Carandiru e o Babenco de sempre

25 abr

Em Rashomon (1950) o mestre Akira Kurosawa trata de um crime, que é relatado pelas quatro pessoas envolvidas. Cada uma delas dá (e a câmera o mostra) uma versão completamente diferente dos fatos acontecidos, e ao invés de resolver o problema com um relato autoral, o cineasta encerra o filme, sem mais nem menos, deixando o espectador na impossibilidade técnica de conhecer a verdade definitiva.

Em direção diametralmente oposta, o cineasta Hector Babenco, no seu Carandiru (2003), ora em cartaz, escolhe um ponto de vista, o dos presidiários na famigerada casa de detenção que intitula o filme. Com o agravante de que, ao contrário de Rashomon, o caso é verídico, recente e conhecido do público brasileiro, que acompanhou a revolta e o massacre através da mídia.

A crítica brasileira já demonstrou suficientemente bem o quanto este era um direito seu, de criador, e o quanto esse direito deve ser defendido. Se, diferentemente de Rashomon, há uma verdade em Carandiru essa é a verdade do filme, e o próprio cineasta concorda com isso. Além do mais, convenhamos, num incidente em que 111 presidiários são mortos e todos os policiais saem ilesos não é estranho que se escolha a versão escolhida. Passemos adiante.

Em si mesmo, o filme não traz grandes surpresas. Para quem conhece a carreira de Babenco, ele é relativamente previsível. Em Lúcio Flavio o passageiro da agonia, O beijo da mulher aranha, e Pixote: a lei do mais fraco, o cineasta sempre esteve ao lado dos marginalizados que a sociedade corrompeu e condenou. De forma que, sem a “novidade” de ver “o fenômeno Carandiru” na tela, o filme suscita pouco interesse, salvo o fato de ser uma boa e séria realização da safra atual do cinema brasileiro, mais uma.

Atenção: não afirmo que a única coisa que sustenta o filme de Babenco é o impacto de seu tema: coloco apenas que esse impacto está tendo privilégio na recepção que tenho presenciado, em conversa ou em escritos. Fico pensando se esse não é o perigo de todo “cinema jornalismo” (digo: baseado em fato real): o de correr o risco de ser olvidado no futuro quando o fato, por mais chocante que seja, for esquecido. Nesse sentido, acho que  precisamos reavaliá-lo daqui a algum tempo, como, por exemplo, ainda hoje reavaliamos Memórias do Cárcere (outro filme sobre presídios) e continuamos gostando.

Essa questão à parte, a estrutura narrativa do filme de Babenco oscila entre a objetividade de um narrador onisciente e a subjetividade do ponto de vista de um narrador limitado, que é o médico do presídio. Além da limitação técnica do ponto de vista desse protagonista, cuja voz se escuta em over, há as estórias dos presos a ele contadas e assumidas pela câmera.

Como é comum na linguagem cinematográfica, a narração apela com freqüência para o recurso da paralepse, mostrando o que o médico não pôde ter visto (não apenas as vidas privadas dos presos, mas também, e sobretudo, o interior das celas durante o massacre da polícia). A dedução lógica é que esse massacre teria sido relatado ao médico pelos presos (como aliás está no livro de Dráuzio Varella, em que o filme se baseia), mas de qualquer forma o olho da câmera, mostrando o que mostra, sugere uma “veracidade imediata” que, para o espectador ingênuo, pode ser entendida como indiscutível.

Um elemento que reforça essa “veracidade imediata” é o estilo de “falso documentário” (a expressão é técnica!) que a narração assume durante a seqüência do massacre, intercalando as brutais cenas de violência, com tomadas extemporâneas dos rostos dos presos, contando à câmera, os detalhes do ocorrido, como se numa reportagem televisiva. Ora, os rostos que aparecem são dos atores do filme, claro, mas com certeza, esse tom de reportagem, como dito, enfatiza a veracidade dos fatos para o espectador sem muito senso crítico ou sem muita consciência de linguagem.

São elementos dessa ordem que revelam o assumido parti pris do cineasta e que faz o outro lado (o que defende as autoridades e os policiais) acusá-lo de deturpar os fatos.

Na verdade, Babenco não deturpa, e sim, cria. Tanto é que a galeria dos seus “entrevistados” é cuidadosamente composta daqueles personagens que, entre os sete mil habitantes do presídio, tiveram partes de suas existências narradas pela câmera, personagens, portanto, a quem se deu, estrategicamente, chance ao espectador de com eles se identificar. Deles não só esse espectador sente pena como tende, por os conhecer de perto, a lhes conferir credibilidade.

Pois bem, a partir daí já diviso um problema, de ordem, digamos assim, estrutural, imanente, que nada tem a ver com a relação (supostamente unilateral) que o filme tem com a realidade. Vejam bem.

A forma pela qual passamos a conhecer esses poucos eleitos, os entrevistados, é que eles confidenciaram ao médico as suas estórias, quase sempre incluindo o real(?) motivo por que estavam ali. Ora, por razões óbvias, o personagem com mais tempo de tela é justamente o médico, o único indivíduo no filme a quem se daria o estatuto de protagonista, já que o outro protagonista são os presos, coletivamente concebidos. E contudo, a sua função é de mero ouvinte, quase passivo, como se ele mesmo, enquanto personagem, não possuísse carne e osso, e muito menos emoções. No livro, uma arte verbal, conceitual, dissertativa, isso pode funcionar muito bem, no filme, uma arte icônica, onde toda presença é física, não.

E, para mim, mais grave, depois do massacre, seu tempo de tela passa a ser zero. Pergunto: se foi ele o intermediário entre os presos e nós, o único canal condutor da suposta “verdade” (ainda que só a verdade do filme!), não seria o momento, nesse desenlace, de termos dele algum tipo de reação? O nosso Luis Carlos Vasconcelos está ótimo no papel, mas o seu personagem, na textura dramática do filme, resulta chapado, retilíneo e inócuo. Sem interessar o que ocorre no livro, essa disfunção da figura do médico dentro do arcabouço actancial do filme, me parece o ponto fraco de Carandiru.

No mais, como dito, um filme sério e bom, que enriquece esse momento de retomada da nossa sofrida cinematografia.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: