Das páginas de um diário alheio

4 abr

Coisa penosa é reforma em casa velha, mas bem que pode ter as suas compensações. Uma delas pode ser a descoberta de relíquias impensadas. Foi o caso, semanas atrás, quando achei esta preciosidade que tenho nas mãos agora, o diário de uma tia afim, antiga professora primária num colégio do bairro de Tambiá, recentemente falecida, cujo imóvel, numa rua daquele bairro, foi vendido, e por isso, devastado pelos familiares.

Apagando os dados mais íntimos, desse diário transcrevo abaixo uma determinada página, que aqui nos interessa por tratar de cinema e por ter sido escrita há exatamente meio século (conferir referência curiosa, no final, ao ano em que estamos!). Notem que todos os filmes comentados são do ano de 1954 e considerem como o conjunto dessas anotações, pessoais e despretensiosas, pode ser fonte para um estudo sobre recepção cinematográfica, especialmente sobre Hollywood clássica e seu efeito no Brasil. Esperando que minha tia, onde estiver, possa me perdoar, eis o texto, que reproduzo sem aspas.

Hoje, dia 28 de dezembro de 1954, uma terça-feira, aproveito as férias para passar a limpo as anotações dos filmes que vi este ano. São tantos que nem sei por onde começar. Se fosse para cumprir o que prometi a mim mesma, devia reescrevê-los em ordem alfabética, mas não me animo a tanto, nem as tarefas domésticas me permitem esse luxo. Vou apenas comentar os que mais me tocaram.

Não gostei muito de Sindicato de ladrões, apesar da presença de Marlon Brando. Tem política sindical demais para o meu gosto. Meu marido é que adorou e depois que o vimos passou um tempão falando na briga em que Marlon vence a turma de Lee J. Cobb.

Uma divergência entre nós dois é de gênero. Eu não gosto muito de faroeste e meu marido não gosta muito de musical. Se bem que os faroestes que vi este ano até que foram interessantes. Ele adorou as aventuras mexicanas de Burt Lancaster e Gary Cooper em Vera Cruz, mas eu prefiro O rio das almas perdidas, que pelo menos tem algum romance entre Marilyn Monroe e o durão Robert Mitchum.

Agora, Johnny Guitar é realmente muito esquisito, até meu marido achou. Nunca tinha visto um faroeste em que os grandes rivais fossem mulheres e em que todos os maus se vestissem de preto e os bons, de branco. De todo jeito, Joan Crawford continua linda, quase tanto quanto a foto que tenho dela no meu álbum de artistas.

Delícia de ver mesmo foi Música e lágrimas, contando a vida de Glenn Miller (James Stewart). Meu marido estava viajando e, como minhas filhas tinham prova, fui ao cinema com a minha vizinha, Carmem, e vimos as duas sessões seguidas. Não confesso a todo mundo, mas me animo mais para dançar quando toca Glenn Miller do que quando toca Vassourinha. Acho que tem alguma coisa errada comigo.

Outro filme sobre música foi Nasce uma estrela, onde a incomparável Judy Garland – para mim, sempre a menina de O mágico de Oz – é uma cantora que sobe na vida enquanto o seu companheiro (o charmoso James Mason) desce. O fim é triste, mas vale a pena. Depois fui com minhas filhas, que, sem idade para entender o drama, acho, não gostaram tanto.

Musical mesmo foi Corações enamorados, com Frank Sinatra e Doris Day, e Natal branco, que não é um grande filme, mas já paga aquela cena em que Bing Crosby canta, no piano, a música, belíssima, do título. Meu marido, de volta da viagem, detestou e jurou não ver mais musicais pelo resto da vida.

Fomos todos, a família completa, ver Sabrina e amamos a figura suave e elegante de Audrey Hepburn, que de filha de motorista não tem nada e mais parece uma princesa (!), agora disputando, sortuda, dois galãs, Humphrey Bogart e William Holden. Minhas filhas queriam ir de novo, mas meu marido alegou que era melhor economizar para o próximo fim de semana.

O filme da semana seguinte, A condessa descalça, era impróprio até 18 anos e as meninas tiveram que se conformar, coitadas, em ficar em casa. Ava Gardner, Humphrey Bogart e Rossano Brazzi são três dos meus favoritos, mas não gostei muito desse filme negativo, pessimista, onde tudo termina mal. Acho que é um filme bem feito, porém, não veria de novo.

Bem mais reconfortante é o papel do meu Rossano em A fonte dos desejos, que quase perdia, não fosse o alerta de uma colega de trabalho, Janete, que também é fã. Assisti, depois das aulas, sozinha e culpada, na última sessão do último dia, uma segunda-feira, e até agora ainda ouço a canção que fala de moedas lançadas na Fontana di Trevi, em Roma. Saí do cinema debaixo de um toró e cheguei em casa toda molhada: encontrei uma bagunça, a janta por fazer e todo mundo de cara feia. Azar.

Outro que quase perdia, não fosse o aviso de minha vizinha, foi Sublime obsessão, realmente um filme sublime. Saí do cinema chorando e meu marido, querendo mangar de mim — ele pensa que não percebo — escondendo suas emoções. Levei mamãe no dia seguinte e até ela, que não lê as legendas, adorou. (Depois tive que contar a ela os detalhes da estória: Rock Hudson seguindo a carreira de médico somente para curar os olhos cegos de Jane Wyman).

Até agora não sei o que pensar de Janela indiscreta. (Tinha visto o trailer e não estava a fim de assassinatos, mas fui convencida por meu marido, que adora policiais). A estória é horrível e, no entanto, o filme é realmente muito divertido. Um homem mata a esposa de um modo horrendo e é descoberto por um vizinho seu, que, de perna engessada, vive espiando os outros de sua janela de fundos. Meu marido gostou tanto que foi ver de novo, acho que com os amigos dele, e fiquei em casa preparando as aulas da próxima semana.

Agora, me digam, existe algo mais maravilhoso do que Sete noivas para sete irmãos? De longe o melhor filme do ano! Saí do cinema me sentindo raptada, conquistada e amada, e tudo isso multiplicado por sete. Meu marido não gostou muito, porém, respeitou meu entusiasmo. (Para ele ir comigo, eu disse uma parte da verdade: que o filme é um faroeste, e escondi a outra parte: que é também um musical). Depois fui ver umas três ou quatro vezes mais, com Janete, depois com minhas irmãs, e fiquei sem dinheiro para ver outros filmes e nem liguei. Aproveito para anotar, querido diário: com toda a certeza, daqui a cinqüenta anos, no remoto ano de 2004, se ainda houver criatura humana sobre a face da terra, Sete noivas para sete irmãos vai continuar lembrado e amado.

Em tempo: esta matéria é dedicada à memória de Juventina Felício Vieira da Costa.

 

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