Argumentos a filmar

23 jan

Não lembro o nome da igreja, mas ela está situada em algum ponto da zona rural da comarca de Santa Rita, a poucos quilômetros de João Pessoa. Trata-se de uma igreja de sítio, sem nada de especial, salvo uma certa marca gráfica no seu pátio frontal. Quem a visita pode ver, ainda hoje, formada de linhas em baixo relevo, bem visíveis apesar do trabalho do tempo, a figura geométrica de um grande retângulo, isso bem na parte central do pátio, não muito distante da porta, de tal modo que, para adentrar o prédio, é quase inevitável passar por cima desse misterioso retângulo.

A estória desse retângulo desenhado no pátio dessa igreja de sítio quem me contou foi um amigo, hoje falecido e cujo nome prefiro não referir.

Tudo teria acontecido no início do século, quando as usinas ainda não haviam substituído os velhos engenhos de açúcar da região. Na época, a igreja, como tudo mais em torno, pertencia a esse poderoso senhor de engenho, daquele tipo que a gente conhece dos livros de José Lins, só que, se um pouco menos poderoso, muito mais autoritário.

Pois um dia a casa grande do engenho recebe a visita desse jovem mascate italiano, vendendo suas mercadorias, roupas e jóias em moda nas grandes capitais do país. Embora os membros da casa grande fossem poucos, no caso, o senhor de engenho, sua esposa, e uma única filha de dezoito anos de idade, o mascate vira freguês da família, que passa a freqüentar com certa regularidade, e depois, até com certa intimidade.

Acontece que uma amizade vai surgindo entre o belo mascate e a moça e, quando menos se espera, a amizade já tinha virado paixão. Temendo a reação do marido, a mãe da moça esconde o caso o quanto pode, mas, o pessoal do eito via tudo e a notícia termina chegando ao dono da casa. Ao tomar conhecimento, o velho rechaça o mascate e, peremptoriamente, lhe proíbe de, a partir daquela data, pisar em suas terras, e à filha, de pôr os pés fora de casa.

Um belo dia, cadê a moça? Tinha fugido com o mascate e – os empregados do engenho testemunhavam – fora, de trouxa feita, encontrar o rapaz numa encruzilhada da estrada e agora já deviam estar a muitas léguas de distância, mato adentro.

Sem hesitar, o velho dá suas ordens: três capangas bem armados partem no encalço do casal fujão, com missão inequívoca. De noite, no meio do mato, o rapaz é morto a tiros, na frente da moça, que, desfalecida de dor, é trazida para casa. Dizem que lá mesmo, no mato, o rapaz foi enterrado com suas bugigangas e tudo mais.

A partir daí, a moça vai viver presa num aposento do casarão, sem direito de ver a luz do dia. A medida era um prolongamento do castigo, mas quem foi que disse que a moça queria ver a luz do sol, ou qualquer outra luz? Quem lhe leva a subsistência é a mãe, uma comida em que ela nem toca, uma água que ela não bebe. Condoída, mas sem voz para mudar o rumo das coisas, a mulher acompanha o definhamento da filha, a qual, não resiste por muito tempo à inanição e à tristeza e vem a falecer.

Não muito tempo após a morte da filha, a mulher começa a apresentar sintomas de debilidade psíquica: é mandada para um hospital em Recife onde, logo logo, termina falecendo também.

Sozinho no seu casarão, o senhor de engenho sobrevive até a velhice, ninguém sabe como, pois, com o tempo, vai ficando cada vez mais silencioso, cada vez mais imóvel, cada vez mais invisível. Ao falecer, encontram o testamento: queria ser enterrado no pátio da Igreja, e que nesse pátio se desenhasse um retângulo, indicando o local onde seu corpo estava sepultado. Arrependido do que fizera com a filha, o velho senhor de engenho queria pagar seus pecados: queria que os habitantes do povoado que fossem à missa na igreja passassem por cima de seu túmulo e o humilhassem com os pés.

A ironia é que, depois do corpo enterrado, a população do lugar, conhecedora da estória, recusa-se a pisar no retângulo tumular e, todos sem exceção, desviando-o, entram e saem da igreja sem atender ao pedido do morto. Essa prática de desviar o túmulo do velho terminou por virar tradição, que os mais idosos ensinaram aos mais novos e estes a seus descendentes.

Hoje a prática está esquecida, e, no entanto, para ser desviada ou pisada, a figura trágica do retângulo tumular continua lá.

O amigo que me contou, que deus o tenha, jurava que a estória é rigorosamente verídica e que pode ser confirmada por habitantes mais idosos da região. A mim, me chamou a atenção o fato de que contém todos os ingredientes de um belo argumento cinematográfico, desses prontos para virar roteiro, e em seguida, filme.

Imagino até como esse filme começaria.

Muito tempo após a morte do senhor de engenho, um menino qualquer do lugarejo vai à missa com a mãe. Sobe os batentes do pátio e, sem saber de nada, dá passos em direção ao tal retângulo. Notando isso, a mãe o puxa bruscamente pelo braço e o previne de que nunca pisasse no cimento dentro daquela figura geométrica. O menino pergunta por que, e ela responde apenas que ninguém no povoado o faz, que é assim e que assim deve ser.

Curioso, o menino volta da igreja com a proibição na cabeça. Procura a explicação entre amigos e parentes, e ninguém o ajuda, até que se lembra da avó, com quem tem afinidades especiais. E claro, é a voz trêmula e frágil dessa avó generosa quem vai narrar – a ele e a nós – a estória completa do começo ao fim.

Encerrada a longa narração, a cujos detalhes dolorosos teremos todos os acessos pelo olho realista da câmera, o filme poderia muito bem terminar em um retorno ao presente, com o menino se dirigindo, sozinho, ao pátio da igreja e, num gesto ambíguo entre malvadez e piedade, passando por cima do fatídico retângulo. Fim.

Em tempo: esta matéria é dedicada aos amigos Maria Ângela Wanderley e Evandro Nóbrega que não me deixam mentir, pois, na mesma ocasião e da mesma fonte, ouviram comigo a estória aqui reproduzida.

 

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Uma resposta to “Argumentos a filmar”

  1. Glória dezembro 1, 2011 às 7:31 am #

    Seu argumento é quase um roteiro. Se eu fosse cineasta, pegaria ele agorinha mesmo e já faria o filme. A estória é trágica, bela, comovente. Imagine só, se fiquei tão tocada quando a escutei diretamente de você, agora lendo o artigo, fiquei arrepiada e muito mais emocionada.

    Alô, cineastas paraibanos ou não, talentosos sim e sim (nesse caso não cabe talentosos ou não), pensem com carinho. Sei que a intenção de João nunca foi pretender que um argumento seu virasse filme. Mas eu bem gostaria que virasse.

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