Covardia e glória em Hollywood

8 jun

Problemas entre o diretor de um filme e a sua produção sempre houve em Hollywood. Um caso paradigmático é talvez o de E o vento levou… (1939) que revezou, ao longo das filmagens, nada menos que quatro diretores e, no entanto, as decisões principais, todas elas, ficaram mesmo foi com o produtor Selznick, sendo mera formalidade o nome que aparece nos créditos para a direção de Victor Fleming.

Acostumados estamos todos nós a ler sobre casos isolados de estúdios que impuseram estrelas badaladas a certos filmes que não as pediam, ou então que, tudo terminado e a película finalizada, usaram a tesoura para amputar cenas consideradas comercialmente inconvenientes.

Nenhum caso, porém, em toda a história do cinema, é mais famoso que o do filme A glória de um covarde (The red badge of courage, 1951, de John Huston). E por que? Simplesmente porque tudo que aconteceu antes, durante e depois das conturbadas e malfadadas filmagens foi, em seus mínimos detalhes, registrado e em seguida publicado em livro. (Vide adiante).

Para aqui resumirmos os problemas do cineasta John Huston (1906-1987) com A glória de um covarde, digamos apenas que, depois dos muitos percalços da rodagem, os produtores acharam que certas cenas eram contundentes demais e, sem o consentimento do diretor, não hesitaram em amputar a película, cuja versão distribuída contém apenas uma hora e 20 minutos de projeção. Como se não bastasse, decidiram também que a narração não estava clara e acrescentaram uma voz em over, retirada do texto original, que, superposta às imagens, vai explicando ao espectador o que se passa no espírito do protagonista, esse jovem obrigado a enfrentar os horrores de uma guerra civil.

Assistindo ao filme se percebe facilmente os prejuízos causados por essa amputação (de cenas) e prótese (de narração oral), e não admira que Huston tenha renegado o resultado, como se o filme não fosse de sua autoria. Em certos momentos da estória sente-se a incongruência entre planos, antes ligados por algum fragmento, agora cortado pela tesoura da produção. E a voz over parece, o tempo inteiro, redundante e inútil, simplesmente porque as imagens do jeito que Huston as filmou já dizem tudo.

De autoria da jornalista Lillian Ross, o livro sobre as filmagens de A glória de um covarde se chamou, nos Estados Unidos, “Picture” (filme), mas no Brasil a Editora Agir, traduzindo-o como “cinema”, incluiu outros textos da autora e publicou tudo junto com o título de Cinema e outras reportagens (1977).

Lendo o volumoso ensaio de Ross, o leitor acompanha de perto o mestre Huston, desde o momento em que decidiu adaptar para a tela o famoso romance do escritor Stephen Crane, um clássico do realismo americano, até a repercussão que o filme teve junto à crítica, isso passando por todos os incidentes das filmagens, aí incluídas, naturalmente, as ingerências malsãs da equipe de produção da MGM, nas pessoas de Louis B. Mayer, Gottfried Reinhardt e Dore Schary.

Num tempo em que o termo “making of” nem estava na moda, o livro-ensaio descreve, literalmente, todos os aspectos da filmagem, dos mais simplórios, como o fornecimento de transporte e alimentação para a equipe, aos mais artisticamente decisivos, como a escolha de um enquadramento, ou os conselhos ao elenco para a interpretação de dada cena, ou as discussões em torno de como iluminar o cenário para conseguir o efeito desejado.

Candidatos a cineastas podem entender o livro como uma lição sobre o fazer cinematográfico, mas, para nós outros, mais que isso, ele ilustra exemplarmente as dificuldades de se realizar cinema dentro do fechado sistema de estúdios hollywoodiano.

Pois apesar de todos os pesares, ver A glória de um covarde é um exercício de prazer, e mesmo da forma em que está, ainda se constata a genialidade da mise-en-scène. Fiel ao romance de Crane, conta a estória da Guerra de Secessão na perspectiva desse jovem que, posto diante do perigo nos campos de batalha, primeiro se acovarda e foge, e depois, retorna à linha de frente para ser um herói. Mais sobre o medo de sentir medo que qualquer outra coisa, o filme é de uma densidade psicológica e de um lirismo dramático nada habitual nos filmes de guerra da época, quase todos sobre patrióticas vitórias americanas na segunda guerra mundial.

Fotografia, música e interpretação se juntam para um efeito inesquecível. A crítica tem apontado a semelhança, na composição dos planos (iluminação de Harold Rosson), com os quadros sobre a guerra civil do pintor Matthew Brady, e a música, de Bronislav Kaper, faz o comentário certo dessa atmosfera de explosões, tropas e fumaças, toda filmada no Vale de San Fernando, o mesmo onde o grande Griffith rodara as suas batalhas de Nascimento de uma nação (1915).

A respeito das interpretações, quem impressiona é esse jovem Audie Murphy, excelente no difícil papel do soldado dividido entre medo e coragem. Um ator até então pouco conhecido, mais famoso por ter sido na vida real “o soldado americano mais condecorado na segunda guerra”, Murphy foi, contra os desígnios dos estúdios (que queriam um nome famoso) escolhido pessoalmente por Huston, que teve pelo menos esta pequena “vitória” sobre o sistema com que lutava.

A par dos problemas da produção, a crítica americana, e depois a internacional, soube — ainda bem — separar o joio do trigo: elogiou a realização de Huston e lamentou a interferência dos estúdios. Ainda hoje a fortuna crítica do filme o trata como uma obra prima estragada, um exemplo extremo de conflito entre estreiteza de visão comercial e espírito criativo. Em suma, se o estrago feito no filme de Huston foi porventura uma “covardia” da produção, de todo jeito nele subsiste alguma “glória”.

Com relação ao acesso ao filme, é engraçado notar que praticamente toda a filmografia de Huston (de Relíquia macabra a Os vivos e os mortos, seu primeiro e seu último filme) foi selada em VHS, com exceção justamente de A glória de um covarde que, agora, por sua vez, sai em DVD, me parece que, por enquanto, o único título do diretor selado nessa nova fonte.

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