Encontrando Peter Pan

21 fev

Na Londres do início do século XX, o aristocrático dramaturgo Sir James Matthew Barrie (1860-1937) podia fazer o tipo de teatro que bem entendesse. O seu produtor encenaria suas peças, para as quais sempre havia um público de boa vontade, disposto a pagar ingresso. O problema é que ele mesmo, em crise de criação, andava insatisfeito com seu trabalho e, reflexo disso, sua última peça havia sido um fracasso.

A esse fracasso profissional correspondia um outro, de ordem privada: morno havia anos, seu casamento baixava de temperatura a cada dia. Dormindo em quartos separados, ele e a esposa mal tinham o que conversar, e a ausência de filhos parecia complicar a situação.

Foi quando Barrie, num banco de praça, conheceu por acaso esse menino, de nome Peter, que, estranhamente e contra todas as probabilidades, veio a lhe servir de inspiração para a concepção de um novo personagem, que mudaria o rumo de sua carreira e marcaria sua obra dramática para sempre.

Com o pai morto, a mãe doente, ele e os irmãos passando necessidade, Peter Davis não via razão alguma para acreditar em sonhos e preferia ater-se ao real. Não adiantava esse dramaturgo meio dândi e cheio de invenções imaginosas fazer o seu cachorro dançar na grama e se passar por um urso adestrado. Um cachorro não podia ser um urso, e, como ele diria mais tarde, numa ocasião sintomática, à mãe enferma: “uma peça de teatro é só uma peça de teatro”.

Pois foi a partir desse menino adultizado pelas circunstâncias da vida, que Barrie bolou o contrário disso, o seu Peter Pan, o menino que não queria crescer, dando exatamente este título a sua nova peça “Peter Pan, the boy who would not grow up”.

Em cartaz entre nós, o filme Em busca da terra do nunca (Finding Neverland, 2004, de Marc Foster) assume a difícil tarefa de narrar o modo como a problemática convivência de Barrie (Johnny Depp) com a família da viúva Silvia L. Davis (Kate Winslett) gerou a confecção da peça.

Naturalmente, a puritana sociedade da época não podia compreender o que um homem casado e uma viúva com três filhos faziam juntos, às vezes isolados do mundo numa casa de campo durantes dias. Mas a incompreensão não era só da sociedade: esquecida, a esposa do escritor acabou se interessante por outrem, e a austera avó das crianças, concluindo que havia algo de imoral nessa situação, decide tomar as rédeas da família. O próprio Barrie não se compreende e, no entanto, a revelia de si, envolve-se cada vez mais, ao ponto de o seu poder criativo ficar dependente do contato com os Davis.

Intercalando cenas reais, com cenas imaginárias, e ainda com encenações da peça durante os ensaios e na estréia, o filme constitui uma bela ilustração das dificuldades de criar e de como os percalços da existência podem ser, miraculosamente, transformados em arte. Trata-se, sim, de uma espécie de making of da famosa peça de Barrie, porém, o interesse que desperta não é apenas de ordem histórica, ou biográfica, mas fundamentalmente humana.

Para o espectador é curioso acompanhar (ou seria o caso de se dizer, adivinhar) como os traços realistas na personalidade do pequeno Peter Davis vão encaminhando o adulto Barrie a conceber a figura desse menino sonhador que, no meio de aventuras fantásticas com peles vermelhas e piratas, prefere não crescer porque desaprova o mundo dos adultos. Ao mesmo tempo o espectador também acompanha as transformações no próprio Peter real, que, um pouco antes do desenlace, vence todas as barreiras contra a pulsão de sonhar e, depois da estréia da peça, admite para o seu autor que ela, a peça, é (palavra sua) “mágica”. E quando um dos adultos que assistira ao espetáculo, ouvindo seu nome, lhe pergunta se é ele o Peter Pan, ele corrige imediatamente, apontando para Barrie.

A cena final, com Barrie e Peter sentados no mesmo banco em que se conheceram, falando de morte e imaginação, até suas silhuetas desaparecerem da paisagem, é um bem sacado e efetivo comentário sobre o temário, no caso, da peça e do filme a que se assiste. Equivalente a esta cena, somente aquela outra em que, perante uma Silvia moribunda (a mãe do menino) se descortina a fantástica Terra do Nunca (conferir título original: Finding NeverLand: “encontrando a terra do nunca’), isto através de um traveling que termina no cemitério.

O elenco está excelente e poucas vezes se mostrou tão sutil e inexplícito caso de amor entre um homem (Depp) e uma mulher (Winslett) que jamais se tocam, ou tocam no assunto, e que, nem por isso, se amam menos. A veterana e um dia bela Julie Christie faz  muito bem a antipática Emma du Maurier que as crianças – e o espectador — detestam. Radha Mitchell encarna a esposa que termina entendendo o quanto essa família de pobretões “enriqueceu” o marido, e o garoto Freddie Highmore desempenha um Peter convincente e cativante. Numa ponta, como o empresário de Barrie, está o grande Dustin Hoffman que — o espectador lembra — foi um dia o Capitão Gancho num filme de Steven Spielberg sobre Peter Pan, infelizmente um filme não muito bem sucedido.

Sir James Matthew Barrie foi contemporâneo de um outro escritor inglês que também trabalhou com temas infanto-juvenis, o prestigiado Lewis Carroll (1832-1898), autor de Alice no país das maravilhas. Menos sentimental e mais filosófico que Barrie, Carroll deixou uma obra que ainda hoje fascina críticos, intelectuais e pensadores.

O próprio Barrie nunca quis se comparar a Carroll, mas talvez lhe agradasse saber que sua obra, se tem menos prestígio crítico que a de seu contemporâneo, continua, ainda hoje, fascinando crianças de todo o mundo, as que não querem e as que querem crescer.

 

 

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