“Meninos não choram”: sexo, violência e efeito fílmico

23 out

Para quem mora em João Pessoa e não pode assistir a todos os filmes lançados no local onde devia e merecia, isto é, no escurinho do cinema, o vídeo às vezes é a salvação.

Com certeza teria sido uma pena deixar de ver Meninos não choram (Boys don’t cry, 1999), que, apesar do Oscar 2000 de melhor atriz principal para Hilary Swank, não foi exibido no circuito comercial da cidade, ninguém sabe por quê, e agora está em vídeo, disponível em qualquer locadora decente.

Marcando, de modo impressionante, a estréia da cineasta novata Kimberly Peirce, o filme reconstitui o caso verídico de uma jovem americana de Nebraska, 21 anos, que assume a personalidade de homem, e assim se veste e se comporta: Teena Brandon vira Brandon Teena (Hilary Swank) que, entre cervejas e brigas, vai namorando as mocinhas de sua pequena Lincoln, estas desacostumadas que estão – descontadas as cervejas e as brigas – à tamanha delicadeza num rapaz. Até que, em 1993, resolve se mudar para Falls City onde conhece uma garçonete e se envolve com sua família de semi-marginais. Seu caso de amor com uma das moças dessa família, Lana (Choé Sevigny, de Kids) resulta em violência, sadismo, estupro e assassinato.

Em vista de sua temática forte, não é propriamente um filme para todos, porém se suportado o nível de contundência de certas cenas, o conjunto é esteticamente compensador. Não sei se conscientemente, de alguma maneira o filme de Kimberly relembra o comportamento “cinema-reportagem”, que vem do À sangue-frio (1967) de Richard Brooks, baseado por sua vez em Truman Capote: como o caso é real, o espectador assiste a esse tipo de filme já sabendo do desfecho, e como numa tragédia, esperando o pior possível, simplesmente porque esse pior possível já foi notícia de jornal.

O universo de Meninos não choram é o que em inglês se chama de “americana” (sic), isto é, a vida típica e folclórica de uns Estados Unidos rurais e autênticos, só que, aqui, como tinha que ser, uma “americana” onde tudo dá errado. Como observou um certo crítico nativo, a família com que Teena\Brandon tem o infortúnio de se meter, chafurdando na droga e na criminalidade, é o que os americanos, entre si mesmos, denominariam de “white trash”, ou seja, “lixo branco”.

Por causa de seu problema, que ela mesma, ou ele mesmo, caracteriza como “hermafroditismo”, Teena\Brandon aparenta fazer parte desse lixo, contudo, segundo a narrativa (não sei até que ponto fiel ao real), não faz. Quando os “amigos” marginais John Lotter (Peter Sarsgaard) e Tom Nissen (Brendan Sexton) constatam que “ele” é “ela”, e reagem como se indignados, o espectador se angustia com as possíveis conseqüências, que não tardam a chegar: conduzida a um local isolado, a moça é sadicamente violentada à nossa vista numa encenação quase explícita. E a “indignação” dos rapazes, claro, vira o que de fato era desde o início: tara.

O único “homem” de cabelo curto na estória toda, Teena prende os seios com faixas e usa um pênis de borracha debaixo da cueca para satisfazer suas parceiras, mas nada disso nos convence de que seja lixo moral. Ao contrário, o filme nos deixa indignados, isto sim, com o preconceito em cima de pessoas que fizeram opções sexuais diferentes do considerado “normal”, e seu caso de amor, a rigor lésbico, com Lana tem todo o tonus de um grande romance.

Fora dos padrões hollywoodianos de hoje em dia, um filme forte e envolvente onde sexo e violência, em que pese a inevitável remissão ao real, funcionam como efeito fílmico.

 

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