Borges e os ingleses: sedutoramente pessoal

18 jul

A leitura deve ser uma das formas de felicidade, dizia Jorge Luis Borges. Pois venho de ter a felicidade de ler um dos livros mais felizes do autor argentino, um dos mais pessoais e apaixonados, e ironicamente, um que ele nunca escreveu.

Sim, já cego nos anos sessenta, Borges havia sido convidado a lecionar na Universidade de Buenos Aires, onde, durante quarenta trimestres, cerca de quinze anos, falou de uma de suas mais fundas paixões, a literatura de língua inglesa, para um grupo cada vez maior de alunos. Falou, falou, falou e as palavras, em conformidade com o ditado latino, teriam voado e desaparecido no ar, se alguém não tivesse tomado a brilhante providência de levar um gravador para a sala de aula.

Por décadas essas gravações ficaram no plano do privado, até que os estudiosos de sua obra, Martín Arias e Martín Hadis, se entregaram à árdua tarefa de copiar, reconstituir, revisar e ordenar todo o material, lhe concedendo um formato de livro que na Argentina se chamou Borges profesor (2000), e no Brasil (Martins Fontes, 2002) pegou a segunda parte do título original: Curso de literatura inglesa.

Com seu jeitão didático, o título não é nada convidativo e, no entanto, o livro não poderia ser mais fascinante e mais saboroso, sobretudo se o leitor está minimamente familiarizado com o assunto.

Um dos seus aspectos mais atraentes é justamente a sua coloquialidade. Embora Borges conseguisse estruturar sua fala de forma lógica e coerente em classe, não pôde, claro, fugir das armadilhas do discurso oral e os seus vai-e-véns foram respeitados – ainda bem – pelo editores, bem como os seus ricos volteios em torno de um mesmo assunto, com, às vezes, prolongadas digressões que são aulas a parte.

Recobrindo a literatura inglesa de seus primórdios medievais ao século XIX, as suas deliciosas aulas também incluem a história do país e a história da língua. Começam, portanto, com os primevos anglo-saxões, as invasões dos vikings, a batalha de Hastings (1066), para se concluir na era vitoriana, no meio disso ficando toda uma gama de obras e autores discutidos, tão importantes quanto, por exemplo, Beowulf, Chaucer, Caedman, Johnson, Boswell, Blake, MacPherson, Wordsworth, Coleridge, Carlyle, Dickens, Browning, Morris, Tennyson, Rossetti e Stevenson.

Para o estudioso da literatura inglesa são preciosas as discussões sobre aspectos da língua e da poesia, em suas origens, num tempo primitivo em que as influências latinas eram inexistentes. Um tempo em que a versificação era feita com os duros monossílabos saxões, sem rimas, e no lugar delas, as pesadas aliterações que se estendiam da primeira à última sílaba dos versos. Essa prosódia arcaica, incompreensível para os dias de hoje, Borges a dominava com impressionante fluência.

Uma dessas preciosidades é a explicação dos kennings,  metáforas descritivas, cristalizadas, a que os poetas de então faziam recurso freqüente, dando a um fenômeno da natureza uma espécie de definição poética, mais ou menos arbitrária, e que passavam a ser usadas genericamente de forma convencional. De repente, como ainda se encontra em Shakespeare, o sol podia ser ‘o olho do céu’. Esses kennings eram responsáveis pelo nível de obscuridade da poesia dessa época, principalmente quando passavam a ser combinados uns com os outros, alcançando um patamar de complexidade que beira o hermetismo. Eis um exemplo, citado por Borges ao explicar a combinação de dois kennings, um relativo à idéia de ‘nau’ e outro à de ‘mar’. Assim, explica Borges, se nau para esses poetas era ‘cavalo do mar’ e mar era ‘campo da gaivota’, então a nau, depois da combinação, seria ‘o cavalo do campo da gaivota’.

Também é bom ficar sabendo por que o inglês (ao contrário do alemão que o gerou ou do francês que o influenciou depois da invasão normanda) se constituiu numa língua simples, quer dizer, com um mínimo de flexões. Segundo Borges os saxões originais e os escandinavos invasores (os vikings), tendo que conviver juntos por muito tempo, para se entenderem, apelaram para uma espécie de língua franca, se livrando o tanto quanto puderam das desinências e das flexões. Quando os normandos chegaram, a partir de 1066, com a batalha de Hastings, essa estrutura básica e simplificada já estava consolidada e o que houve depois disso foi somente a soma de um vocabulário latino que, de fato, compreende mais da metade do vocabulário inglês, embora, Borges lembra com cuidado, todos os termos essenciais (referentes ao fogo, metais, homens, árvores, etc) continuem anglo-saxões.

Algumas dessas aulas são sobre poemas anônimos, cujos autores e origens se perderam nos desvãos da história, e não deixa de ser comovente o carinho que Borges lhes dedica, gastando um tempo considerável no comentário de elegias anglo-saxãs de conteúdo surpreendentemente cristão, dificilmente encontráveis nas antologias acadêmicas. Um dos casos é o desse estranho poema The dream of the rood que é melhor traduzido para The vision of the cross (A visão da cruz), já que o termo “dream” no tempo tinha o sentido premonitório e real que perdeu com o advento da moderna psicanálise. Nele alguém sonha com uma árvore e, no sonho, essa árvore lhe fala, contando o sofrimento de se saber a madeira de que foi feita a cruz onde o Cristo foi morto. Esse recurso esquisito de dar voz a um objeto, à cruz, e desenvolver toda uma situação dramática a partir dessa voz, está na raiz, a gente sabe, do melhor da poesia inglesa e gerou o melhor dos procedimentos tecnico-estilísticos de uma escola como a metafísica, ou de uma poética como a de T. S. Eliot.

Em cada aula impressiona a profundidade, a extensão e a precisão do conhecimento transmitido quando se sabe que, já cego, Borges não estava em condição física de pesquisar e conferir dados. Tanto é assim que, com freqüência, ele pede desculpas aos alunos pelas imprecisões das datas, embora (e os editores confirmam) quase todas as datas por ele citadas estivessem corretas. Reclama sempre de uma memória falha e, contudo, recita de cor, de seus poetas preferidos, longos trechos de poemas com a maior correção.

A abordagem de cada autor, que corresponde a uma aula e a um capítulo no livro, segue mais ou menos um padrão, começando com uma contextualização geralmente de natureza biográfica para, só depois, se concentrar em partes selecionadas das obras, romances, trechos de ficções, poemas ou fragmentos de poemas.

Um dos ângulos mais fascinantes desse curso que virou livro é, naturalmente, a sua espontaneidade, o seu grau, digamos, de verdade pessoal, formulada com a mais autêntica sinceridade pelo leitor menos convencional que se possa imaginar.

Embora se tratasse de um curso universitário, Borges não estava sendo pago para ser acadêmico e sabia disso, e melhor, investia nisso. Falando desse curso, décadas depois, ele mesmo diria: “Preferi ensinar a meus alunos não a literatura inglesa (…), mas sim, o amor a certos autores, ou melhor ainda, a certas páginas, ou, melhor ainda, a certas linhas. E com isso basta, parece-me. A gente se enamora por uma linha, depois por uma página, depois pelo autor. Bem, por que não? É um bonito processo. Procurei levar meus alunos a isso.”

A bem da verdade, o processo adotado parece ser no sentido inverso: cada abordagem de cada aula se abre, como dito, com a vida do autor a ser estudado para só depois chegar a suas linhas. Tão sistematicamente assim que Borges não hesita em colocar a certa altura, em uma de suas boutades mais extravagantes, que “uma das obras mais importantes de um escritor – talvez a mais importante de todas – é a imagem que deixa de si mesmo na memória dos homens, para lá das páginas escritas por ele”.

Deve ter sido fascinante para os alunos ouvir um escritor famoso como Borges literalmente “falando da vida alheia”, ainda que esse biografismo inveterado e assumido, (aliás, tão chocante para as concepções modernas de crítica literária), nem sempre desse os resultados esperados, e, no o livro, soe, às vezes, como apenas um amontoado de mexericos inconseqüentes – mesmo que, deliciosos, nem sempre lançando luz sobre as obras comentadas.

Assim, — o leitor pode perguntar — para o entendimento da obra literária de Samuel Johnson, de que adianta saber que ele era fisicamente deformado, pesado e feio, cheio de tiques nervosos e que casou-se com uma mulher velha, feia e ridícula? Na verdade, a vida completa do autor já está na célebre biografia de Boswell que, como sabemos, vale mais como obra literária ou livro de história. O próprio Boswell, como esperado, merece uma aula inteira de Borges e, de novo, não sabemos muito bem o que fazer com o fato de seus contemporâneos o julgarem “um boboca”. “Parece-me muito difícil, diz Borges, que um boboca possa escrever uma biografia admirável de oitocentas páginas”, e no entanto, o mexerico (mesmo sendo alheio, como é) é trazido à tona.

Teria Wordsworth sido a “ovelha velha e boba” que se disse dele? E será que Coleridge não fez outra coisa na vida prática senão conversar? De que adianta saber que os manuscritos d’A história da revolução francesa, de Carlyle, foram acidentalmente queimados pela empregada de Stuart Mill, o qual, depois disso, pagou a Carlyle, em rigorosas prestações, uma soma enorme para que ele a reescrevesse?

Não sei até que ponto ele é útil, mas um dos mexericos mais bonitos se prende ao poeta vitoriano Dante Gabriel Rossetti. Com detalhes dramáticos, como se bolando um roteiro de cinema, Borges conta a seus alunos a impressionante estória da publicação dos belos sonetos de Rossetti.

Rossetti e a esposa eram apaixonados e viviam bem, porém, ele tinha uma amante secreta, uma mulher grandalhona a que apelidava de “o elefante”. Uma noite em que Rossetti passou fora de casa, com o “elefante”, a sua esposa ingere uma dose excessiva de um remédio qualquer e vem a falecer. Sentindo-se culpado por achar que a esposa talvez houvesse descoberto o seu adultério e tivesse se matado, Rossetti aproveita a distração de todos durante o funeral e coloca no ataúde, entre as mãos da morta, os originais de seu livro de sonetos que, com ela são enterrados, uma forma secreta de se punir. Passam-se quatro anos até que os amigos (entre os quais o poeta Swinburne) venham a saber do paradeiro desses originais. Depois de muito esforço argumentativo, convencem finalmente Rossetti a permitir a exumação do corpo e (enquanto o poeta se embriagava numa taverna) arrancam das mãos putrefatas os manuscritos manchados que, editados, como se sabe, fizeram a consagração de Rossetti.

É óbvio que a coleção de sonetos de Rossetti não precisaria dessa estória trágica para ocupar o lugar que ocupa na história da poesia inglesa. É claro que sua qualidade poética bastaria, mas, vejam bem, como não dar razão ao Borges professor, no seu intento de fazer recurso a todos os meios possíveis para despertar nos seus alunos o interesse pela literatura? Ele sabia, sim, que essa estória trágica tinha o potencial emocional de acender a curiosidade dos iniciantes, e afinal de contas que importa se você chegou à poesia pela motivação biográfica, pelo mexerico, se chegou? Provavelmente, depois do amor criado, o mexerico será esquecido ou passará a segundo plano.

Na verdade, nas aulas de Borges há pouca análise e a maior parte das abordagens dos poemas consiste mesmo em paráfrases, ou seja, em reconstituições do conteúdo, ou se for o caso, do enredo, quando o poema é narrativo. Quando sabe de cor, ele recita versos e os comenta, relacionando semrpre os temas com temas em outros poemas, em outros autores, ou mesmo em outras literaturas, mas o grosso da abordagem é realmente a paráfrase, que, como ele mesmo coloca em certo momento, tem o intento didático de facilitar a compreensão e de provocar o desejo de ler, especialmente os poetas mais difíceis.

Ironicamente, as instâncias mais profundas, de maior fólego interpretativo, aparecem quando ele fala do geral, no caso, da visão do mundo de um determinado escritor. É o que acontece no seu magistral e apaixonado depoimento pessoal sobre Blake, desvelando para os alunos a obscuridade de uma obra críptica e cheia de simbolismos ambíguos onde os santos parecem maus e os demônios, bons. Duas outras leituras de igual peso hermenêutico vêm com Coleridge e seus espíritos apavorantes (em Christabel, The rhyme of the ancient mariner e Kubla Khan) e com Browning e seu monologismo, que esconde uma posição moral por trás da voz do eu lírico. A associação do poema The ring and the bell com a literatura e o cinema japoneses é um algo mais que só Borges pode dar.

É claro, que vez ou outra, Borges vai atrás de seus temas prediletos e os introduz, como é o caso com o motivo do duplo, comentado em várias ocasiões e a propósito de vários escritores. Os casos mais ostensivos ficam com o Robert Louis Stevenson do conto Markheim e do clássico e popular Dr Jekyll and Mr Hyde, também discutido em suas versões cinematográficas, e o Oscar Wilde de O retrato de Dorian Gray.

“Sempre considerei a literatura inglesa a mais rica do mundo”, afirma Borges em sua autobiografia e alhures. Quem conhece essa paixão do autor argentino pode supor que suas apreciações sejam sempre favoráveis. Não é o caso.

O valor literário de um grande romancista como Dickens não o isenta, segundo Borges, do defeito do sentimentalismo e do simplismo psicológico de seus personagens. Sobre o grande Carlyle, o seu compte-rendu é no geral muito mais desfavorável que outra coisa. O autor de Sartor Resartus é dado como um escritor obscuro que, com seu ódio à democracia e sua crença na superioridade da raça germânica, preconizou o nazismo. No tocante à qualidade estética, Borges o inclui entre aquele tipo de escritor tão pessoal, tão idiossincrático (diríamos) que, se nos deslumbra num primeiro momento, logo aprendemos os seus macetes que, sempre repetidos, passam a nos cansar e a nos aborrecer.

A memória de Borges é fabulosa, mas naturalmente não é infalível, e ninguém espera que seja.

Há, no livro, vários momentos de hesitação ou mesmo de incorreção. Parafraseando o extenso poema de William Morris, The defence of Guenevere, ele se engana sobre o momento da aparição do anjo ao cavaleiro medieval moribundo. O equívoco vem à baila logo em seguida, quando a uma aluna do curso é pedido que leia o poema, e o próprio Borges é obrigado a admitir o engano. Citada de uma segunda vez, a data da morte de Rossetti aparece como 1872, quando pouco tempo atrás o próprio Borges fizera ênfase na facilidade de se gravar de cor as datas desse poeta por causa dos números invertidos, 1828 e 1882.

Um equívoco justificável para um cego que não ia ao cinema havia tanto tempo está na reconstituição que ele faz do filme Rashomon (1952), a propósito do poema de Browning. Diz ele da obra prima de Kurosawa: “Um samurai atravessa a floresta com sua mulher. Um bandoleiro o ataca. O bandoleiro mata a mulher, depois temos três versões de um mesmo fato. Uma é contada pelo samurai, outra pelo bandoleiro, e outra pelo espírito da mulher, através da boca de uma bruxa.”.

Como o leitor talvez lembre, não é a mulher que é assassinada pelo bandoleiro, e sim, o samurai, e portanto, o espírito que depõe no júri é o dele, e não o dela. Quanto à mulher, ela, ao contrário, depõe em carne e osso, e o total das versões do fato não é três, e sim quatro, já que há ainda um lenhador que, escondido no mato, presenciou tudo e também depõe no júri.

O apreciador da literatura inglesa lamenta que o curso não tenha se estendido até o século XX para ver o que Borges teria a dizer de Virgínia Woolf e de Joyce, e, contudo, mesmo dentro do périplo recoberto pelo programa, há lacunas lamentáveis. Entre os medievais anônimos não está, por exemplo, o cavernoso poema narrativo Sir Gawain and the green knight que tanto assombra a nossa imaginação; não há ninguém da Escola Metafísica (um poeta da magnitude de John Donne sequer é referido) e entre os grandes românticos ficou de fora toda a segunda geração, formada de Byron, Shelley e Keats. Mas a mais imperdoável das lacunas, a maior de todas, é mesmo a ausência de Shakespeare, referido várias vezes mas a quem não se dedicou aula alguma. Houve a aula e os gravadores não a registraram ou Borges preferiu pular o Bardo por alguma razão? Em nenhum momento, no livro, isso é explicado, sequer pelos editores, o que deixa, inevitavelmente, o leitor intrigado.

Concordando com ou discordando das abordagens de Borges, dando-se ou não ao trabalho de confrontar o seu biografismo com a tradição moderna da “morte do autor” (Vide Barthes), fazendo ou não restrições a suas prolixas paráfrases, o leitor não consegue é deixar de se deliciar com tal banho de cultura, dado com tamanha elegância e com tal charme. Não é a primeira vez nem é só aqui que Borges fala dos ingleses, mas só aqui ele é tão íntimo e tão cativante. É o mesmo Borges de sempre, inventivo, lúdico, genial, só que um pouco mais pessoal. Sedutoramente pessoal.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: