Nos reinos do amarelo

27 out

Se o espectador do filme Amarelo manga (Cláudio Assis, 2002) também gostar de poesia, é possível que lhe ocorra a lembrança de um certo poema de João Cabral, que está no seu livro A educação pela pedra. O poema se chama “Os reinos do amarelo” e desenvolve a idéia de que, no litoral nordestino, esta cor teria pelo menos dois reinos: o primeiro está na exuberância da natureza, da “terra lauta da Mata, (que) produz e exibe \ um amarelo vivo (…) \ o amarelo do maracujá e o da manga”. Já o segundo reino, nada eufórico, está na miséria humana dessa região, e o poema termina igualando essa cor amarelo desfigurada do homem nordestino, a escatológicas “poças de amarelo, de escarro vivo”.

De modo óbvio, foi, conscientemente ou não, neste poema do conterrâneo Cabral que o roteirista do filme foi buscar o seu argumento. Como a poesia de poeta pernambucano, o filme de Cláudio Assis descarta o elemento discursivo, extenso, prolixo da oratória brasileira, para investir na plasticidade. O enredo é mínimo e, se cotejado, não tem relevância sobre os outros elementos da construção fílmica. Bem mais importante que ele, é, por exemplo, a expressiva fotografia de Walter Carvalho que, como em Cabral, obsessivamente desenvolve as tonalidades da cor em questão, tonalidades que vão de pelos púbicos a automóveis, passando naturalmente, pela própria fruta, à mostra em feiras livres.

De fato, quase não há uma estória a contar nesse perímetro entre um Hotel (Texas) e um bar, nos arrabaldes miseráveis de Recife. Ao invés da narrativa tradicional, o filme assume um tom documental, de painel circular, como se o espectador estivesse vendo, não ficção e, sim, cinema direto.

Contudo, se para o homem nordestino cabralino havia esperança, para essa escória das favelas recifenses não há salvação. Na verdade, o que o filme mais guarda do poema, além da cor, é a sua escatologia de “escarro”, tanto é assim que a galeria de personagens expostas mais parece uma cuidadosa coleção de pervertidos incuráveis. Uma dona de bar neurótica que vive agredindo os seus fregueses; um cozinheiro gay, histericamente obcecado pelo amigo; um empregado de um açougue clandestino, adúltero e fiel ao mesmo tempo; uma dona de casa evangélica que, decepcionada com o marido, termina se prostituindo e gostando; uma pensionista obesa e asmática que se masturba com o nebulizador; um ex-policial que se diverte experimentando carne humana e atirando em cadáveres.

No geral, os personagens são fechados em si mesmos e não se transformam ao longo da estória, como, exemplo típico, o dessa asmática onanista, que continua a mesma do começo ao fim, e mais típico ainda, o da dona do bar, cujo discurso oral abre e fecha o filme, sem que ela mesma sofra qualquer transformação. Essa imutabilidade está, na verdade tematizada na fala da dona do bar ao dizer que “um dia atrás do outro, a vida é a mesma merda”.

Para ser franco, o enredo, mínimo como dito, tem mesmo o estatuto de um mexerico (o gay manda avisar à esposa evangélica que o açougueiro, vai se encontrar com a amante…), e talvez a maior transformação diegética seja a da esposa traída, no desenlace uma puta assumida que manda cortar os cabelos longos de evangélica e pintar de “amarelo manga”, com isso, remetendo não apenas ao título, mas a todas as instância do uso da cor no filme, particularmente a dos pelos na genitália da nada evangélica dona do bar. O preceito subjacente parece ser: quando tudo está ruim, a tendência é ficar pior, bem pertinente para quem pensa no Brasil de agora.

Acho que quem assiste a Amarelo manga não tem nenhuma dúvida a respeito do talento do cineasta Cláudio Assis, e tende mesmo a pôr seu filme entre umas das boas realizações desse assim chamado Cinema da Retomada.

A intenção de, sem preconceitos ou camuflagens, mostrar a anormalidade dos normais é com certeza louvável. Um dos perigos dessa explicitação da contundência, no entanto, é que ela passe a funcionar como valor. De minha parte, tenho a impressão que a direção do filme incorreu em exageros.

Os exemplos podem ser muitos e, como não tenho espaço, cito apenas alguns: vejam bem, a reação da esposa traída de se prostituir é verossímil e, no contexto do cinema moderno, até previsível (lembra a cuspida na tela no final de Seara Vermelha!); a tórrida cópula entre ela o amante convence o espectador de que, livre dos ditames do evangelismo e do marido machista, a mulher está descobrindo novos horizontes, porém, o consolo que enfia no ânus do amante me parece um apelo gratuito: onde essa ex-evangélica arranjou esse consolo, e por que o amante machão o aceitaria?

No bar, quando os fregueses estão conversando bobagens, a dona neurótica os põe para fora aos berros depois de lhes jogar um balde de água sobre a roupa, isso sem dar a mínima para o pagamento da pilha de cervejas cujos cascos ainda estão sobre a mesa. Se se tratasse de, digamos, um particular momento de surto da proprietária, tudo bem, mas não: depois disso ela continua como sempre, normalmente neurótica ou neuroticamente normal, como se pudesse se dar ao luxo de vender cerveja sem pagamento. E atenção: ficar curioso sobre o pagamento das cervejas não é uma questão menor, porque demonstra, sim, a imaturidade do roteiro.

Algum tempo antes do “mexerico” que desencadearia o desenlace, o casal Wellington, o açogueiro, e sua esposa, Kika, a evangélica, estão à mesa em uma de suas refeições diárias. De repente, o assunto cai em traição amorosa, e Kika faz ênfase na inaceitabilidade disso: pois bem, a ênfase é tão grande e tão manjadamente insistente, que o espectador deduz logo que haverá, sim, a descoberta dessa traição. Num momento desses parece que estamos diante de um filme de amador, sem experiência e sem traquejo para contornar a falta de experiência.

Amarelo manga está repleto de problemas de roteiro dessa ordem (um adicional é o diálogo e sua dicção falseada, teatral), mas o que menos me agradou no filme é o pecado maior do cinema brasileiro, a saber, a direção de atores. Acho que a mais mal dirigida é a atriz Leona Cavalli, quase sempre super-interpretando o papel da dona do bar, teatral, falsa, artificial, pouco convincente. Não se nota muito isso num ator experiente como Jonas Block (o necrófilo), mas, engraçado, até o grande Matheus Nachtergaele exibe falhas: sua representação do homossexual em dados momentos soa caricaturesca, e, pior de tudo, basta rever a cena chave em que, diante do patrão morto, ele tem, agora, sim, um surto.

Por essas e outras, não consegui entrar no clima do filme, e o vi com um certo distanciamento desagradável, aquele mesmo que é provocado por um inconveniente erro de continuidade.

 

 

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