Um filme que vi com Bachelard

25 set

Neste 2004 está completando cinqüenta anos o filme que deu a Federico Fellini (1920-1991) o primeiro Oscar e o reconhecimento internacional como um dos maiores artistas do século. Refiro-me ao clássico, e belíssimo, A estrada da vida (La strada, 1954), por coincidência ou não, agora disponível em DVD.

Aclamado mundialmente como um gênio, Fellini também foi criticado com este filme, no viés de alguns críticos de seu país, por fugir dos preceitos do Neo-realismo. Como se sabe, depois disso Fellini não faria outra coisa, senão fugir de preceitos.

Como um filme neo-realista, A estrada da vida descreve a dura e triste existência de pessoas pobres, gente do povo, sem instrução e sem futuro. A diferença começa com a profissão dessas pessoas, artistas de circo, quando se pensa na filmografia futura de Fellini, o primeiro sintoma do seu estilo mais pessoal, marcado pelo delírio lírico, fantasioso e metalingüístico.

A estória é conhecida. Artista ambulante, Zampano (Anthony Quinn) compra Gelsomina (Gilietta Masina) à sua pobre mãe, para ser sua ajudante e a “adestra” para o métier na base de chicotadas nas pernas. Como ele diz antes de leva-la: “Comigo até os cachorros aprendem”. O par faz espetáculos pelas ruas afora, Zampano quebrando correntes com os músculos do peito, e Gelsomina fazendo as vezes de palhaço, até que se juntam a um circo, onde um equilibrista conhecido por Il Matto (O Louco), é um destaque (Richard Basehart).

Amigo de Gelsomina, o Louco não resiste ao impulso de ridicularizar a força bruta de Zampano e o antagonismo incontido entre os dois termina em tragédia. Num encontro de estrada, Zampano espanca o Louco e o mata na presença de Gelsomina, que, depois disso, vai definhando até um estado de completa apatia, e, inútil para a profissão, é abandonada por Zampano. Perseguido pela culpa, mais tarde Zampano terá notícia da morte de Gelsomina e o filme se conclui com o personagem em prantos, estendido nas areias de uma praia deserta e escura.

Com mais de cinqüenta prêmios acumulados, o filme tem sido objeto de exegeses as mais diversas e a sua fortuna crítica tem apontado para o seu caráter simbólico, onde as metáforas sobre a condição humana o distanciam do mimetismo realista e o encaminham na direção da fantasia. Mencionado pela crítica americana Pauline Kael, um desses esforços exegéticos atribui à tríade dos protagonistas os estatutos simbólicos de corpo (Zampano), alma (Gelsomina) e mente (o Louco).

Sem negar essa possibilidade interpretativa, fico pensando se o simbolismo desses personagens não vai mais além do que sugere um quadro psicológico. Fico pensando se o seu fundo não seria fenomenológico, no sentido que dá à palavra um pensador do imaginário humano como Gaston Bachelard, especialmente o dos quatro elementos da Natureza.

Explico-me. A primeira vez que, no filme, vemos Gelsomina ela está na praia, diante do mar, de onde é arrancada para o seu triste fim. Depois do seu desaparecimento, o momento em que sua lembrança é invocada com mais força dramática, é de novo, diante do mar, na cena final, com Zampano chorando sua memória. Estas duas cenas, de abertura e fechamento da narrativa, já seriam suficientes para autorizar a associação da figura de Gelsomina ao elemento da água. Porém, há mais. Num certo ponto intermediário e importante da estória, o casal faz, em sua viagem pelo país, uma pausa para repouso e se detém justamente diante do mar, para o qual Gelsomina corre, eufórica, perguntando a um Zampano sempre indiferente em que direção fica a sua casa. Como o espectador deve lembrar, esse é um momento de reflexão, em que Gelsomina se aprofunda em si mesma, gritando ao seu companheiro que é preciso “pensar”.. Além disso, em várias ocasiões, no circo, ela aparece, de balde na mão, sempre carregando água.

Pela sua profissão de equilibrista que o mantém no espaço (mas também pela leveza de sua figura alada), o Louco estaria associado ao ar. É nas alturas que Gelsomina o avista pela primeira vez, fascinada, e é esse fascínio de “criatura dos ares” que ele vai exercer sobre ela e sobre nós. Por sua vez, Zampano, com toda a sua materialidade grosseira, não poderia ser outra coisa senão terra.

As relações entre água e ar podem ser viáveis (daí a simpatia mútua entre o Louco e Gelsomina), porém, terra e ar são elementos opostos e nesse sentido, Zampano e o Louco não poderiam jamais se conciliar. Terra e água também se opõem, e o relacionamento Zampano-Gelsomina estava, desde sempre, fadado ao infortúnio. Vejam como das lições de Zampano, Gelsomina quase nada lucra, ao passo que, com o Louco, intuitivamente aprende a tocar aquela comovente canção ao trompete, que ensaia para a doce freira, e que, depois de morta, será o derradeiro rastro de seu paradeiro para um Zampanho, estranha e precariamente, humanizado.

Numa cena chave, ainda no circo, quem, de forma prática, aponta, sem consciência do que faz, para esse antagonismo é o próprio Louco, que joga sobre Zampano um balde de água, como a, ironicamente, lançar sobre a dureza de seu estado rude, a fragilidade líquida que é própria de sua companheira, Gelsomina. “Não sei porque, toda vez que o vejo sinto vontade de sacanea-lo”, diz O louco sobre Zampano, e essa incapacidade de compreender, em termos bachelardianos, é fundamental, pois pertence ao nível do imaginário, e não da razão. Nesse aspecto a cena final, já referida, é reveladora: o máximo que Zampano consegue se aproximar (leia-se entender) da qualidade aquática de Gelsomina seria através das lágrimas, por sinal, agora inúteis.

Naquela longa seqüência entre o Louco e Gelsomina, é com a sua metáfora da pedra que ele propicia nela uma espécie de “epifania” que a faz, momentaneamente, aceitar Zampano. Vejam bem, embora o Louco fale da pedra à propósito de Gelsomina, esta, como nós, entende que Zampano é a pedra que precisa dela para continuar existindo, acrescentaríamos, como na prática, a terra precisaria de seu oposto, a água.

Noutra ocasião Gelsomina afirmaria que “qualquer dia desses vou tocar fogo em tudo e ir embora” e como há entre os dois personagens uma fogueira, o espectador fenomenológico pode querer ir atrás do quarto elemento da quaderna bachelardiana (terra, água, ar e fogo), mas, não creio que isso seja necessário. A inexistência de um personagem que encarne o fogo não torna o filme uma narrativa incompleta. A estrada da vida é uma fábula triádica, e isto lhe dá o equilíbrio estético que necessita para ser o que é: uma obra de arte.

 

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