como elas.

Na abertura desta matéria, usei o termo “aguentar” para “Os belos dias de Aranjuez”. De fato, não é um filme digerível. Experimental e desconcertante, tem todo o ranço do chamado “cinema de arte europeu”, mas, de qualquer forma, consegue ser  suave e delicado, e, se você tiver paciência e disposição, a experiência de vê-lo pode talvez vir a ser gratificante.

O escritor é o ator alemão Jens Harzer

Confissões de um cinéfilo à moda antiga

26 jun

Semanas atrás fui ao cinema do Manaíra Shopping ver “A livraria” (“The bookshop”, 2017), filme obscuramente exibido na Sala 1, sala esta, segundo consta, reservada a ´filmes de arte´.

Pois mesmo nesta ´sala de arte,´ passam, antes da sessão, os trailers dos filmes comerciais e, aí, começa o meu tormento. Um atrás do outro, cada trailer é um amontoado de explosões, rostos e corpos deformados, criaturas robóticas, paisagens desoladas e sombrias, correrias sem fim, velocidades indizíveis, pirotecnias as mais mirabolantes, efeitos especiais os mais absurdos… e barulho, muito muito barulho.

Deve ser problema da idade, mas essas parafernálias dos filmes atuais me incomodam horrivelmente e fazem mal aos meus olhos e ouvidos, para não dizer que ameaçam a minha saúde. Fico enfiado na poltrona como um menino medroso, com vontade de chorar ou sair da sala correndo.

Ufa! Depois de mais ou menos meia hora de sofrimento, eis que começa o filme que escolhi ver. Que alívio!

Na verdade, “A livraria” não é nenhuma grande obra: só um filme mediano, sem méritos especiais, mas, por contraste com o inferno dos trailers, juro, comecei a achá-lo um bálsamo para o meu espírito aturdido. Que beleza, entrar leve e discretamente na vida de pessoas normais, que não são robóticas, nem voam, nem se transformam em monstros, nem explodem bombas que destroem o Universo…

Em 1959, numa cidadezinha insignificante da Inglaterra, Hardborough, chega essa senhora, viúva de meia idade, Florence, simpática e tranquila, que compra uma casa antiga do lugar, com o intento de transformá-la numa livraria. Encontra apoio em uns e oposição em outros, mas, nada que esteja fora do familiar universo dos seres humanos como a gente. A senhora Florence poderia muito bem ser nossa tia, e os seus apoiantes e oponentes, poderiam muito bem ser os residentes do bairro onde moramos.

Com a vantagem de ser um filme sobre livros, coisa que eu não via fazia tempos. O último acho que foi “Nunca te vi, sempre te amei” (“84 Charing Cross Road”) do diretor David Jones, – vocês lembram – com a Anne Bancroft e o par Anthony Hopkins e Judi Dench em começo de carreira no cinema, embora ambos já maduros.

Em “A livraria” até os conflitos são leves. É verdade que a Sra Florence encontra indiferença na população local e rivalidade junto a uma socialite poderosa que termina por derrubar os seus planos, mas, mesmo assim o filme não pesa.

Pesa a bela e delicada amizade da protagonista com um senhor idoso e solitário, o Sr Brundish, que ela descobre ser um grande bibliófilo e, daí, passa a lhe enviar livros para avaliação. O primeiro que envia é um livro sobre livros, o famoso “Farenheit 451” de Ray Bradbury, que é logo aprovado e passa a constar das prateleiras da livraria. O segundo vai dar mais ainda o que falar: o – para a época – polêmico “Lolita” de Nabokov, mas é, sim, aprovado e passa a ser vendido como qualquer outro livro.

E por falar em Lolita, vejam que a funcionária da livraria da Sra Florence é uma criança, uma garota de 14 anos, Christine, que sequer gosta de ler, mas que será induzida à leitura pela sua patroa. Aliás, o filme inteiro – saberemos no desenlace – é narrado em flashback por essa garota, quando já adulta, ela mesma, hoje dona de uma grande livraria em Londres.

Como disse, “A livraria” não tem méritos especiais; é retilíneo e convencional, porém, contraposto ao inferno dos trailers que o precedeu, ele acidentalmente tornou-se, para mim, um filme extremamente agradável.

A propósito do contraste que me bateu entre os trailers infernais e “A livraria”, acho que não é coincidência que se trate de um filme sobre livros, quando se sabe que o computador, o poderoso opositor do livro no mundo de hoje, é justamente a máquina eletrônica que torna possível todo o “inferno” dos trailers referidos… Por aí.

Sobre o problema dos trailers que tanto me atormentaram, um amigo me disse o que já sei: que em tempo de férias, a programação local investe em filmes assim, para uma plateia infanto-juvenil. Para mim, o problema persiste: será que isto significa que, formado por esse tipo cibernético e barulhento de filme, o espectador do futuro nunca vai ver um filme singelo e humano como “A livraria”? Não tenho resposta…

O amante duplo

19 jun

Um dos filmes do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano de 2018 que mais deu o que falar foi talvez “O amante duplo” (“L´amant double”, de François Ozon, 2017).

O nome do diretor (de “Franz”, “Dentro de casa” e “Oito mulheres”) levou um grande número de cinéfilos ao Mag Shopping e deu à primeira sessão deste filme aquele ar animado e otimista que é esperado de um festival. O ânimo, contudo, arrefeceu um pouco, na saída da sala.

Se porventura posso ser tomado como exemplo, diria que o arrefecimento foi gradativo, durante a projeção do filme.

Muito bem interpretado e muito bem produzido, o filme começa nos prendendo, com a estória dessa moça que, sentindo leves dores estomacais sem causa aparente, é aconselhada pelo médico a procurar um psicanalista. Procura e, conversa vai conversa vem, os dois se apaixonam e terminam indo morar juntos. Tudo vai mais ou menos bem até que um dia a moça avista, na rua, o que ela pensa ser o marido com outra pessoa, e, mais tarde, descobre ser um seu irmão gêmeo, dela escondido, este também psicanalista. Sem nada dizer ao marido, ela vai fazer análise com esse outro psicanalista, que tem métodos pouco convencionais e mais selvagens, bem diversos do irmão.

Quando o interesse do espectador está num pique, o roteiro começa a tomar rumos fantasiosos, extravagantes e mesmo absurdos, que não vou dizer quais são, até porque, como se sabe, todo absurdo é, em si mesmo, indescritível ou inenarrável. Ou, antes disso, incompreensível. Sem respeitar gêneros (ou melhor, misturando-os), o filme indaga sobre o que é real e o que é delírio, e investe nessa incógnita de modo radical, sombrio e incômodo. (Fiquei em dúvida se deveria usar o termo “absurdo” ou “surreal”: escolhi o primeiro porque a obra surreal descarta explicações psicológicos ou psicanalíticas – o que supostamente não seria o caso aqui. Outro detalhe: não há crítica no meu emprego do termo “absurdo”).

Naquele momento, supostamente dramático, em que o ventre da protagonista  aparentemente grávida começa a entumecer e explodir, ouvi risos na plateia, e houve até quem se retirasse, e eu entendo o porquê de ambas as reações: nesse instante, o filme parecia ganhar incabíveis tons de horror ou science-fiction do tipo “Alien”.

A suposta justificativa para toda uma diegese absurda seria a de que o que está se vendo na tela seria fruto da mente doentia da protagonista, mas, mesmo assim, todo mundo também sabe, absurdos, por ousados que sejam, devem se encaixar no universo semântico do filme, e, em alguma instância abstrata, fazer sentido.

Absurdos à parte, justificados pela doença da protagonista ou não, há outras coisas a reclamar. Com certeza, é desnecessária – dentro da estrutura semântica do filme – a cena em que a moça força o marido a ter relação anal passiva com ela, e usa, para tanto, um enorme “dildo”, que adentra o ânus dele. Sem falar em coisas menores, também pouco plausíveis. Por exemplo: suponho que nem na França uma vigilante de museu (profissão da protagonista) tem salário para pagar um psicanalista caro. Eu sei: o museu, seu design moderno e suas obras de arte perturbadoras funcionam como pretextos para dialogar com os delírios da vigilante, mas, a falta de plausibilidade permanece.

Enfim, o tema do adultério imaginário (se é este o do filme de Ozon) é antigo no cinema e, em muitos casos, desenvolvido e resolvido com mais clarividência.

Lembro, por exemplo, como ele funcionou bem no filme de Peter del Monte “Júlia e Júlia” (1987) onde Kathleen Turner fazia uma viúva que matava o amante (Sting) por imaginar, nos seus delírios culposos, estar traindo um marido ainda vivo.

Isto para não falar em filmes que tomaram a questão dos gêmeos como assunto. Um clássico que recordo com carinho é “Espelhos d´alma” (Robert Siodmak, 1946) em que a grande Olivia de Havilland desempenhava o papel duplo da irmã boa e da irmã má, um thriller no melhor estilo noir.

Ou, se for o caso ainda, para não falar na temática dos sósias, que está com tanta assiduidade em Alfred Hitchcock, mas não só nele: aqui lembro “A cicatriz” (“The scar”, Steve Sekeley, 1948) em que o personagem de Paul Henreid se aproveitava da semelhança física com um estranho para engendrar um plano criminoso.

Não vou afirmar que “O amante duplo” seja um filme com escassez de qualidade, mas, é, com certeza, um filme com excesso de pretensão. Assistindo ao seu desenlace, a sensação que experimentei foi a de que o roteiro perdeu-se, e o diretor, no seu afã de ser original e inovar, foi junto.

Ou fui eu que me perdi?

Coisa mais linda

12 jun

Ao ler na imprensa, a semana passada, a notícia da morte de Maria Esther Bueno (1939-2018) me reportei, sentimentalmente, aos efusivos inícios dos anos sessenta, quando tudo, no país, parecia tão promissor.

A criação de Brasília, a Bossa Nova, as copas vencidas em 58 e 62, a poesia concreta, o prêmio em Cannes para “O pagador de promessa”, o Cinema Novo, a miss eleita Ieda Maria Vargas, o boxeur campeão Eder Jofre; ela, a tenista insuperável Maria Esther Bueno… Era tanta coisa boa acontecendo que nem dava – ainda – pra ter pressentimentos negativos. O que viria pela frente seria triste, só que ninguém tinha bola de cristal. Eu pelo menos, na minha ingenuidade, não tinha.

Menescal e Llyra em cena de “Coisa mais linda”.

Mas, pra dizer a verdade, antes de ler a nota de falecimento da nossa tenista maior, que tantos prêmios deu ao país, eu já estava no clima dos anos sessenta. É que, por coincidência, acabara de assistir, em um Canal de televisão paga, ao documentário de Paulo Thiago “Coisa mais linda – histórias e casos da Bossa Nova” (2005).

O filme é uma assumida e deliciosa homenagem à Bossa Nova, e, com simplicidade, mas com muito critério, nos conta os bastidores desse movimento musical que mudou a batida da Música Popular Brasileira. O título, naturalmente, vem da singela canção de Carlos Lyra, com letra de Vinicius de Moraes, que o mestre João Gilberto tão bem cantou – se também não viesse do lendário “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinicius.

A estrutura do documentário é convencional, mas quem se importa com isso? Se fosse para dissecá-lo, seriam quatro as instâncias em que se divide: (1) depoimentos de críticos e estudiosos da MPB, (2) testemunhos de músicos e compositores vivos (3) imagens de arquivos com músicos e compositores já falecidos, e, finalmente (4) as execuções das músicas pelas personagens em 2 e 3. Mas, claro, tudo isso misturado, numa ordem que tem a ver com a cronologia do movimento e – como diz o título do filme – com seus casos mais interessantes.

João Gilberto ao violão…

Esses casos são muitos e cito apenas os mais chamativos. Há o caso da produção de “Chega de saudade”, que está na origem de tudo. Há o caso do encontro Vinicius e Tom Jobim – um momento histórico em que o poetinha convida Tom para participar da peça “Orfeu de Carnaval”. Há o caso do famoso show na Faculdade de Arquitetura, o primeiro instante em que a Bossa Nova se organizou e virou publicamente um movimento musical. Há o caso do apartamento de Nara Leão – o local em que a turma bossanovista se encontrava para papear e dedilhar violões. Um dos casos curiosos é o da criação da canção “O barquinho”, segundo Roberto Menescal, motivado por um passeio marítimo verídico, com direito a pane no motor do barco, em pleno alto mar de Copacabana.

Entre os críticos que depõem sobre o movimento estão Artur da Tavola, Tarik de Souza, Nelson Motta e Sérgio Cabral. E um dos tópicos inevitáveis é, evidentemente, o diálogo da Bossa Nova com o jazz, como se sabe, tópico ainda hoje polêmico.

Joyce em depoimento.

Em imagens de arquivo, ou coetâneas, os compositores e músicos conversam sobre a Bossa Nova e nos encantam. Roberto Menescal e Carlos Lyra são os que têm mais tempo de tela, mas também vemos e ouvimos, falando ou cantando: Elizete Cardoso, Vinicius de Moraes, Nara Leão, João Gilberto, Tom Jobim, Silvinha Telles, Johnny Alf, Billy Blanco, Alaide Costa, Joyce, Kay Lira, e tantos outros. Um caso especial é o depoimento de Paulo Jobim, que revela características pessoais do pai e solfeja algumas de suas músicas. O único personagem ainda vivo que só aparece como imagem de arquivo, é o mestre João Gilberto, pois, segundo consta, ele, por alguma razão nada clara, teria se recusado a participar do filme.

Com relação aos espectadores jovens eu não sei dizer nada, mas, para o pessoal da minha geração que viveu a primeira fase eufórica e otimista da década de sessenta, o filme de Paulo Thiago é um bálsamo de saudade. Sobretudo quando você compara o marasmo musical de hoje em dia com a riqueza artística daquela época.

De vinte anos para cá, um número grande de documentários sobre a MBP vem sendo rodado no país, com relativo sucesso. Eu mesmo escrevi sobre muitos deles. Por mero acidente, “Coisa mais linda” me escapara e, agora que o vejo, constato que ele está nesse rol e muito bem colocado.

Bem que merece o título que tem.

A musa Nara Leão.

Signo e imagem em Castro Pinto

6 jun

Ao leitor deste blogue, peço licença para versar sobre assunto não relacionado a cinema. O assunto de hoje é literatura, mais especificamente, poesia.

Dirijo-me particularmente ao leitor residente em João Pessoa, Paraíba, para informar que no próximo dia 08 de junho, sexta-feira, vou estar lançando a segunda edição do livro “Signo e imagem em Castro Pinto” (Ideia, 2018), versão pública que tomou minha tese de doutorado homônima, escrita, defendida e aprovada em 1995, na Universidade Federal da Paraíba, e cujo corpus foi a poética do nosso poeta maior Sérgio de Castro Pinto.

Com apresentação do prof. Edilson Amorim, o lançamento vai ocorrer na Academia Paraibana de Letras, a partir das 19:00 horas, quando será servido aos presentes amplo coquete. Sintam-se todos convidados.

Ao leitor interessado em poesia, e à guisa de aperitivo, transcrevo o texto de apresentação que redigi para esta segunda edição do livro:

Eu e meu livro, segunda edição de “Signo e imagem em Castro Pinto”.

 

“Ler um poema é caminhar sobre o silêncio – sobre o silêncio de um vulcão”. A frase, que um dia usei como epígrafe para um outro livro, é do pensador Geoffrey Hartman, mas, do tanto que me é cara, penso ser minha.

Sim, como ler a rica, peculiar e instigante poesia de Sérgio de Castro Pinto? Como atravessar sua superfície silenciosa e divisar o vulcão escondido? Essa viagem subterrânea não demanda um instrumental que nos proteja da obviedade, da irrelevância ou mesmo do equívoco?

Essa viagem perigosa eu a fiz, mas, antes de ser livro, este trabalho foi tese de doutorado em Literatura Brasileira, que, numa tarde em janeiro de 1995, defendi no Centro de Ciências Humanas Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba.

O poeta estudado, Sérgio de Castro Pinto.

Na sua aparente complexidade, o enfoque escolhido foi simples: somou-se esforço analítico a desejo devaneante. Para o primeiro caso, fomos buscar amparo na Semiótica do pensador americano Michael Riffaterre, e para o segundo, na Fenomenologia do pensador francês Gaston Bachelard. E por que esse acoplamento entre dois modelos teóricos supostamente antagônicos? Por uma razão igualmente simples: na sua riqueza estrutural e na sua intensidade lírica, a poesia a ser interpretada o solicitava – mais que solicita, exigia.

O trabalho foi aprovado pela banca examinadora e recomendado à imediata publicação, mas, uma recompensa a mais me veio no ano seguinte, quando “Signo e imagem em Castro Pinto”, a tese, foi premiada com o segundo lugar em concurso nacional de teses de doutorado de literatura, organizado pela ANPOLL (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística).

Do formato da tese para o do livro, houve pouca mudança, até porque, como na ocasião fiz ciente ao meu orientador, redigi a tese pensando-a como livro. E ele concordou.

Pois, relendo agora este livro para esta Reedição, fiquei me indagando em que ele seria datado, já que de 1995 ao presente são decorridas mais de duas décadas.

Pelo menos em dois aspectos há inevitável defasagem: desde então, a fortuna crítica de Castro Pinto – revisada no primeiro capítulo – cresceu consideravelmente, como também cresceu a sua própria produção poética, que, na época, distribuída em quatro livros, Gestos lúcidos, A ilha na ostra, Domicílio em trânsito e outros poemas e O cerco da memória, não consistia em mais que 103 poemas, alguns repetidos de livro a livro.

Uma outra indagação a ser feita poderia concernir à validade do enfoque proposto. Vinte e três anos depois de concebido e aplicado, ele vale ainda para a poesia recente do autor estudado? Indagação que, ao invés de tentar responder, prefiro repassar, junto com esta Reedição, ao apreciador da poética de Sérgio de Castro Pinto.

Em tempo: aguardo vocês lá.