Problemas de Adaptação

27 mar

A passagem do livro para a tela sempre foi importante na história do cinema. O filme que ensinou o cinema a se expressar, Nascimento de uma nação, de 1915, era uma adaptação, sem contar que o seu criador se inspirou, como é sabido, nos romances de Charles Dickens para fundar os rudimentos da linguagem cinematográfica.

Isso ao tempo do cinema mudo. Quando, a partir de 1927, o som foi introduzido, os laços entre livro e filme ficaram ainda mais estreitos. Em Hollywood, houve nessa época uma corrida desenfreada atrás de escritores, e foi nessa onda que gente famosa como Faulkner, Fitzgerald, Hemingway e até Brecht – quem diria? — pegou um dinheirinho extra roteirizando o que os estúdios decidissem.

Depois de algum tempo a própria figura do roteirista começou a aparecer como personagem nos filmes. O clássico Crepúsculo dos deuses, de 1950, do mestre Billy Wilder, por exemplo, tematiza o drama de um roteirista premido entre dívidas e impulso criador. Tão angustiante parece ser o métier que Wilder lhe forneceu a condição de defunto, e o filme se abre com a imagem do seu cadáver boiando nas águas paradas de uma psicina, e é esse defunto quem vai conduzir a narração.

De fato, onde ficam os limites entre criação e obediência às regras que dão lucro comercial? No caso da adaptação, como operar a magia da transformação do literário no fílmico, sobretudo se o livro adaptado detém qualidade?

Tal é o assunto do filme Adaptação (Adaptation, 2002, de Spike Jonze), presentemente em cartaz. Charlie Kaufman (Nicholas Cage) é um roteirista afamado que recebe a incumbência de roteirizar o livro, sucesso de vendas e crítica, da escritora Susan Orlean (Meryl Streep). Eis o fato, gerador dos conflitos: é que o livro é sobre orquídeas, assunto muito pouco roteirizável e, como se não bastasse, Kaufman está em crise e parece ter perdido a fé no seu próprio talento. (Atenção: Kaufman e Orlean são verídicos, mas isso não altera a recepção).

Mais hamlético que o Hamlet shakesperiano, praticamente paralisado, o nosso roteirista sem saída tenta ouvir a voz da experiência (a sua, em over, e as alheias), mas em vão. Desesperado, termina entrando na do seu irmão gêmeo Donald, mais espontâneo, mais ingênuo e mais ousado (também feito por Cage), que o convence a ir espiar a vida privada da autora adaptada, agora drogada e envolvida com o caçador de orquídeas do seu livro, o porra-louca, desdentado e escatológico John Laroche (Chris Cooper, Oscar de coadjuvante).

Comparado à média da produção americana, Adaptação soa imaginativo, inovador e corajoso, aliás, na linha análoga de Quero ser John Malkovich, do mesmo Spike Jonze. Brinca, por exemplo, com o duplo sentido da palavra do seu título (a outra acepção é a que vem de Darwin, como luta da espécie pela sobrevivência) para criar cenas de efeito especial fantástico que recontam a história da humanidade e outras estórias.

Em vários momentos do diálogo, o roteiro de Casablanca vem à tona, como “o melhor já concebido”, e até uma autoridade em roteiros, em dado instante, lembra a Charlie que ele foi bolado por irmãos gêmeos. Ora, como Charlie e Donald Kaufman são gêmeos, o espectador espera alguma conseqüência disso, que não vem: as referências ao brilhante roteiro do clássico de Michael Curtiz não serve de nada a Charlie, nem, para fazer o trocadilho, a Adaptação.

Um dos problemas de Charlie é que ele conhece todas as fórmulas de narrar em cinema, as que eram novas ao tempo de Casablanca e as que viraram chichê desde então. Assim o seu drama, além de pessoal, é, por extensão, o drama do cinema atual, esgotado e sem caminhos, temáticos ou semióticos. “Patético” é o que Charlie diz de si mesmo o tempo todo, mas acho que o adjetivo pode muito bem ser aplicado, sem ranço pejorativo, ao próprio filme, que, tudo indica, se quer assim mesmo, numa boa.

Bem, já é tempo de dizer: de exercício eminentemente metalingüístico  e até certo ponto “masturbatório” (aliás, prática sexual preferida do protagonista), o filme, de repente e sem mais nem menos, descamba para uma seqüência final de perseguição e tiroteios no melhor estilo trash, para se concluir, pior ainda, com uma “lição de vida”, formulada pelo irmão do roteirista no momento da morte, lição que vai dar ao outro a esperança que lhe faltava até agora. Decididamente um desenlace pífio para um filme com tanta imaginação.

Com relação ao elenco, nota-se que Nicolas Cage está repetindo o padrão de desespero do alcoólico que faz em Despedida em Las Vegas, mas, pergunta-se, por que será que uma atriz do quilate de Meryl Streep vem ultimamente recebendo (notaram?) papéis tão irrelevantes? Neste caso, correndo mato a dentro para atirar no roteirista de seu livro, no final do filme, ela chega a lembrar uma canastrona qualquer do mais irrisório besteirol hollywoodiano, desses que só é suportado pelo pessoal que não tem outra forma de acesso a cinema que não a “barata” televisão.

Quanto à recepção, imagino um efeito duplo para Adaptação: tende a gostar quem aposta em inovação, tende a detestar quem se satisfaz com as regras já postas. Com o agravante de que o filme de Jonze, como visto, parcialmente frustra os dois.

 

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