Ouvindo filmes

8 abr

Para quem gosta de cinema, para quem gosta de música, e, sobretudo, para quem gosta das duas coisas juntas, acaba de chegar às livrarias do país um livro fundamental, que vem preencher uma enorme lacuna na bibliografia sobre cinema, em território nacional e mesmo alhures.

Trata-se de A música no cinema: os 100 primeiros anos, do jornalista João Máximo, (Rocco, 2003). Em suas quase mil páginas, dispostas em dois volumes, o livro recobre a relação das duas artes, pode-se dizer que da forma mais pertinente e agradável, alternando e combinando pesquisa, história, biografia, técnica, teoria, análise e interpretação pessoal, como poucos souberam fazer no terreno da crítica de cinema.

Mas, atenção: ao contrário do que se poderia esperar, o livro não se dedica ao estudo do gênero musical no cinema, e prefere analisar a música como componente da linguagem cinematográfica, um entre tantos, investigando seu uso, sua função e seus efeitos dentro do conjunto do filme, qualquer filme.

Demonstrando que a música nunca esteve ausente do cinema, mesmo ao tempo do filme mudo, o autor levanta a tese de que sem música o cinema seria uma arte incompleta. E quem não concorda? Bem, o caso não é assim tão pacífico, tanto é que o livro de Máximo é, com uma pitada de ironia, dedicado aqueles espectadores – segundo o autor, bastante comuns – “que vêem, mas não ouvem os filmes”.

Sem demoli-los nem engoli-los, o autor enfrenta, de cara, o que ele chama de os três clichês mais óbvios sobre o papel da música no cinema: (1) a melhor música de cinema é a que não é notada; (2) a música dos filmes só funciona nos filmes; (3) uma boa música pode salvar um filme ruim e uma música ruim pode destruir um filme bom.

Os capítulos que se seguem a essas e outras colocações gerais abordam cinematografias do mundo todo, e dentro delas, músicos que se destacaram na arte, tão especial, de musicar filmes. Max Steiner, Franz Waxman, Dimitri Tiomkin, Alfred Newman, Victor Young, Miklos Rozsa, Henry Mancini, Maurice Jarre, Elmer Bernstein, Bernard Herrmann, Burt Bacharah, Michel Legrand, Nino Rotta, John Williams, George Delerue… Difícil pensar num nome que, mesmo bem menor que estes consagrados, tenha ficado fora do livro de Máximo. Um surpreendente e bem atualizado capítulo, por exemplo, é dedicado ao Brasil, onde até o nosso meio paraibano Marcus Vinicius é estudado.

Para o leitor\espectador é uma delícia recordar os grandes clássicos do passado e, com a ajuda do autor, tentar lembrar que composições musicais contribuíram para torná-los clássicos. Para facilitar, o autor sempre abre cada seção sobre um dado músico com a descrição de uma dada cena de filme, por ele considerada um momento de grande efeito na combinação de imagem e som, a partir do que a seção inteira é desenvolvida. Outro prazer, naturalmente, é ir se familiarizando com o músico, na vida e no estilo, e acompanhar sua trajetória musico-cinematográfica para, se for o caso, ser mais tarde capaz de identificar seu estilo em filmes diferentes.

Certas seções ou trechos do livro consistem em verdadeiras aulas, tanto de música em si, como de música no cinema. Melodia, harmonia e ritmo, os três elementos básicos da arte musical, são explicados a propósito de um determinado compositor, e, a propósito de outros, fica-se sabendo, por exemplo, o que em cinema, vem a ser mickeymousing (a música que imita a ação), telegrafia (a música que antecipa e anuncia a ação futura) e source music (a música executada dentro do universo ficcional do filme).

Um capítulo particularmente saboroso é o que trata dos “casais”, digo, aqueles casos em que um cineasta e um compositor trabalharam juntos por tanto tempo ao ponto de criarem um estilo de unidade inseparável. No livro são estudados: Bernard Herrmann e Hitchcock, Sir Wiliam Walton e Laurence Olivier, Nino Rotta e Fellini, Ennio Morricone e Sergio Leone, e Henry Mancini e Blake Edwards.

Agora – por que negar? – impagáveis são as estórias de bastidores. Como compreender que o grande Max Steiner, tido pelo próprio autor do livro como “o pai da música no cinema”, tenha abominado a canção “As time goes by” e tenha  composto a contragosto a trilha musical de Rick e Lisa, em Casablanca, em nenhum momento acreditando que ela fosse funcionar? Ou como não se surpreender com o fato de que o genial Hitchcock, que antes de filmar já tinha o filme pronto na cabeça, não queria música nenhuma para a famosa cena do chuveiro em Psicose, e que só tenha se convencido depois de ter ouvido a peça que Herrmann lhe preparara? Ou como não se espantar com o fato de que as cenas mais significativas em 2001: uma odisséia no espaço tiveram uma bela trilha musical original, caprichosamente composta pelo grande Alex North, de última hora substituída pelo Strauss que ficou, decisão, não de estúdios, mas do próprio diretor do filme, Stanley Kubrick?

Abri esta matéria me referindo à lacuna bibliográfica que o livro em questão vem preencher. Para comprovar, basta checar os títulos nele listados, em sua grande maioria, acho que 95%, textos de CDs ou de sites sobre os compositores. Embora extensa e internacional, a pesquisa de Máximo contém menos de 10 títulos de livros sobre a música no cinema, não porque ele não tenha sido exaustivo em sua pesquisa, mas pelo simples fato de que, até o momento, se escreveu pouco sobre o assunto.

Com relação à pesquisa em si, é verdade que a Internet fornece tudo sobre tudo, mas o que impressiona em A música no cinema: os 100 primeiros anos é a familiaridade do autor com os filmes estudados, na análise ficando claro que ele viu esses filmes todos e refletiu cuidadosamente sobre eles.

Enfim, um livro de mestre, já fadado a virar um marco em sua área.

 

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2 Respostas to “Ouvindo filmes”

  1. Gilberto de Sousa Lucena outubro 11, 2014 às 1:46 pm #

    João, amigo:

    Lendo sua matéria que trata do livro do jornalista João Máximo sobre a música no cinema, constatei que a edição citada tem a data de 2003. É isso mesmo? Só agora a obra chega às livrarias?
    Um abraço.

    Gilberto

    • João Batista de Brito outubro 11, 2014 às 2:58 pm #

      A data é esta mesma, eu é que escrevi um pouco atrasado, se bem a publicação da matéria, em jornal, é bem anterior à sua postagem no blog.

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