A caldeira do diabo: lembranças da censura

3 maio

Sou de um tempo em que a censura, não apenas existia, como era levada a sério, e a fiscalização, na porta do cinema, com a idade do pretenso espectador era rigorosa. Nos anos 50, se o filme era “impróprio para menores de 18 anos”, e você não tinha o número de primaveras suficiente, não adiantava tentar entrar, que o resultado poderia ser embaraçoso.

Na maior parte dos casos, as películas da época com essa censura tinham pouca coisa além de um beijo e, ainda assim, essa coisa, pouca ou muita, só acontecia off-screen, ou seja, era meramente temática. Acima da boa intenção dos nossos fiscais locais, em Hollywood o Código Hays de Censura (vigente de 1934 a 1964) fazia o que podia para preservar a moralidade e proteger a família contra morbidez, violência, perversão e outras coisas desagradáveis. Claro que nem sempre isso era possível e muitos dos filmes dos anos 50 já minavam o Código onde podiam

Com respeito à censura, comigo aconteceu uma coisa interessante. Sendo o mais novo de uma família grande, sempre ouvia, dos meus irmãos e irmãs mais velhos, os comentários dos filmes em cartaz, o que era feito quase sempre, e por ironia, durante as refeições. Para sorte minha, meus irmãos não se lembravam que eu era criança (ou, simplesmente, não se importavam  com isso!) e falavam à vontade dos filmes mais “pesados” com a naturalidade de adultos em confidência. Naturalmente eu não entendia o significado de todas as palavras e as implicações de todas as situações, mas, sacava o geral. Para dar um exemplo, não fui à estreia local de A um passo da eternidade (1953) e só veria o famoso beijo salgado de Burt Lancaster e Deborah Kerr muito tempo depois, em reprise, porém, fiquei conhecendo, logo cedo, todos os detalhes de seu furtivo enredo das bocas generosas de meus queridos irmãos.

De tal forma que poderia, se quisesse, redigir um longo ensaio de recepção cinematográfica, que se intitularia “Cinema escutado”, e tenho certeza que encontraria leitores que vivenciaram experiência idêntica.

Tudo isso me vem a propósito de A caldeira do diabo (Peyton Place, 1957, de Mark Robson) que acaba de estrear na programação do Telecine, filme que deve ter chegado aos cinemas de João Pessoa em torno de 1958, quando eu tinha, portanto, 12 anos. Curiosíssimo, vi o seu trailer várias vezes, com todas aquelas chamadas para a ousadia da temática, e ainda hoje lembro de seu espalhafatoso cartaz nas paredes do extinto Cine Brasil, mostrando Lana Turner e Lee Phillips no que parecia um abraço tempestuoso.

A censura não me permitiu o acesso, e no entanto, fiquei sabendo de tudo o que acontecia nesse melodrama amargo, tim-tim por tim-tim, e isso, como sempre, entre uma colher de sopa e uma mordida de pão.

Numa pequena e aparentemente inocente cidade do florido Nordeste americano, uma jovem estudante secundária descobre que a mãe, viúva, não era o modelo de pureza que representava para a comunidade: nunca fora casada e, pior, o pai da moça havia sido casado com outra, sendo a filha, portanto, uma bastarda. Ao descobrir essa terrível verdade, a moça passa a odiar a genitora e foge de casa. Quando retorna, muito tempo depois, é para depor num júri em que se julga uma ex-colega de colégio sua.

Por sua vez, a estória dessa ex-colega, filha da empregada da casa, é outro amontoado de desgraças. Está sendo acusada de haver assassinato o padrasto, que a estuprara, mas, na verdade, o espectador sabe desde sempre que o estupro fora duplo: da primeira vez, a moça engravidara, e mais tarde, abortara, o que terminou levando a mãe da coitada a enforcar-se. Na segunda tentativa de estupro é que a vítima, desesperada e em legítima defesa, mata o padrasto a pauladas, o que é feito na frente do irmão mais novo, de cerca de oito anos, com quem ela enterra o corpo no quintal do sítio onde reside.

Adultério, suicídio, estupro, incesto, assassinato, tudo isso no seio da sagrada instituição familiar. Para a inocência dos anos 50 isso era demais e devem ter sido fatores dessa ordem que levaram os re-intituladores de língua portuguesa a transformar o original “Peyton Place” (apenas o nome neutro do lugar) no hiperbólico “A caldeira do diabo”.

Visto ou revisto hoje, toda a sua temática parece banal, com o agravante de que o tratamento dispensado a ela não vai muito além do convencional melodrama. Mark Robson nunca foi um grande diretor e, a rigor, não há muito a comentar sobre A caldeira do diabo.

Interessante eu já acho o seu lado sociológico, que o enquadra entre aquele tipo de filme que foi importante na formação de um público.

Digamos primeiramente que, apesar do Código Hays, a disforia, na Hollywood desse tempo, não era propriamente nova, e sim, setorizada. Certos filmes da década anterior já mergulhavam no fundo do poço como, para dar um único exemplo, lembrado ao acaso, Amar foi minha ruína (Leave her to heaven, de 1946), onde uma mulher ciumenta, para ter o marido só para si, comete uma série de crimes, incluindo o próprio filho.

Para explicar o termo “setorizado”, o que acontecia é que esses filmes se perfilavam num gênero, o mais tarde chamado de “noir”, e eram direcionados a um público particular, geralmente exibidos pelas cadeias de distribuição em dias de semana, como segundas e terças feiras. Nos fins de semana se exibia o “cinema para todos” que a família podia ver junta, mas se você gostava de um terror, ou de um policial onde todo mundo era malvado, era só aparecer durante a semana.

O impacto de A caldeira do diabo é que ele se propunha como cinema de fim-de-semana com todos os ingredientes da terça-feira, na medida em que os horrores acontecidos aconteciam no seio da família. E ainda assim, nem sequer se pode dizer que tenha sido o primeiro a fazer isso. Muito antes dele, a família vinha sendo detonada com filmes sombrios e bem melhor realizados, como Uma rua chamada pecado (1951), Um lugar ao sol (1953), Juventude transviada (1954), Vidas amargas (1955), e outros.

Para retornar ao tema de abertura desta matéria, o fato de meus irmãos me contarem os enredos de filmes como A caldeira do diabo já significava que a censura, apesar do rigor dos nossos fiscais locais, estava ficando fora de moda. Nos anos cinqüenta, o mundo mudava e o cinema era obrigado a mudar com ele, inclusive Hollywood.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: