Alexandre sem grandeza

17 jan

Saindo de um cinema da cidade, esta semana, lembrei-me da grande crítica americana Pauline Kael, recentemente falecida. Ao aposentar-se, foi entrevistada pela imprensa e saiu-se com esta: “sim, vou sentir falta de escrever sobre cinema, mas em compensação, estou feliz de nunca mais ter que ver um filme de Oliver Stone”.

Mesmo não sendo tão radicalmente anti-Stone, depois de assistir a este longo, dispendioso, pouco inspirado e cansativo Alexandre (Oliver Stone, 2004), que está em cartaz, a gente entende, e mesmo aceita, o que Kael quis dizer, e disse.

Com efeito, acho que Oliver Stone (de Platoon, Nascido em 4 de julho, JFK e Assassinos por natureza, Nixon) representa bem o que se critica na Hollywood pasterurizada da atualidade, aquela que dá Oscars a si mesma. Ele é aquele tipo de cineasta que, sem grande fôlego criativo, termina aparecendo no cenário mundial, não tanto pela qualidade, mas porque está sempre cheio de disposição e ousadia (e eventualmente, de dinheiro) para rodar filmes que conquistem as platéias na base do choque, seja temático, seja gráfico, ou de preferência os dois juntos.

A estória do grande rei macedônio que conquistou 90% do mundo aos vinte e cinco anos de idade é suficientemente conhecida de todos e tem, em si mesma, estufa épica para encantar. O que renderia nas mãos de um Scorsese, de um Coppola ou de um Altman (para citar o lado louvável dessa mesma Hollywood moderna!), ninguém sabe… Agora, nas mãos de Stone a gente calcula antes de ver o filme e acerta, porque, não é que os seus filmes sejam necessariamente previsíveis em si: é que o seu estilo – se há um — o é.

Em Platoon, toda a estória do soldado americano em luta no território vietnamita vem à tona a partir de cartas que ele envia a avó e, inverossimilmente, lê e escreve em voz alta. Aqui, similarmente, a estória de Alexandre, da infância à morte, aos trinta e dois anos, nos é transmitida pela voz do professor Ptolomeu que, entre as suntuosas paredes da Biblioteca de Alexandria, a dita a seus pupilos, que anotam tudo. Isto sem contar que o mesmo esquema de cartas lidas em voz alta entre Alexandre e sua mãe, Olímpia, é retomado em certo trecho da narrativa.

A grandiosidade das batalhas era um dos elementos esperados – aliás, fosse quem fosse o cineasta — e talvez a beleza plástica das cenas na guerra com a Índia, entre elefantes, árvores milenares e cavalos, seja o melhor que o filme tem a oferecer, o lado mais positivamente pessoal do estilo Stone. O duelo dos reis, macedônio e indiano, com a queda daquele primeiro, — ponto a partir do qual passa-se a ver tudo escarlate —  é realmente um bom momento de cinema.

A cena que mostra o ainda jovem Alexandre domando Bucéfalo, o selvagem cavalo negro, deveria ser importante para definir um padrão tático no comportamento do grande conquistador, a saber, o de mesclar delicadeza com força, como ele viria a fazer, mais tarde, subjugando os povos estrangeiros, não apenas com armas, mas também com uma proposta de miscigenação racial e cultural. Tal padrão militar não encontra, contudo, um correspondente psicológico convincente, e o filme todo, enquanto narrativa, resulta confuso e sem unidade.

Ainda que, ao mesmo tempo, convencional. O espectador pode se indagar, por exemplo, por que a morte de Filipe, o pai do herói, só é encenada em flashback. Não há outra razão aparente para isso, salvo a consciência autoral de que linearidade da narração, que segue a biografia do personagem como uma aula de história, precisa ser quebrada com algum artifício, porventura mais efetivo do que a onisciente e didática voz over de Ptolomeu.

Um breve momento de quebra desse didatismo ocorre perto do desenlace, quando o idoso Ptolomeu, ao invés de elogiar, de repente tem um surto e passa a denegrir a imagem de Alexandre, alegando que seguir um grande sonhador é extremamente cansativo (Engraçado, tive a ilusão de que ele se referia ao filme!). Mas logo o mestre se recompõe e manda os pupilos apagar essa parte do ditado.

Com sua peruca encaracolada e seu sotaque irlandês o ator Colin Farrell (de Por um fio) nos dá um Alexandre sem carne nem osso e só grandioso por tabela, digo, na medida em que já o sabemos grandioso dos livros de História.

Um elemento chave na caracterização do personagem histórico está na sua conhecida bissexualidade, que Stone – com a desculpa de que segue as fontes biográficas consultadas – explora com relativa ênfase, o que me conduz a um pequeno problema de recepção.

Na sessão em que vi o filme era possível notar como as declarações de amor entre Alexandre e seu amigo de toda a vida, Hefestion, incomodavam a maior parte de espectadores, que reagiam com risadas irônicas, como se o seu heroísmo não desse certo com este lado supostamente efeminado de sua personalidade.

Fico pensando se os produtores de filmes que tratam de uma época pré-cristã não deveriam adicionar um aviso sobre a vida sexual da época, esclarecendo que a homossexualidade não era vista como hoje. De fato, as risadas dos espectadores indicam uma atitude anacrônica, que diminui a grandeza moral do personagem, um erro de leitura tão crasso quanto fazer o contrário: incrementar essa grandeza por causa dessa homossexualidade.

Lamentavelmente, o grande herói macedônio não tem tido sorte no cinema. A versão “antiga” de sua vida e façanhas, o clássico Alexandre Magno (Alexander the great, 1956), de Robert Rossen, com Richard Burton no papel-título, também não é um filme admirável. Com excesso de diálogos e uma narração irritantemente pausada, não conseguiu subsistir ao julgamento do tempo, embora na época de sua estréia tenha causado certa comoção. A rigor, creio que um filme tão chato quanto o Alexandre de Oliver Stone.

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