Cinema brasileiro hoje e sempre

30 jan

Cidade de Deus não vai ao Oscar, mas e daí? Está estreando em capitais do mundo e fazendo o maior sucesso. Acabamos de assistir à estréia de Madame Satã e, apesar das dificuldades com que se faz cinema no terceiro mundo, ninguém pode dizer que o cinema brasileiro esteja parado.

Ao contrário, fala-se por todos os quadrantes do país em retomada e numa fase dessa, de suposto otimismo, não seria interessante checar dados concretos? Por exemplo, a nossa média de produção, desde que o primeiro filme em longa-metragem foi rodado em território nacional, é de 36 filmes por ano (Para ser preciso: exatamente 35,95). Pois abrimos o milênio bem acima dessa média e em 2001 estreamos redondos 50 filmes. Já 2002 conheceu uma queda: somente 21 filmes estrearam nesse ano, mas, com certeza, não por falta de empenho dos nossos cineastas, que fecharam o ano com nada menos que 253 (!) películas em andamento.

Quem nos ajuda nas estatísticas é um livro fundamental que acaba de ser publicado pelo próprio autor, o paulista e cinéfilo Antônio Leão da Silva Neto. Resenhando a totalidade da produção nacional, do primeiro ao último filme, o seu Dicionário de filmes brasileiros é um daqueles livros que faltavam e que, nem a academia universitária, com suas Escolas de Cinema, nem o Ministério da Cultura tomou a iniciativa de conceber.

Em 95 anos de cinema (já que a nossa primeira realização em longa-metragem é de 1908) aí estão resenhados 3.415 filmes, de ficção ou não, rodados no país, com ficha técnica completa, além de sinopse e comentários sobre premiações e outras questões. Além disso, Silva Neto ainda inclui a lista das 215 produções que ficaram inacabadas na história do nosso cinema, e os já referidos 253 em andamento ao tempo do fechamento do seu livro, em novembro de 2002.

Trata-se apenas de um livro de consulta, porém, os dados aí contidos são decisivos para reforçar, ou se for o caso, negar constatações gerais sobre o cinema brasileiro na sua relação com a história do país e com sua própria história. Objetivo como deve ser, o Dicionário de Silva Neto não faz julgamentos de valor, e, contudo, os seus dados irrefutáveis nos induzem, inevitavelmente, a confrontos, comparações e deduções que resultam iluminadoras quando somamos, aos dados frios, o calor do seu contexto, seja este de ordem histórica, social, ideológica ou estética. Consideremos alguns casos particulares.

Na precária década de vinte, ainda ao tempo do cinema mudo, conseguimos rodar 176 películas em longa metragem (atenção: o livro não computa os curtas, modelo mais comum na época!), número bastante superior aos 77 da década precedente. Ora, da próxima década, a de trinta, se esperaria um avanço, certo? Nada disso: caímos para 98. Como explicar? Devemos ter tido problemas técnicos com o som, mas não tanto assim. Na verdade, sabe-se que a lei, promulgada pelo ditador Getúlio Vargas, que permitiu a entrada de Hollywood em nosso circuito de distribuição e exibição desestimulou grandemente a produção nacional. Desestímulo que se estenderia à década seguinte, a de quarenta (108 produções), só se amenizando nos anos cinqüenta (335), com a invenção das chanchadas de Oscarito e Grande Otelo.

Mais um caso para reflexão: os anos sessenta são dados, por críticos e historiadores, como a década do Cinema Novo. Ora, quantos filmes dos anos sessenta assumem a estética cinema novo? Duvido que chegue a 50. Pois nada menos que 442 foram produzidos e exibidos no país nessa década, com o seguinte agravante para quem testemunhou esse tempo: com certeza as maiores bilheterias foram para o grande número de películas não-cinema novo.

Outro exemplo curioso, agora confrontando quantidade com qualidade, vem com os anos setenta, a aparentemente década de ouro (na acepção comercial do termo) do cinema brasileiro, quando exibimos 909 filmes, quase o triplo da média por década que —  faltou dizer – é de 341 filmes.

Bem, quando se consulta a lista de filmes dessa década no livro em questão, (ou simplesmente, quando recordamos o passado), claro que vamos encontrar obras de qualidade como São Bernardo, Macunaíma, Dona flor e seus dois maridos, Bye bye Brasil, e alguns outros, porém, não nos iludamos: um repasse da filmografia dessa década de setenta indica facilmente que o número alto de produção se deveu exclusivamente à abolição da censura, que passou a permitir a exibição de filmes com cenas de sexo explícito. Não contei, mas de uma leitura rápida diria que 95 por cento das 909 realizações dessa década constituem películas de péssima qualidade, com títulos tão estapafúrdios como Meu piupiu no teu popó.

Um bom exemplo disso está no ano de 1977, o mais produtivo (?) de toda a história do cinema brasileiro, com 117 filmes rodados, cifra que parece um sonho se comparada à média anual já citada de 36 filmes. Pois bem, se excetuarmos os “gatos pingados” que são Lúcio Flávio passageiro da agonia, Mar de rosas, Tenda dos milagres, Chuvas de verão e mais dois ou três filmes sérios porém obscuros, todo o restante da produção do ano é composto de porno-chanchadas que não cito por razões óbvias, mas que qualitativamente se resumem num título como A mulher que põe a pomba no ar.

Traumatizados pelo choque Collor, nos anos noventa só chegamos a 287 realizações e, no entanto, tenho certeza, a filmografia dessa década no geral supera em qualidade a dos anos setenta.

Recapitulando: temos no Dicionário de filmes brasileiros de Silva Neto uma excelente e imprescindível fonte de consulta, mas mais que isso, um repertório seguro de dados que, se contextualizados, esclarecem pontos obscuros sobre a história passada e recente do cinema brasileiro.

Fechando com mais um exemplo dele retirado: o ano de 2002 nos deixou, como vimos, com 253 películas inconclusas. Significará isto um aumento considerável na produção final de 2003, ou será que parte dessas películas vai para o limbo dos inacabados da história, como as 215 mencionadas no livro? É esperar para ver.

 

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