MAUPASSANT COM FINAL FELIZ

2 mar

Uma diligência. Dez passageiros e uma longa viagem cheia de atropelos. É tempo de guerra, estamos nos embates entre França e Prússia, e o objetivo da viagem – da cidade de Rouen ao porto de Le Havre – é livrar esse pequeno grupo de passageiros do domínio prussiano e seus malefícios.

Os passageiros são pessoas abastadas, burgueses ou aristocratas. Com uma exceção única – essa ´mulher de vida fácil´, que, por causa de seu físico arredondado, é conhecida entre os homens pelo apelido de “Bola de sebo”.

Terrivelmente irônico, o conto quase novela de Guy de Maupassant retrata a hipocrisia de uma sociedade moralista, especialmente no tratamento concedido à figura da prostituta, e termina de forma negativa, com a personagem em questão, humilhada ao extremo, da forma mais cruel e injusta.

O conto, que deslanchou a brilhante carreira literária de Maupassant, é de 1880. Pois, quase sessenta anos adiante, em 1939, muito longe da Paris literária, os estúdios de Hollywood iriam lançar um filme que também contava as humilhações sofridas por uma prostituta, em longa e atribulada viagem de diligência.

Com efeito, não é possível ver o western “Stagecoach” (“No tempo das diligências”) de John Ford, sem pensar no conto de Maupassant. Mas, não procure créditos do escritor francês nesse filme americano, que você não vai achar.

Na verdade, o filme é baseado num conto do escritor americano Ernest Haycox (1899-1950), “Stage to Losdsburg”, que, pelo que sugere sua versão fílmica, possuiria a mesma situação diegética que está em “Bola de sebo”: uma atribulada viagem de diligência em que um dos passageiros é uma prostitula. Plágio? Recriação? Homenagem? Pouco importa.

De qualquer maneira, é bem provável que Haycox conhecesse os escritos de Maupassant. Com doutorado em literatura, Haycox foi colaborador do famoso Saturday Evening Post. Autor de várias novelas e cerca de trezentos contos, Haycox era famoso pelas suas histórias passadas no Oeste americano e teve Hemingway como leitor e fã.

Sem acesso ao livro de Haycox, não posso afirmar até onde vai sua semelhança com “Bola de sebo”, porém, se nos ativermos ao conto de Maupassant e ao filme de Ford, podemos afirmar, com certeza, que o roteirista Duddley Nichols lhe acrescentou os elementos cinematográficos necessários a uma produção hollywoodiana.

Uma análise mais detida das histórias narradas, vai detectar uma série de aparentes “coincidências” curiosas. Por exemplo, em Maupassant não há um médico alcoólatra, mas há, sim, um empresário do vinho, sempre disposto a brindar, o Sr Loiseau, que gera, em Ford, um modesto e tímido negociante de vinhos, o Sr Peacock, o qual, por sua vez, com sua maleta repleta de bebida, serve de suporte oportuno ao alcoolismo do médico, o Dr Boone, feito pelo ator premiado Thomas Mitchell.

Várias dessas relações indiretas podem ser aventadas por um leitor/espectador mais atento – em muitos casos, “pulando” o conto adaptado de Haycox. Nele a crítica informa não existirem, nem a comida servida por Bola de sebo em Maupassant, nem o parto em que Dallas assiste, em Ford. Ora, ocorre que essas duas coisas, embora diferentes em si mesmas, se equivalem simetricamente nos dois universos semânticos das duas obras, como elementos que, durante a viagem, contribuíram para a prostituta (Bola de sebo/Dallas) ganhar – momentaneamente que seja- o prestígio do grupo viajante.

E quanto a John Ford, fez ainda mais acréscimos cinematográficos que Nichols. Vejam, por exemplo, a recorrência gráfica das belas montanhas do Monument Valley na paisagem do filme, ingrediente decorativo que, como se sabe, se tornaria obsessivo em seus westerns futuros.

Na comparação entre obra de partida e filme de chegada – abstraindo-se ou não o conto de Haycox – evidenciam-se, igualmente, as diferenças.

A primeira delas, e talvez a mais importante, está na linha tímica: no conto não há, como é usual em toda a ficção de Maupassant, espaço para redenções, ou finais edificantes e/ou felizes.

A pobre Bola de sebo é, na ordem cronológica da história, desprezada, aproveitada (primeiro, gastronomicamente, depois sexualmente), e desprezada mais uma vez – sem piedade. E o conto termina com suas lágrimas. O seu único simpatizante, o liberal e democrata Cornudet (um personagem que poderia associar-se ao Ringo Kid de Ford – mas não é o caso), não faz muito em favor da pobre desolada prostituta, salvo, no final, solfejar – para indignação dos outros passageiros – a redentora “Marseillaise”.

Em “Nos tempos das diligências”, ao contrário, a linha tímica é, vagamente que seja, ascendente.

O filme também começa com o desprezo a Dallas (a prostituta, desempenho de Claire Trevor), demonstrado mesmo antes da partida da diligência pelas senhoras da cidade, enfileiradas em posição de protesto. Em que pese à simpatia do médico e do pistoleiro Ringo Kid (John Wayne), essa atitude perdura, mas não exatamente até o desenlace.

Uma cena sintomática é aquela da refeição na primeira parada da diligência, com todos procurando lugar no lado da mesa oposto ao de Dallas. A Sra Lucy Mallory é aconselhada pelo jogador Hatfield a sentar-se na outra extremidade da mesa, como se Dallas estivesse contaminada. Exceção feita apenas a Ringo que, ao seu lado, lhe serve a comida e com ela entabula conversa.

Na estrutura narrativa do filme, essa cena vai se opor àquela outra, na próxima estalagem, quando, de repente, Dallas vai se tornar imprescindível na consumação do parto precoce daquela mesma Sra Lucy Mallory que, dias atrás, evitara sentar-se ao seu lado durante a refeição.

Ao contrário do que se dá em Maupassant, um vago reconhecimento aparece, quando, no final da viagem a Sra Mallory, com seu bebê de colo arrancado dos braços de Dallas pela governanta, manifesta gratidão, indagando o que poderia fazer por Dallas. Esta sabe que nada.

O fato é que em Maupassant os personagens, mesmo Bola de sebo, são planos, ou seja, imutáveis do início ao fim. A protagonista é ingênua e espontânea e sempre será, e os outros, todos eles, vis, maldosos e hipócritas, sempre. Mesmo o liberal e democrata Cornudet não se transforma durante a viagem, e não sai de seu cinismo e ironia – aliás, como se fosse um alterego do autor.

Diferentemente, em Ford os personagens são esféricos, ou seja, se transformam e crescem moralmente. Se não todos, os principais. Apesar do alcoolismo incurável, o médico cresce no contexto dos passageiros ao realizar o parto depois de uma pesada embriaguez. Até então intransigente, o xerife perdoa Ringo, reconhecendo sua obrigação de vingar um crime familiar. Vencendo o duelo, e depois disso, retornando para se entregar ao Xerife, Ringo cresce e não só por isso, como pela sua convicção em acreditar na boa natureza de uma moça que, por circunstâncias da vida, tem a profissão de prostituta.

E quanto a Dallas, nem se fala: a primeira, que avistamos tangida na rua por um bando de religiosas fanáticas, arrastando tragicamente sua fama de mulher da vida, e a última que vemos, completamente redimida, com um amor e um lar a esperá-la, são duas pessoas bem diferentes, nas circunstâncias e, principalmente, no espírito.

A esse propósito, se o conto de Maupassant traz – mais uma ironia do autor – o nome da marginalizada personagem feminina no título, o filme poderia ter feito o mesmo, já que, mais do que de qualquer outro personagem, o filme é a história de Dallas.

E uma história de amor, com final feliz.

ESQUINAS DE JAGUARIBE

31 jan

Aos doze anos de idade já trabalhava. Meus pais possuíam uma pequena padaria, na verdade, uma “gangorra”, como se chamava padaria de pobre, e a mim cabia entregar o pão em mercearias e em algumas residências do bairro.

Bem cedo da manhã, quase madrugada, o pão tinha que ser entregue, e isto, em sacolas de pano branco, o amontoado de sacolas pendurado em torno de meu corpo franzino me dando um jeitão ridículo de Papai Noel, apelido que me jogavam os meninos do bairro.

Esse cansativo ofício matinal tinha, naturalmente, uma compensação: a mesada semanal, que me garantia o acesso aos três – sim, três! – cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Situado na Av Primeiro de Maio, número 146, esquina com a Vasco da Gama, o Sto Antônio, era vizinho ao Grupo Escolar onde estudava e todo dia podia ver a programação da semana e fazer meus planos. Um pouco mais longe, o São José ficava na Rua Senador João Lira, número 697, esquina com a Floriano Peixoto, e o Cine Jaguaribe, s/n, por sua vez, estava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Três esquinas, três cinemas… Para tantos filmes a ver, a minha mesada não bastava, mas assistia ao que podia, e também, ao que a censura permitia.

Meu pai não aprovava de bom grado esse vício de cinema, mas, por outro lado, não punha objeções, talvez pelo fato de ser eu aplicado na escola e tirar boas notas. Logo que percebi isso, mais me apliquei, não porque gostasse de estudar, mas para consolidar o meu direito de ir a cinema quando quisesse. Minha mãe era neutra, e meus irmãos – também eventuais frequentadores – eram coniventes, de modo que não encontrava impedimentos de circular em torno daquelas três esquinas cinematográficas, a não ser na eventual falta dos quinhentos réis que pagavam o ingresso.

Uma sessão imperdível no Cine Sto Antônio era a matinal de domingo, sempre às nove e trinta, horário conveniente, pois a missa da Igreja do Rosário, obrigatória para os alunos do Grupo, era nesse dia, mas, às sete, terminando cerca das oito: depois do “amém”, era só correr para casa, tomar café com o pão quentinho de fabricação própria, e me mandar para o Sto Antônio, a ver o que estivesse em exibição: algum faroeste, um Tarzan qualquer, filmes de aventura, reprises de Chaplin, fosse o que fosse, que tudo dentro daquele enorme templo de imagens era encantamento.

A rigor, todas as sessões, em qualquer horário, diurno ou noturno, naquelas três esquinas do bairro eram imperdíveis, só perdidas quando não havia jeito.

Uma circunstância toda especial acontecia quando me incumbiam o doce papel de acompanhar as irmãs mais velhas que – a ordem paterna era clara – não tinham permissão de irem ao cinema a sós com o namorado ou o noivo, e, no caso, o acompanhante obrigatório geralmente era eu, que – privilégio dos privilégios – usufruía dessa chance de ver filmes sem pagar, pois o namorado, claro, não abria mão da elegância de ser o patrocinador. Geralmente, o casal, a fim de carícias não permitidas em casa, sentava lá atrás, nas últimas filas, enquanto eu, ávido de meter-me tela adentro, procurava as poltronas da frente, indiferente ao meu papel de fiscal da moralidade familiar.

Mas essa era uma circunstância especial. No geral, o ingresso me custava o peso das sacolas carregadas.

Naquele dia, 28 de maio de 1958, quarta-feira, estava completando doze anos de idade. No seio de minha modesta família – residente à Rua Alberto de Brito, uma casa humilde não muito distante da Praça Onze – não havia o hábito de se comemorar aniversários, porém, minha irmã mais velha, casada e residente em Santa Rita, aparecera e me pusera na palma da mão um dinheirinho extra, que dava para algumas pequenas extravagâncias.

 Já tinha visto que o Cine Sto Antônio estava anunciando para o fim de semana “Orgulho e paixão”, um filme histórico, em cujo cartaz um enorme canhão, sobreposto aos rostos de atores afamados, Cary Grant, Frank Sinatra e Sophia Loren, definia o seu gênero, guerra. No São José estava programada a exibição de “O homem que sabia demais”, e no Jaguaribe, o grande épico “Alexandre Magno”. Até então eu estava pensando em escolher só um deles, e esperar pela possível reprise dos outros dois. Agora, com o agrado da irmã, considerava a possibilidade de ir ver os três.

Circos, lapinhas, clubes, assustados, festas de ruas, o bairro de Jaguaribe não era desprovido de diversões, porém, para aquele garoto de doze anos, não havia nada que superasse a magia escondida naquelas três esquinas.

TELONAS E TELINHAS

21 jan

“Escorreguei do útero para a sala de projeção”: é a resposta que dou toda vez que me perguntam como foi que começou meu interesse pelo cinema. Mas, o tema de hoje não é propriamente cinema, e sim, televisão.

Foi no final dos anos cinquenta que tive notícia local dessa nova mídia. Naquela noite eu tinha ido a Biblioteca Pedro Gondim, ali na Aderbal Piragibe, bairro de Jaguaribe, João Pessoa, Paraíba, e na volta, cruzando a esquina da Cap. José Pessoa, avistei umas pessoas se dirigindo apressadas a Trincheiras. Curioso, fui atrás e lá estava, na calçada de uma daquelas mansões, um amontoado de gente de toda idade, se espremendo para ver, pela janela, um clarão que vinha lá de dentro. Acho que ouvi alguém falar na maravilha que era a televisão, mas não me interessei.

Um tempinho adiante, eu já estudante do Colégio Lins de Vasconcelos, ouvia meus colegas ricos falarem de televisão com entusiasmo, embora, curiosamente, não tanto sobre o que assistiam, e muito mais sobre a altura que as antenas precisavam ter para captar os sinais. Nesse tempo, no setor pobre de Jaguaribe não se avistava ainda nenhuma antena, nem baixa, nem alta, e o divertimento continuava sendo os três cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Acho que a primeira vez que me deparei com um aparelho de televisão foi lá por 1962, e na casa dos outros. Falando inglês com certa fluência, fui convidado pela professora Adelaide, a ter aulas gratuitas mais avançadas, em sua casa. Lembro que no primeiro dia cheguei mais cedo e ela, ainda jantando com os familiares, me pôs na sala de visitas, onde um aparelho de televisão estava ligado.

Não recordo bem o que passava, mas não esqueço de uma imagem que se repetia. Eram umas gotinhas pulando ao som de uma música boba, todas cantando juntas assim: “Só Esso dá a seu carro o máximo, só Esso dá a seu carro o máximo, só Esso dá a seu carro o máximo – veja o que Esso faz”. Cá comigo, fiquei pensando: então televisão é isso? E dei graças a deus que a gente não tinha uma em casa.

Mas, claro, não demorou muito para a televisão engolir o meu bairro e a cidade inteira. E, com inevitável pesar, comecei a notar os efeitos disso sobre o divertimento que mais me entusiasmava – cinema.

De repente, a frequência dos três cinemas do meu bairro começou a minguar. Nunca esqueço a melancolia com que assistia, nessa época, às sessões do Cine Sto Antônio, sobretudo as dos dias de semana, onde muitas vezes o número de espectadores não passava de cinco.

Ainda hoje me vejo assistindo a “O último hurra”, sozinho, não fosse pela presença de um simpático casal que se mantinha tão assíduo quanto eu, um rapaz moreno e uma moça loura que moravam na Vila dos Motoristas e comprovam pão na nossa padaria. No salão enorme do Sto Antônio, eles sempre sentavam lá na frente, ao pé da tela, e eu, um pouco mais atrás. Dessas sessões eu saía com uma sensação esquisita de que estávamos, nós tradicionais e autênticos espectadores de cinema, sendo traídos. Sim, aqueles que ficavam em casa pra ver a propaganda da Esso, ao invés de um drama de John Ford, eram, para mim, traidores. E essa sensação de traição alimentei por um bom tempo.

O engraçado é que a antipatia pela telinha não era só minha. Para quem prestasse bem atenção, ela já aparecia nas telonas do próprio cinema americano, bem antes de a nova mídia aportar em solo brasileiro.

Filmes como “Calúnia”, “Bancando a ama seca”, “Tudo que o céu permite” e “Se meu apartamento falasse” – que lembro ao acaso, todos dos anos cinquenta – incluíam cenas que ridicularizam a televisão, meio de comunicação (só vim a saber disso, muito depois) que se instalara nos States desde 1949. No filme de Tay Garnet a televisão era coisa para enfermos; no de Jerry Lewis era um desastre só; no de Douglas Sirk era um triste e ridículo consolo para mulheres solitárias; no de Billy Wilder, era um troço repetitivo e extremamente maçante que desligar consistia num alívio para o espírito.

Obviamente, com o passar dos anos e das décadas, fui mudando minha reação à televisão, até porque a própria televisão foi mudando. Não vou entrar em detalhes, mas, como se sabe, os mesmos avanços eletrônicos que fecharam as salas dos cinemas de rua, por uma espécie de ironia do destino, transformaram o aparelho de televisão em si num precioso instrumento para o cultivo da cinefilia.

Não sei se algum jovem de hoje chegaria a dizer – no estilo hiperbólico com que abri esta crônica saudosista – que escorregou do útero para a sala doméstica onde está a televisão, mas, um fato é certo: seja qual for o seu suporte, o cinema não morreu.