Quando a lenda atira primeiro

24 nov

O senador Ranson Stoddard chega, com a esposa, à pequena cidade de Shinbone para o enterro de um homem. Alvoroçada, a imprensa local quer saber quem é esse homem, um desconhecido. A estória que Ranson conta passa a ser, em flashback, o filme a que se assiste: o morto, e não ele, foi o herói que, muitos anos atrás, em duelo atirou no bandido Liberty Valence e livrou a cidade de um mal. Ouvida a estória, o diretor do jornal conclui, peremptório: “quando a lenda supera o fato, imprima-se a lenda”, e Ranson parte com a mesma fama de sempre, a de ter sido “o homem que matou o facínora” (John Ford, 1962).

Como a própria lenda, a frase do diretor do jornal ganhou foros de imortalidade e entrou para a história como uma das mais famosas falas do cinema. Não apenas por ser efetiva no contexto dramático do filme, mas principalmente, por resumir a situação do gênero a que pertence, o western.

Foi certamente essa primazia do imaginário sobre a realidade que fez o professor e crítico de cinema A. C. Gomes de Mattos intitular, com muita felicidade, o seu livro sobre o gênero de Publique-se a lenda: a história do western (Rocco, 2004).

O que não impede que o livro comece com os fatos, para só depois tratar da lenda. É curioso saber, por exemplo, que os grandes heróis do gênero, como Jesse James e outros, foram, na vida real, figuras vis. As grandes batalhas entre brancos e índios eram improváveis, já que estes últimos sempre preferiam os pequenos ataques, no estilo guerrilha. Os soldados da cavalaria tinham pouco de heróicos e o exército foi marcado por deserções e outros crimes. As doenças, a fome e a solidão mataram mais colonos que os índios ou os malfeitores. Etc, etc, etc…

Se assim foi, como nasceu o mito? Entre outras fontes, de toda uma vasta subliteratura, cujos autores Gomes de Mattos tem o cuidado de citar: Max Brand, Zane Grey, Rex Beach, e tantos outros.

Na configuração desse mito estaria uma dicotomia fundante, que Gomes de Mattos resume nos termos civilização e selvageria. Assim, quase todos os roteiros dos westerns conhecidos poderiam ser, de alguma maneira, reduzidos à um conflito básico entre esses dois elementos, conflito que também determina a caracterização do protagonista, uma espécie de representante da “civilização”, ao mesmo tempo com traços da “selvageria” (a rapidez no gatilho, por exemplo), sem a qual não lhe seria possível vencer os “selvagens” que combate.

De fato, este paradoxo (potência selvagem versus intenção civilizatória) está no perfil dos grandes personagens que a gente lembra dos grandes faroestes da vida, inclusive, de modo prototípico, no “homem que (realmente) matou o facínora”, o Tom Doniphon  de filme de Ford, feito não sem coincidência por John Wayne.

Depois dessa instrutiva introdução, o autor discorre sobre a outra “história”, que é a história cinematográfica do gênero propriamente dita, fazendo-o em ordem cronológica, de modo a recobrir o século.

Inicialmente, vêm “os primeiros filmes, grandes cowboys” (sic), fase que começa com os precários pioneiros da era muda, passa pelos muitos filmes B dos anos trinta, até chegar a uma espécie de apoteose, que é o Stagecoach de John Ford (No tempo das diligências, 1939), película que resumiria os elementos até então utilizados e lhes daria estatuto de obra de arte.

A segunda fase seria a do “apogeu do western clássico” nos anos quarenta, da qual My darling Clementine (Paixões dos fortes, 1944, também de Ford) seria um avatar. A terceira vai tratar do “superwestern” aquele tipo de filme que, nos anos cinqüenta, sofisticou o gênero com um aprofundamento psicológico e uma remissão metalingüística a sua própria codificação, dos quais os exemplos mais ostensivos seriam High Noon (Matar ou morrer, 1952, de Fred Zinnemann) e Shane (Os brutos também amam, 1953, de George Stevens). Depois disso o autor comenta os caminhos do gênero nos anos sessenta, especialmente a influência que sofreu do western spaghetti, e conclui com um rápido estudo do “novo western”, as raras manifestações do gênero surgidas nas décadas de setenta, oitenta e noventa, fechando com comentários de duas películas do mesmo ano, 1992, Dança com Lobos e Os imperdoáveis.

Em cada uma dessas fases estudadas, o autor menciona um número considerável de filmes, escolhendo alguns para uma análise mais detalhada. Geralmente essas análises consistem de uma sinopse do enredo, com comentários sobre linguagem, técnica, temas, estilo, época, diretor e alguma circunstância de filmagem ou de recepção. Grosso modo os filmes escolhidos para a análise o são pela representatividade dentro de sua fase, porém, em alguns casos, é interessante a recuperação que se faz de filmes praticamente esquecidos, como Consciências mortas (The Ox-bow incident, 1943, de William Wellman), O proscrito (The outlaw, 1943, de Howard Hughes), A árvore dos inforcados (The hanging tree, 1959, de Delmer Daves, ou Pistoleiros do entardecer (Ride the high country, 1962, de Sam Peckimpah).

No total são 229 títulos analisados ou pelo menos referidos, sem contar uma ampla filmografia que abrange metade do livro: 109 das 220 páginas.

O livro de Gomes de Mattos sai, na verdade, com um ligeiro atraso (um ano) em relação ao centenário desse gênero cinematográfico, já que o primeiro western registrado em arquivos seria o The great train robbery, de Edwin S. Porter, de 1903, mas, em compensação promete se impor, no Brasil, como um livro de consulta indispensável ao estudioso de cinema.

Para muitos, o faroeste, que já foi chamado de “o cinema americano por excelência”, seria um gênero morto. Gomes de Mattos prefere não se pronunciar sobre o assunto e seu livro, onde a referência mais recente chega ao ano de 1999 (Cavalgada com o diabo de Ang Lee), não põe nenhum ponto final na história do gênero. Ainda bem.

Para voltar ao ponto inicial desta matéria e central do livro comentado: entre as inverdades históricas e verdades míticas do western está aquela paradigmática cena em que, numa rua deserta, os dois pistoleiros se enfrentam em duelo, vencendo o mais rápido no gatilho.

Já no duelo entre fato e lenda, aquele que formou o gênero western, não há dúvidas de que foi a lenda que sacou primeiro.

 

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