Deslendo e desouvindo Chico

21 ago

Letra de música é poesia? Essa questão polêmica não tem impedido que, cada vez com maior freqüência, dissertações de mestrado e teses de doutorado venham se debruçando sobre a obra de compositores da música popular brasileira.

Uma das primeiras a responder sim à pergunta foi a ensaísta Adélia Bezerra de Meneses que, ainda nos anos setenta, escolheu a produção escrita de Chico Buarque de Hollanda para o seu corpus de doutorado, defendo tese na USP, em 1981, sob a orientação do escritor Antonio Candido. Tendo ganho o prêmio Jabuti, seu trabalho foi publicado pela primeira vez pela Hucitec, em 1982, e mais recentemente (2000) pela Ateliê Editorial.

Desenho mágico: poesia e política em Chico Buarque faz um retrospecto analítico-interpretativo na carreira do compositor, tentando aí demonstrar uma evolução temática, que começa com a nostalgia, passa pela repressão e pela utopia e se finda na crítica, sendo que (como sustenta o título do livro) esse desenho evolutivo seria “mágico”, ou seja, nele os temas e atitudes se revezariam.

Com bela edição da Ateliê, o livro contém uma ampla iconografia da vida do compositor, e, embora escrito como tese, o texto não tem ranço acadêmico e sua leitura é fluente e descontraída. O tom geral é quase jornalístico, com apelo a trechos de entrevistas do compositor, usados para endosso do enfoque.

Tudo isso são fatores para tornar o livro agradável ao leitor comum, especialmente se fã de Chico Buarque. Um leitor mais exigente, contudo, que leve a sério a idéia de que letra de música possa de fato ser enfrentada como poesia, tem motivos para reclamar.

Digamos, primeiramente, que no geral as análises das letras das canções deixam a desejar. Superficiais e óbvias, na maior parte dos casos consistem em paráfrases que reconstituem o conteúdo e\ou comentam de passagem a forma, sem lançar luz sobre a relação necessária entre as duas coisas. Em alguns casos, as interpretações são mesmo equivocadas, como demonstrarei a adiante.

Arrebanhados de modo circunstancial, de fontes diversas e nem sempre conciliáveis, os conceitos teóricos, não ajudam na análise e muito menos na interpretação. Marcuse, Sartre, Freud, Riffaterre, Octavio Paz, Bachelard, Alfredo Bosi, e alguns mitos gregos como o de Pandora, comparecem, aqui e acolá, sem aviso prévios, já que não existe, no trabalho, uma seção dedicada à fundamentação teórica. Em sua grande maioria, a aplicação é mecânica e resulta pouco convincente, ou então é inútil, ou as duas coisas juntas. Para piorar, o enfoque está permeado de biografismo, as opiniões de Chico sendo utilizadas, como dito, para sustentar as interpretações.

Sem contar com as incongruências teóricas: por exemplo, Freud e Bachelard são utilizados indistintamente, quando se sabe muito bem que os dois sistemas de pensamento em questão não batem. Como é sabido, a proposta de leitura do poético do pensador francês proíbe, radicalmente, a leitura psicanalítica (que trairia a sublime imotivação da imagem poética). Tais incongruências escondem, na verdade, um problema de ordem metodológica: faltou o exercício de uma síntese conceitual, que desse respaldo ao esforço analítico e coerência aos vôos interpretativos.

Uma ressalva temática ao livro é que, traindo o seu próprio enfoque, há menos política na poesia de Chico Buarque do que se anuncia no título. Composto de quatro seções, cada uma delas diminui, ao invés de enfatizar o elemento político. Assim, a primeira praticamente o troca por nostalgia; a terceira centra mais no erotismo que na política, tentando provar, sem conseguir, que as duas coisas são a mesma; a quarta deixa vaga a noção de crítica, diluindo o seu objeto (crítica a quê?), e somente a segunda seção se prende ao problema político propriamente dito, e mesmo assim, segundo a autora, Chico não teria feito “música de protesto”, e sim, “de repressão”, ou seja, mesmo aqui a política fica em segundo plano.

Em cada seção se analisa várias canções, ou trechos de canções do compositor, mas há sempre duas ou três mais destacadas, discutidas em sua inteireza, certamente por serem entendidas como mais representativas. Aqui, por falta de espaço, comento as leituras dessas mais representativas.

Na seção inicial, em que se trata de nostalgia, duas canções ganham mais espaço: “A banda” e “Carolina”. Ora, a análise desta segunda é a mais óbvia possível, não adiantando nada que o ouvinte da canção ou leitor da letra, não já soubesse\sentisse\intuísse. Como se para preencher páginas, a autora inclui as repercussões da canção em outras composições musicais, ou em outros escritores, mas o leitor não se convence dessa necessidade.

Sobre “A banda”, além da superficialidade da leitura, há o equívoco. Na ânsia de dialogar com a psicanálise, a autora atribui à inocente marchinha, tão conhecida do público brasileiro, o revolucionário estatuto de um (cito) “cortejo dionisíaco”. Se não fizesse isso não iria poder falar mais tarde de coisas como “princípio de prazer”, porém, para o leitor sensato, fica difícil engolir, na singela alegria da passagem da banda, a explosão erótica de Dionísio.

Na seção sobre a repressão, a leitura de “Acorda amor” se conclui com uma interpretação prejudicial à qualidade do texto: a explicação do refrão (“chame o ladrão, chame o ladrão”) é que (cito) “a saída para escapar do crime político é apelar para o crime comum”. Como se vê, o alto grau de ironia do referido refrão (fundado na antinomia policial vs ladrão), que fornece à canção toda uma atmosfera de surrealismo, não é sentido e por isso ele é lido literalmente. Fechando essa seção, a canção “Angélica” é incluída sem (!) análise, como se as suas duras palavras e a verdade histórica que elas referem, bastassem.

Engraçado é que, quando devia ser mais literal a autora não o é. Um dos mais graves equívocos interpretativos aparece na leitura de “O que será?” quando a pergunta do título, repetida na letra, é dada como uma advinha de natureza meio críptica, solicitando um esforço decodificador por parte do ouvinte. Ora, todo mundo sabe muito bem que a resposta é uma e muito simples: sexo. Neste caso, pelo menos, a polissemia do texto reside noutros lugares, mas não aqui.

Na quarta seção, um pouco mais formalizada que as outras, a leitura de “Construção”, termina, como todas, sem chegar a lugar algum, salvo na conclusão tola de que o operário que cai, aqui, é o mesmo Pedro pedreiro que, anos atrás, esperava o trem. Mas creio que a leitura de “Bom conselho” supera todas em termos de ingenuidade e obviedade, ao ponto de a autora, inutilmente, se dar ao trabalho de listar todos os conselhos reais a que os versos fazem referência, como se fossem desconhecidos do ouvinte\leitor, e como se isso consistisse em aprofundamento heurístico-hermenêutico.

Como esperado, a conclusão final é pífia. Nela se mostra, muito sumária e superficialmente, o que já se sabe, a importância da palavra e do tema da canção nas letras de Chico Buarque, para terminar com, de novo, a traição do enfoque: a admissão de que o desejo, no autor, vem antes da política.

Uma coisa boa no livro da autora é a manutenção da imagem do espiral (“desenho mágico”, expressão retirada de “Construção”), para garantir a idéia de que os temas e procedimentos em Chico se entrelaçam no tempo. Só que o livro tem todos os problemas com que se deparam os enfoques temáticos: é que procede a um recorte que compromete o que na obra de Chico é fundamental, a saber, a polifonia. Não é necessário se deter em análise para sabermos que o universo ficcional e poético do compositor é povoado por um número enorme de vozes, muitas das quais antagônicas entre si, e que não precisam se conciliar: muito pelo contrário, a tensão é que enriquece essa obra.

Não há, em Desenho mágico: poesia e política em Chico Buarque nada do rigor que se esperaria de uma tese uspiana, sobretudo quando se pensa que Antonio Candido foi o orientador. E no entanto, se se entende corretamente os agradecimentos iniciais, a referida tese foi publicada na íntegra. De qualquer forma, do escritor de Literatura e sociedade não se fareja vestígio algum.

 

 

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