Adoráveis mulheres

20 jan

Quando, em 1869, a escritora americana Louisa May Alcott (1832-1888) molhou a pena no seu tinteiro doméstico para rabiscar as últimas palavras de seu romance semi-autobiográfico, “Little women”, seguramente não poderia ter imaginado duas coisas: primeiro, que o livro seria um sucesso, e segundo, que com ele, estaria inaugurando uma modalidade muito particular de recepção literária. Embora só o tenha concebido por exigência dos editores, que queriam um “livro de mulheres”, enquanto ela própria se dizia mais identificada com homens, com este romance Alcott, com efeito, criava uma espécie de protótipo de romance que geraria infinitas imitações, como o faz até hoje, e provavelmente continuará fazendo.

Trata-se do romance de ambientação doméstica, onde o ponto de vista tem que ser de uma mulher, se possível muito jovem ou mesmo criança, que enxerga o mundo em torno de si a partir de seus anseios, expectativas, dúvidas, temores e esperanças femininas, o enredo implicando normalmente uma lição de vida que eleva o espírito. As eternas leitoras das M. Delly da vida estão por demais acostumadas às convenções do gênero.

Naturalmente, vai uma grande distância estética entre as inúmeras e intermináveis imitações e o modelo original. Enquanto por trás das imitações não havia, e não há, nada a não ser a vontade de ganhar dinheiro em cima de um gosto feminino, o “Little women” de Alcott, arrastava no seu bojo, toda uma tradição literária e filosófica do melhor Romantismo americano: ali estava o “transcendentalismo” de Emerson e Thoreau, figuras basilares com quem a própria Alcott conviveu pessoalmente; ali estava a abertura ideológica de um Walt Whitman cujos versos ela sabia de cor; ali estava a angústia puritana de um Hawthorne, seu vizinho na pequena Concord, Massachussets. Essa convivência enriquecedora é que faz do romance algo muito mais que um mero “diário feminino”, sentimental e ingênuo, como queriam os seus editores.

Inevitavelmente, o romance de Alcott gerou adaptações cinematográficas. Até o momento três, cada uma com a cara de sua época.       A primeira é de 1949 e, no Brasil se chamou “Quatro destinos”. Com direção de Mervyn LeRoy, tinha June Allison, Elizabeth Tayor, Margareth O´Brien e Janet Leigh no elenco. A segunda, de 1994, se chamou “Adoráveis mulheres” e teve direção da australiana Gilliam Armstrong, com Winona Ryder, Trini Alvarado, Kirsten Dunrst e Clare Dane. E, concorrendo ao Oscar neste 2020, estreia este outro “Adoráveis mulheres” (2019), com direção de Greta Gerwig, e no elenco, Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Puh e Elisa Scanlen.

No grosso, os três filmes contam uma parte da vida em comum de quatro irmãs, suas relações entre si, com o sexo oposto, com a sociedade e seus valores adversos, enfim, seus caminhos e descaminhos na linha tortuosa da existência. O momento histórico é o da Guerra de Secessão (1860-1865), quando o pai, militar da União, é convocado aos campos de batalha, deixando o encargo da casa para a esposa e as quatro filhas. A protagonista Josephine March luta, como o fizera a própria Alcott, entre o apego à família e o afã de realizar seus sonhos de escritora, tudo isso sendo narrado de tal forma que as surpresas de roteiro cedem lugar aos bem mais familiares fatos da vida: paixões, doenças, casamentos, nascimentos, mortes, realizações profissionais, etc. No desenlace, Josephine, alterego de Alcott, supera o seu entrave em escrever “do fundo do coração” – um princípio do transcendentalismo de Thoreau – e, como se não bastasse, se define amorosamente com o homem que lhe abriu os olhos para isso, mas nem sequer esse necessário encaminhamento ao final feliz (que serviria de modelo para as “lições de vida” dos pastiches ) tem cheiro de chichê.

Em que pesem as diferenças estilísticas, as três adaptações são mais ou menos fiéis ao original. E dão bons resultados, cada uma a seu modo. Naturalmente, é a versão de Gerwig que está em evidência no momento, mas, um estudo mais acurado, e mais rentável do ponto de vista cinematográfico, seria o de confrontar as três versões e, em cada caso, checar as perdas e ganhos estéticos, trabalho a ser feito, evidentemente, com o romance de Alcott a tiracolo. Um ponto eventualmente pertinente nesse estudo poderia ser, por exemplo, investigar as diferenças nos enfoques dos/das cineastas: um homem na primeira versão, uma mulher estrangeira (australiana) na segunda, e uma mulher americana na terceira. Fica a sugestão.

Em tempo: Depois desta matéria postada, me informa o cinéfilo e crítico de cinema Rolf de Luna Fonseca que existe uma versão do romance de Alcott, anterior às três aqui mencionadas. Trata-se de “As quatro irmãs”, de 1933, dirigida por George Cukor, com Catherine Hepburn no papel de Josephine March.

RICHARD JEWELL, O HOMEM ERRADO

14 jan

É óbvio que, bem antes de rodar “O caso Richard Jewell” (2019), Clint Eastwood conhecia “O homem errado” (“The wrong man”, 1956).

No filme de Hitchcock, um humilde e inocente saxofonista é confundido com um temível assaltante de bancos e sua humildade e inocência em nada ajudam a resolver o problema – ao contrário, só o incriminam cada vez mais.

Com certeza um estudo comparativo acurado vai encontrar mais semelhanças entre os dois filmes, ambos baseados em casos reais.

Mas, claro, você não precisa ter visto “O homem errado” para apreciar “O caso de Richard Jewell”.

Beirando os noventa, o cineasta e ator Clint Eastwood continua incansável. Nem dá pra acompanhar sua atividade toda. Em 2018 rodou dois filmes, “A mula” e “Trem 15,17h para Paris” … e deste último nem notícia tive. Nem sei se foi exibido por aqui.

Neste “O caso Richard Jewell” (2019) Eastwood está mais que em forma, contando a estória verídica desse humilde e inocente cidadão de bem que foi falsamente incriminado por um atentado à bomba, num evento musical em Atlanta.

De alguma maneira, trata-se de um filme denúncia, onde ficam claros os capciosos meandros das leis e das instituições, somados ao papel pernicioso de certa imprensa sensacionalista.

Neste particular, ressalta-se o expediente da mídia de, ao invés de se limitar a dizer a verdade, “produzir a notícia” que vai dar dinheiro à empresa. Com efeito, aquela jornalista que vende o corpo a um membro do FBI para ganhar um furo lembra um certo Chuck Tatum que está lá atrás, num certo filme de Billy Wilder que, certamente, vocês lembram: “A montanha dos sete abutres” (1951).  E isto com arrependimentos posteriores e tudo mais.

Um aspecto curioso no filme é a fuga das ambiguidades. Desde a primeira cena já se sabe – ou se intui – que Jewell é inocente. E a narração tem o maior cuidado de manter essa verdade. Tanto é assim que a história, em sua maior parte, é narrada do seu ponto de vista, lhe dando o maior tempo de tela. Isto, antes do atentado no evento musical, durante e depois. De tal modo que a brusca mudança por que passa Jewell junto à opinião pública, de herói a vilão, dói muito mais do que doeria num filme que primasse pelo ambíguo.

Eastwood assume a versão do seu protagonista e não abre mão disso em nenhum momento. Dedica-lhe um filme parcial e carinhoso que, sem perder por isso a qualidade, vale como dedicatória. E faz, assim, um filme essencialmente actancial.

Sim, um dos encantos de “O caso Richard Jewell” está na construção dos personagens. Primeiramente do protagonista titular (desempenho perfeito de Paul Walter Hauser), tão docilmente fiel à Lei e tão vítima dela. Impossível não se comover com o modo como, mesmo correndo o risco de parecer mais suspeito do que já é, esse ex-polilcial não deixa de manifestar sua admiração pelos seus investigadores, os homens do FBI. E não para de desabafar suas crenças e motivações, quando o conveniente, ordem do advogado, seria calar. Este cidadão de boa vontade seguramente vai ficar como umas das personagens mais cativantes do cinema do novo milênio.

Uma segunda figura que se impõe é a da mãe, Bobi, interpretada pela sempre magnífica Kathy Bates. Um terceiro caso a citar é o do advogado Sam Rockwell (Walter Bryant) que retira as evidências da inocência de seu cliente, não tanto dos fatos, mas, sentimentalmente, da sua personalidade.

Sim, ao meio do pesadelo kafkiano que o filme narra, perdura a beleza do amor materno e da amizade… Um filme simples, convencional, direto, mas tocante e belo. Em vários sentidos da palavra belo.

“O homem errado” de Hitchcock é um filme sombrio que termina em desolação e desesperança. “O caso de Richard Jewell”, por alarmante que seja o caso narrado, parece apontar um caminho…

Cllint dirigindo Paul Walter Hauser

CANÔNICOS

10 jan

Quais os melhores filmes do mundo? Com mil, quinhentos, cem ou dez títulos sugeridos, as listas pululam nas revistas, livros e sites de cinema de toda parte, de modo a deixar o espectador confuso. A implicação por trás dessas listas é que os filmes escolhidos contribuiriam para a concepção de uma espécie de cânone cinematográfico.

Com intenções canônicas ou não, a sugestão mais famosa, e, sobretudo, a mais respeitada, vem do grupo formado pelo British Film Institute e a revista Sight & Sound que, de dez em dez anos, apresenta a sua relação dos dez mais – e isto desde 1952, ou seja, já estamos na sétima lista, sendo a última de 2012.

O que concede respeitabilidade às listas do grupo do B.F.I. + Sight & Sound é o rol dos seus votantes, críticos, historiadores, cineastas e outros profissionais da área, originários de toda parte do planeta, todos nomes consagrados. De forma que, mesmo que o espectador não simpatize com o procedimento de ´fazer listinhas´, seria insensato não considerar o trabalho do grupo referido.

Evidentemente, toda iniciativa de listar filmes está presa a certas circunstâncias temporais, e a do grupo B.F.I. + Sight & Sound, que já recobre mais de meio século, não foge à regra. Digamos primeiramente o óbvio: que só se pode votar em filmes realizados até à data da votação: na primeira edição, em 1952, ninguém poderia ter votado, por exemplo, em Oito e meio, simplesmente porque o filme não existia, como não existia mais da metade do cinema mundial realizado no século XX. O curioso é que na lista de 2012 (veja adiante), a maior parte dos filmes elencados pertence à primeira metade do século.

Ladrões de bicicleta encabeçou a primeira do IBF.

Além do mais, o tempo não é a única circunstância. Às vezes interferem fatores de ordem histórica ou similares. Caso da obra prima de Orson Welles, Cidadão Kane que, desde sua inclusão na lista de 1962, manteve o primeiro lugar, até 2002. Ora, sendo de 1941, ele poderia ter estado na primeira lista, a de 1952, mas não esteve: por quê? Pelo fato de, em virtude da Segunda Guerra Mundial, não ter sido lançado na Europa, sendo até então um ilustre desconhecido do pessoal do B.F.I. + Sight & Sound. Caso idêntico se deu com Um corpo que cai, hoje no topo da lista, mas que só começou a ter seu nome citado quase duas décadas após seu lançamento em 1958, devido ao fato de, por questões jurídicas, ter ficado fora de circulação até a morte de seu autor, Alfred Hitchcock, em 1981.

Como já dito, de 1952 a 2012 o grupo do B.F.I. + Sight & Sound compôs sete listas dos dez melhores filmes do mundo. A primeira ideia é que o total seriam setenta filmes, mas, que nada. As recorrências dos títulos são muitas, tantas que reduzem esse suposto total para apenas… trinta e quatro títulos. Às vezes até cineastas são repetidos numa mesma lista, casos de Charles Chaplin em 1952, de Orson Welles em 1972, e de Francis Ford Coppola em 2002.

O que vou fazer aqui é apenas comentar brevemente o desempenho de cada um desses filmes dentro das listas, mencionando sua posição (de primeiro a décimo lugar) e sua – se houver – repetição nas listas seguintes, considerando – se houver – as variações de suas posições. Para tanto, seguirei, rigorosamente a cronologia, começando assim meu comentário com o primeiro filme da primeira lista (a de 1952, não esqueçamos) e terminando com o último filme da última lista (a de 2012).

O filme em primeira posição na lista de 1952 é Ladrões de bicicleta, de 1948. Considerado um marco do neo-realismo italiano, este comovente drama de Vittorio DeSica apareceria ainda, rebaixado para o sétimo lugar, na lista de 1962, e nunca mais seria indicado nas listas posteriores. O segundo e terceiro lugares são para dois filmes de Chaplin, respectivamente, Luzes da cidade e Em busca do ouro, os quais não iriam aparecer mais, em lista alguma. Já o quarto lugar foi para um filme cuja indicação seria repetida nada menos que seis vezes: quarto lugar em 1952, sexto em 1962, terceiro em 1973, sexto de novo em 1982, nono em 1992 e finalmente, segundo lugar em 2002. Refiro-me a O encouraçado Potemkin, do russo Sergei Eisenstein. O quinto lugar é do longa-metragem, superprodução de D.W. Griffith, Intolerância (1919), sem repetição em outras listas. No sexto lugar, A história de Louisiana (Robert Flaherty, 1948) também não conseguiu repetição de votos. Já Ouro e maldição (Erich von Stroheim, 1924), em sétimo lugar, teve voto repetido em 1962, no quarto. Trágico amanhecer (Marcel Carné, 1939) é o oitavo posicionado nesta lista e não foi mais mencionado em lista alguma. A nona posição é de um dos favoritos dos votantes, O martírio de Joana Darc (1928), do dinamarquês Carl Dreyer, reaparecendo em sétimo lugar em 1972, de novo em sétimo em 1992 e em nono em 2012.

Cidadão Kane : cinco vezes em primeiro lugar

Com relação ao décimo lugar ocorreu um empate tríplice entre Desencanto (David Lean, 1945), O milhão (René Clair, 1931) e A regra do jogo (Jean Renoir, 1939). Os filmes de Lean e Clair não teriam lugar em listas posteriores, enquanto que o de Renoir é o único filme que conseguiu menções em todas as listas do B.F.I. + Sight & Sound, superando em recorrência até o campeão de preferência Cidadão Kane. Acompanhem: décimo em 1952, terceiro em 1963, segundo em 1972, segundo em 1982, segundo em 1992, segundo em 2002 e, finalmente, quarto em 2012. Portanto, sete menções em sete listas. Um recorde.

Com isso, podemos passar à segunda lista do B.F.I. + Sight & Sound, a de 1962. Lembrando que, a partir deste ano, deixaremos de referir os filmes já mencionados nas listas dos anos anteriores.

Como já dito, é nesta lista que Cidadão Kane (1941) aparece pela primeira vez e inicia sua brilhante carreira na condição quase imbatível de “o filme mais perfeito já feito”. No privilegiado primeiro lugar deste ano, ele também será votado assim em 1972, 1982, 1992 e 2002. Só em 2012 perde essa posição (para Um corpo que cai) e desce para o segundo lugar.

O segundo lugar deste ano vai para o italiano A aventura, de Michelangelo Antonioni (1960), que passará a quinto posicionado em 1972, e sétimo em 1982, para, depois disso, desaparecer. Contos da lua vaga, do japonês Kenji Mizoguchi (1952) ocupa o quinto lugar neste ano, e o décimo na lista de 1972. Ivan o terrível, de Sergei Eisenstein (1944), toma o oitavo lugar, sendo esta a sua única aparição. Também com uma única aparição está, em nono lugar, o La terra trema, de Luchino Visconti (1948). Já o clássico L´Atalante, de Jean Vigo (1934) fica este ano em décima posição, passando à sexta, três décadas depois, em 1992.

Da lista da década seguinte, 1972, os três primeiros lugares já foram comentados, e passamos, portanto ao quaro lugar, que é do italiano Oito e meio, de Federico Fellini, repetido em 1982 (quinto lugar), em 2002 (nono lugar) e 2012 (décimo lugar). Em seguida vem A general, em oitavo lugar, e nono na lista de 1982. O nono da década vai ser Soberba, seguido de Morangos silvestres, este em décima posição.

Na lista de 1982 as novidades são: Os sete samurais em terceiro lugar, sem repetição em listas seguintes; Cantando na chuva em quarto, repetido em 2002 em décimo lugar. Como dito acima, é neste ano que Um corpo que cai é votado pela primeira vez, no caso em nono lugar, passando a quarto em 1992, a segundo em 2002, e finalmente a primeiro lugar em 2012, destronando o quase imbatível Cidadão Kane. Esta também é a primeira votação para Rastros de ódio (décimo lugar), que será votado de novo em 1992 (quinto) e 2012 (sétimo). Aqui cabe registrar que este é o único western a ser escolhido pela equipe da B.F.I. + Sight & Sound.

A regra do jogo, 1939, um recorde: sete vezes nas sete listas.

Em 1992 os novos votados foram três: o japonês Era uma vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (terceiro lugar), que terá repetição nas décadas seguintes, no caso, sexto em 2002, e terceiro em 2012; o indiano A canção da estrada, de Satyajit Ray, em oitavo lugar, sem repetição nas décadas seguintes. A décima colocação desta lista vai para 2001-uma odisseia no espaço, o qual permanecerá nas décadas seguintes: em sétimo lugar em 2002 e em sexto em 2012.

Em 2002 são introduzidos O poderoso chefão (em quarto lugar) e O poderoso chefão II (em quinto lugar), ambos sem repetição em listas seguintes. A outra novidade desta década será o Aurora de Murnau, (em nono lugar), repetido em 2012 em quinto lugar.

A por enquanto última lista do B.F.I. + Sight & Sound, a de 2012, trouxe uma única novidade e uma novidade bem antiga: o documentário do russo Dziga Vertov, de 1929, Um homem com uma câmera, colocado em oitavo lugar. Aliás, como já comentado, esta é uma lista de dez filmes antigos, sendo o mais moderno de 1968. Tanto é assim que, na ocasião de sua divulgação, publiquei, neste Correio das Artes, matéria de título “Quanto mais velho melhor”. Para efeito de ilustração, faço a reprodução desta lista, indicando os anos de lançamento:

Um corpo que cai, 1958

Cidadão Kane. 1941

Era uma vez em Tóquio, 1953

A regra do jogo, 1939

Aurora, 1927

2001 – uma odisseia no espaço, 1968

Rastros de ódio, 1956

Um homem com uma câmera, 1929

A paixão de Joana D´arc, 1928

Oito e meio, 1963

 

Quem considera o conjunto das sete listas do B.F.I. + Sight & Sound (recordando: trinta e quatro filmes votados no período de seis décadas) pode não ficar satisfeito com as escolhas – o que é mais do que esperável e mais do que compreensível. Acho que ao cinéfilo ocorrem ausências incômodas. Por exemplo: nunca houve voto para O anjo azul, Crepúsculo dos deuses, Casablanca, A felicidade não se compra, Vidas amargas, Hiroshima meu amor, Jules et Jim, etc… E mesmo um “xodó” da crítica como O ano passado em Marienbad nunca foi mencionado. Um filme que traz a fama de haver ensinado o cinema a se expressar semioticamente, O nascimento de uma nação (D. W. Griffith, 1915) tampouco teve voto.

5

Um corpo que cai (Vertigo, 1958), no topo da lista em 2012

No geral, o que caracteriza os filmes da B.F.I. + Sight & Sound? Difícil dizer, a não ser que se alegue a qualidade. No que toca aos gêneros, há de quase tudo – do documental à comédia, do épico à ficção científica – mas, o gênero mais frequente parece ser mesmo o drama, ou se for o caso, o filme sem gênero definido. Mesmo nas listas mais atuais, as décadas privilegiadas são, primordialmente, as mais antigas, conforme fica claro na lista de 2012, acima reproduzida. Feito o cômputo geral, a primeira metade do Século XX ganha, e muito bem, da segunda metade. E, claro, o novo milênio (mesmo na lista de 2012) é elegantemente ignorado.

Com relação às nacionalidades, estas variam, mas nem tanto. Não há, por exemplo, nestas trinta e quatro obras cinematográficas de que estamos tratando, filmes latino-americanos, nem africanos, e os asiáticos são em número reduzido: alguns soviéticos, alguns japoneses e um indiano. Se pensarmos naquela famosa dicotomia da crítica historiográfica, que separa o Cinema Clássico Americano do Cinema de Arte Europeu, vamos ter um interessante empate: exatamente treze filmes para cada lado da dicotomia. Para fechar esta matéria, cito, na ordem das aparições nas listas, estes vinte e seis filmes:

CINEMA DE ARTE EUROPEU

Ladrões de bicicleta; Trágico amanhecer; A paixão de Joana D´Arc; Desencanto; A regra do jogo; O milhão; A aventura; A terra treme; L´Atalante; Persona; Morangos silvestres; Oito e meio; Aurora.

CINEMA CLÁSSICO AMERICANO

Luzes da cidade; Em busca do ouro; Intolerância; Ouro e maldição; Cidadão Kane; A general, Soberba; Cantando na chuva; Um corpo que cai; Rastros de ódio; 2001 – uma odisseia no espaço; O poderoso chefão; O poderoso chefão II.

4

Rastros de ódio (The searchers, 1956), o único western nas sete listas do BFI e Sight&Sound

LANA TURNER: esquecer nunca

26 dez

Reprises fílmicas não se fazem mais. Nos cinemas, não, mas nos canais pagos de televisão, sim. No Canal CURTA, por exemplo, já tive o prazer de ver duas ou três vezes o documentário sobre a vida da grande atriz do período clássico do cinema, Lana Turner (1921-1995).

E cada vez gosto mais. A duração é só sessenta minutos e, portanto, não se perdeu tempo com muitos detalhes irrisórios. Assim, a infância e adolescência são abreviadas para que se passe logo ao que interessa: a carreira e a vida dessa que foi uma das mais brilhantes estrelas da constelação clássica.

Nascida na pequena Wallace, estado de Idaho em 1921, logo a família pobre se muda para São Francisco em busca de trabalho, e em seguida, para Los Angeles. Um dia, tomando um refrigerante numa lanchonete, um figurão de Hollywood se aproxima dela e, encantado com seu charme de adolescente, lhe pergunta se ela não gostaria de trabalhar em cinema. “Tenho que perguntar a mamãe” – é a resposta sincera dessa mocinha interiorana e ingênua.

Bem, mamãe consente e o resto da estória a gente mais ou menos conhece. Com 16 anos de idade, roda o seu primeiro filme, em 1937, “Esquecer, nunca”, um drama leve dirigido pelo também produtor Melvyn LeRoy, para quem trabalha em outros filmes mais ou menos obscuros, até ser comprada pela MGM. Aí a coisa pega. Depois de seu ousado papel da amante criminosa em “O destino bate a sua porta” (“The postman always rings twice”, 1946), sua imagem na tela passa a ser familiar para o mundo inteiro.

Entre filmes de aventura (“Os três mosqueteiros, 1948) e melodramas (“É proibido amar”, 1951), vai moldando seu perfil de ´golden blonde´ de acordo com os preceitos da MGM, mas, chamará  mesmo a atenção da crítica ao fazer o dramático papel de uma atriz hollywoodiana em “Assim estava escrito” (“The bad and the beautiful”, 1952), grande filme do grande Vincente Minnelli.

No papel da imperiosa Constance McKenzy em “A caldeira do diabo” (“Peyton Place”, 1957) desperta a atenção da academia e recebe uma indicação ao Oscar. Outro desempenho que seus fãs lembram com carinho é o da mulher batalhadora de “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959). Já madura, seu último grande desempenho foi como a mãe torturada pelo destino, no melodrama “Madame X”. Já a sua derradeira aparição nas telas, “A poção mágica” não significa nada, salvo decadência.

Mas claro, o documentário abrange a vida privada de Lana Turner, até porque, nela, carreira profissional e coisas pessoais estão inevitavelmente interligadas. Nisso ajuda o longo e sentido depoimento de sua única filha, hoje madura, Cheryl Crane, que relata, sem reservas mas também sem alarde, as questões mais intramuros.

E aí passamos a conhecer as relações amorosas de Lana.

Ao longo da vida a atriz famosa teve vários casamentos, quase todos desastrosos, e, no entanto, dentre os homens com que se envolveu, não houve ninguém mais amado que o ator Tyrone Power, com quem nunca casou. Ocorre que, quando estava o casal de namorados no auge da paixão, ele viaja para a Europa para filmar “O sol também se levanta” e, por lá mesmo, contrai matrimônio com outra pessoa. Depois ela viria a saber que tudo não passara de uma trama da MGM com a Fox (companhia de Tyrone Power), companhias rivais que não queriam que seus respectivos empregados mais famosos contraíssem matrimônio entre si, e assim, assumissem um poder de barganha perigoso para ambas as companhias. O fato é que, segundo sua filha, Lana nunca esqueceu Tyrone.

Um dos casamentos turbulentos da atriz foi com Lex Baxter, de quem Lana, quando interrogada, dizia que “gosto de ficar olhando para ele”. Mas certamente não estava olhando no dia em que o ex-Tarzan assediou sexualmente sua filha de 14 anos. E o resultado foi, mais um escândalo e mais um divórcio.

Ainda mais grave foi sua relação com o mafioso Johnny Stampanato, relação cheia de violência que terminou em crime. Vendo um dia a mãe sendo espancada pelo amante dentro de casa, a filha Cheryl nos seus 16 anos – sim, a mesma que depõe no documentário – agarra a faca de cozinha mais próxima e o perfura no abdômen: a morte é instantânea. Caso escandaloso, ocorrido em 1958, que quase encerra a carreira da atriz, só restabelecida pela sua aplaudida participação em “Imitação da vida”.

Enfim, como esta matéria saudosista é também uma homenagem, fecho-a com o título, já mencionado, do primeiro filme de Lana Turner: ESQUECER NUNCA.

Não é o que diríamos dela?

Com Kirk Douglas, em ASSIM ESTAVA ESCRITO

A VIDA INVISÍVEL

18 dez

“Um melodrama tropical” – esta é a tagline do filme “A vida invisível” (Karim Aïnouz, 2019), em cartaz na cidade e no país. Pois nunca vi tagline mais apropriada. Como também o é a assunção de um gênero cinematográfico que ela sugere. E vejam bem – um gênero que parecia morto havia tanto tempo, e que aqui reaparece com tanto vigor.

Amores não correspondidos, casamentos arranjados, traições, frustrações profissionais, viagens para terras distantes, desaparecimentos, correspondências desviadas, cartas encontradas na velhice… Quanto disso não já vimos tantas vezes nas telas do passado… e como gostamos de ver, ou rever…

Claro que esses elementos melodramáticos tem aqui o seu sabor “tropical”.

Filhas de uma modesta e conservadora família portuguesa, no Rio de Janeiro dos anos cinquenta, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stokler) têm sonhos diferentes. Uma quer ser pianista, a outra anda atrás de um grande amor. Uma é mais comportada, a outra, mais rebelde, mas o essencial é que as duas se compreendem, se aceitam e se amam.

´Nem piano, nem amor´ – esta poderia ser a frase para resumir seus respectivos paradeiros, mas o pior não é isto. Não conto o enredo, mas o pior é a separação a que são submetidas.

Dois lances de roteiro bem sintomáticos do gênero assumido são:

(1) A cena em que, sem terem a mínima consciência disso, as duas irmãs, postas nas mãos do acaso, estão por um breve momento, no mesmo ambiente, um restaurante em que Guida entrou à força com sua amiga negra, e onde Eurídice se maquia na toalete, enquanto o marido a aguarda na mesa. O filho pequeno desta brinca com a filha pequena daquela… Por questões de segundos, as duas irmãs não se veem e mudam os seus próprios destinos.

(2) A cena em que, muitos anos depois, num asilo da cidade, uma Eurídice idosa (Fernanda Montenegro) conhece a neta de Guida e, com abraços e beijos, arranca – se for o caso – lágrimas do espectador.

Para ser franco, o filme de Aïnouz funciona ainda melhor, se lido na tradição de um certo cinema americano dos anos cinquenta. Quem tem idade pra tanto, vai lembrar filmes como “A caldeira do diabo”, “Amores clandestinos”, “Madame X” e tantos outros melodramas da época.

Mas, certamente um cineasta especialmente lembrado vai ser Douglas Sirk, que elevou o gênero ao status de obra prima. A esse propósito, revejam um filme dele que, sem coincidência, também traz no título o termo ´vida´ – “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959). Pensando bem nestes dois filmes, ´vida imitada – no sentido de não vivida´ é a mesma coisa que ´vida invisível´…

De minha parte, também lembrei poesia, e poesia paraibana. Releiam aquela trilogia do nosso Marcus Tavares “Moça em alto contraste” e sintam como parece ter servido de argumento para a história da protagonista Guida: (cito)

 

Honrava pai e mãe até o dia

Em que o marinheiro atracou no seu porto

O velho quase morre de desgosto

Mas a moça detestava calmaria

 

Desenrolou as velas e partiu

Dançando um fox trote

 

Arrancou a âncora do útero

E navegou em direção à vida

 

Não vou citar o texto inteiro, mas até o destino de Guida está dado no terceiro poema da trilogia.

Dizem que o melodrama é um gênero feminino. Não sei. O fato é que “A vida invisível” é a história de duas mulheres, irmãs inseparáveis, separadas pelo destino. Dizer ´destino´ parece coisa abstrata, mas aqui esse destino se chama claramente machismo. E até certo ponto, sim, este é um filme saudavelmente feminista. E bonito.

INDIANARA

10 dez

Nenhum país do mundo mata mais LGBTs que o Brasil. Segundo as estatísticas, só no ano de 2018, foram 320 (trezentos e vinte) assassinatos, quase um por dia. Situação vergonhosa que deve piorar, se considerarmos a linha visivelmente homofóbica e armamentista do governo em vigência.

Daí a importância de um filme como Indianara (2019), exibido (e premiado) entre nós na décima quarta versão do Fest-Aruanda, festival anual de cinema paraibano.  Mas não só daí.

Bem roteirizado, bem montado e bem dirigido, o documentário da dupla Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel acompanha o dia a dia dessa líder transgênero Indianara Siqueira que, com heroísmo admirável, mantém, no Rio de Janeiro, uma espécie de ONG para auxiliar toda uma população LGBT a sobreviver ao meio do preconceito e da violência.

A chamada “Casa Nem” acolhe e abriga prostitutas, gays, lésbicas, trans e bissexuais, gente sem recursos para se manter por conta própria ou, se for o caso, para progredir e profissionalizar-se. Muitos deles foram expulsos de seus lares – ou deles fugiram por não aguentar maus tratos – e, não fosse Indianara e seu projeto filantrópico – estariam nas ruas, em condição de mendicância.

Natural de Paranaguá, Paraná, a jovem Indianara saiu de casa aos dezoito anos de idade para fazer a vida e a vida não foi fácil. Sem moralismos, abraçou a profissão de prostituta, que a levou a Santos e de lá ao Rio.

Mas, atenção, o filme não é – nem pretende ser – uma biografia. Mais modesto, ele apenas registra cerca de dois anos (de 2016 a 2018) na vida de Indianara, no caso, misturando momentos privados do seu cotidiano com o esposo Maurício e cenas públicas quando a ativista trans, nas ruas e às vezes de peito aberto (literalmente) enfrenta multidões, polícia e autoridades, com seu inflamado discurso libertário e demolidor de hipocrisias. Tanto é assim que nem direita, nem esquerda, escapam de seus ataques. Seu desentendimento com o PSOL, por exemplo, vem à tona com o mesmo furor com que denuncia o falso moralismo da direita.

Esses dois anos de filmagens coincidiram com o governo Temer e, inevitavelmente, estão registrados os protestos de rua que marcaram essa fase da história brasileira. Como grita Indianara em ocasião de desabafo: “não chamem Temer de filho da puta. Putas somos nós, e ele não é nosso filho. Ele é filho de Cunha”. No meio desses protestos, dois momentos são particularmente significativos, pela sua desoladora disforia: a ocasião do assassinato de Marielle, e a vitória nas urnas de Bolsonaro – duas “mortes” recebidas pelo grupo LGBT com profunda tristeza.

E por falar em mortes, a primeira cena do filme já se dá no cemitério, onde Indianara e o pessoal da “Casa Nem” sepulta o corpo de uma amiga LGBT: em dado momento, com um travelling por sobre os túmulos, ouve-se a voz da protagonista, nos lembrando que os vermes não distinguirão entre trans, bis, homos e heteros…

O filme não é, porém, um amontoado de desolações. Ele tem seus momentos de alegria e descontração – por exemplo, nas brincadeiras com os amigos, nas farras, e nos instantes mais privados em que Indianara troca miudezas com o esposo, os dois deitados na sua cama de casal. Dois auges dessa euforia são a comemoração do aniversário da protagonista em via pública e o ritual do seu casamento com Maurício.

Em que pese a cena do anúncio da vitória de um presidente homofóbico, vista na televisão da “Casa Nem” pelos seus residentes em pranto, em que pese esta cena – uma das mais emblemáticas do filme, por apontar para um futuro incerto e temeroso, – acho que Indianara mesmo assim, nos deixa com alguma esperança. Se não for outra, a que brota da força, determinação, carisma, charme e beleza de sua protagonista.

Com sua aisance no andar, seus olhos amendoados, seus lábios grossos e seus seios generosos, a mim, ela (presente no Fest-Aruanda) me soou como uma espécie de Anita Ekberg brasileira. Torçamos para que um dia ela possa banhar-se livremente na sua Fontana di Trevi sem ser molestada. O seu Mastroianni ela já tem.

Indianara concorreu à “Palma queer” no Festival de Cannes deste ano, onde, segundo consta, foi ovacionado em três sessões especiais. Esperemos que o sucesso em festivais de cinema conduza o filme a um público maior, se possível, aos circuitos comerciais. Os parentes e amigos dos 320 LGBTs assassinados o ano passado, com certeza, agradeceriam.

PAPICHA

27 nov

Uma das vantagens de se frequentar o Cine Banguê: o aceso a cinematografias fora do circuitão. Quando, em tela grande, veríamos em João Pessoa um filme argelino?

Baseado em fatos reais, ocorridos na Argélia dos anos noventa, “Papicha” (2019) nos introduz à vida dessa jovem estudante universitária que sonha trabalhar com moda numa cidade e país dominados pelo terrorismo religioso.

O campus universitário onde Papicha passa parte do dia é um quase oásis ideológico. Ali ela estuda, se diverte com as amigas e faz planos ousados.

Mas, mesmo nesse âmbito acadêmico as agressões acontecem, pois, vez por outra, ele é invadido por hordas de mulheres mulçumanas, todas vestidas de preto, da cabeça aos pés, proibindo que se fale francês (língua oficial) e exigindo das estudantes um comportamento menos liberal. No caminho para casa, não é raro que o táxi seja parado e violentamente revistado por milícias religiosas, com ameaças constrangedoras.

O namorado de Papicha tenta convencê-la a fugirem para a França e, em Paris, levarem uma vida de paz e liberdade, mas, ela não se encanta com escapatórias. Em Paris, tudo já foi feito, argumenta ela – sobretudo na sua área da moda – e ela quer inovar onde ainda não houve inovações. Em outras palavras, com todos os perigos circundantes, ela prefere a sua Argélia a qualquer outro lugar no mundo.

Nem o crescente clima de terror, cada vez mais invasivo e violento, dobra o espírito dessa Papicha (apelido de Nedjma, personagem magnificamente interpretada pela jovem atriz Lyna Khoudri) que, inspirada no gosto da mãe pela costura, pretende organizar, na universidade, um desfile de moda arrasador, em que as modelos, suas colegas de curso, vestiriam roupas por ela criadas, que encarnariam uma proposta de renovação no tradicional vestuário argelino/islâmico. Por exemplo, ao invés da cor preta dos impostos hijabs, a generalizada brancura exuberante do desfile.

Ocorre, contudo, um terrível acidente que faz o espírito de Papicha arrefecer. Isso se dá no dia em que sua irmã, Linda, é brutalmente assassinada por umas das fanáticas religiosas de Argel, e isto na porta da casa materna, com o agravante de que, sem saber com quem falava, ela, Papicha, fornece à agressora, a identificação da irmã.

Mas, como esperado, tal arrefecimento não dura para sempre. Mais tarde, convencida pelas colegas e amigas, termina levando adiante o – para o contexto da Argel da época – corajoso projeto do desfile, embora…

Bem, dizer mais seria estragar o prazer do espectador que ainda não viu o filme.

Em vista do nosso pouco acesso ao cinema argelino, não é possível colocar “Papicha” dentro de seu contexto, porém, pode se dizer, sim, que, em seu primeiro longa-metragem, a diretora Mounia Meddour domina a narrativa cinematográfica e, com seu estilo fundado em closes, cenários metonímicos, cortes bruscos e trilha sonora expressiva, sabe dizer a que veio. Em tempo: a insistência dos closes no belo e sensual rosto de Papicha nos soa como uma contrapartida aos rostos encobertos das fanáticas mulçumanas.

Só para ilustrar o talento da cineasta, relembro a terrivelmente eloquente cena do assassinato da irmã, tudo acontecido a poucos metros de Papicha que, no meio da rua e de costas, ouve o disparo, deduz a tragédia e, de frente para a tela, por um tempo interminável – para ela e para nós – não tem a coragem de olhar para trás, e ver o que nós avistamos. Aliás, uma cena extremamente exigente, para a atriz Lyna Khoudri.

De alguma maneira, poderia se dizer que “Papicha” é uma espécie de “Sociedade dos poetas mortos” argelino, só que nele a opressão é mais apavorante, pois, ao invés de vir do mero âmbito doméstico-escolar, vem praticamente de toda parte.