A triste figura de um filme (in)acabado

11 abr

Nada menos que vinte e nove é, ao longo da história do cinema, o número de adaptações cinematográficas registradas de Don Quixote (1605), sem contar aquelas cujos títulos não são homônimos, ou aquelas outras em que, o livro de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) serve apenas como inspiração.

E, no entanto, parece que a narrativa do “cavaleiro da triste figura”, cujo quarto centenário agora se comemora, não teve muita sorte nas telas. Da primeira versão, no remoto cinema mudo de 1902, até a última adaptação conhecida, não há, segundo a apreciação da crítica internacional, uma única que se sobressaia acima da média e se aproxime da grandeza do texto literário. Normalmente se citam as francesas, de Zecca (1905) e de Pabst (1933), a dinamarquesa de Lau Lauritzen (1926), ou a soviética de Grigori Konzintsev (1957), mas nada que possa ser dado como grandes obras.

Creio que do grande público a adaptação mais conhecida é a superprodução colorida e cinemascope do americano Arthur Hiller, O homem de La Mancha (The man of La Mancha, 1972), infelizmente tão fraco quanto os seus pares. Hiller, vocês lembram, tinha filmado um melodrama com trilha sonora bonita, contando um caso de amor com morte que teve boa resposta de bilheteria (Love Story, 1970) e, por isso, os produtores hollywoodianos acreditaram que ele teria cacife para pôr na tela a peça de Dale Wasserman que fora sucesso de palco ao “musicalizar” a narrativa de Cervantes. Contraram Peter O’Toole para ser Quixote e Sofia Loren para Dulcinéia e acharam que o bom resultado estivesse garantido. Não estava.

Uma pergunta que tem ocorrido aos comentadores de todas essas malfadadas adaptações é a seguinte: seria Don Quixote infilmável?

Bem, a pergunta parece fazer sentido quando se considera que sequer o maior gênio do cinema de todos os tempos e espaços, o insuperável Orson Welles (1915-1985) de Cidadão Kane, se deu bem no empreendimento.

A filmagem do livro de Cervantes era um velho sonho de Welles, que os tinha tantos. Numa época particularmente difícil para ele, década de cinqüenta, depois de ter sido praticamente banido de Hollywood, Welles, não se sabe como, conseguiu levantar uma certa grana para o projeto e começou a rodar em 1955, com o ator espanhol Francisco Reyguera no papel-título e um de seus atores preferidos, o magnífico Akim Tamiroff como Sancho Pança. Atolado entre outras mil atividades, foi pausadamente filmando o que podia e sempre adiando a finalização, até dela desistir, lá pelo final dos anos sessenta. E o seu Don Quixote terminou entrando, assim, para a lista de seus muitos filmes inacabados, exatamente seis, entre os quais está aquele famoso sobre o Brasil (É tudo verdade).

O copião de Don Quixote nunca foi publicizado e por muito tempo hibernou entre arquivos privados e cinematecas européias.

Foi então que, no começo dos anos 90, um cineasta espanhol sem muito prestígio, que fora assistente de Welles em Chimes at Midnight (1965), entre vários outros codinomes conhecido como Jesus Franco, resolveu assumir a responsabilidade de juntar o material filmado por Welles e editar uma versão unitária, no caso, distribuída com o título de “Don Quixote de Orson Welles” (1992), agora disponível em DVD.

Todo rodado em território espanhol, o filme conta a estória do heróico e sonhador Don Quixote e seu escudeiro fiel e bonachão Sancho Pança, aquele em seu cavalo Rocinante, este em seu pobre burrico, aquele no encalço e na defesa de sua bela e nobre Dulcinéia, este em busca de sua ilha, da qual será, conforme promessa de seu mestre, o feliz governador. Há batalhas contra moinhos de vento e tudo mais, porém, a fidelidade ao livro de Cervantes fica por aqui.

Na verdade, os fatos que decorrem na tela são coetâneos às filmagens, décadas de 1950 e 60. O espectador é, logo no início, disso informado quando o cavaleiro da triste figura e seu servo caminham por uma estrada e se deparam com uma moça dirigindo em velocidade o veículo que foi símbolo da época: uma lambreta. Naturalmente, Quixote vê na lambreta um monstro perigoso do qual tenta salvar a supostamente indefesa donzela, mas esta, também naturalmente, protesta contra esse velho maluco e o rechaça com palavrões nada corteses.

O mundo moderno, com seus automóveis e edifícios, vai tomando conta do universo ficcional do filme, e a partir do seu meio, quando Quixote e Pança se separam, o cenário vai ser quase completamente a paisagem citadina. Muitas dessas cenas são documentais, onde se mostram, surpreendentemente, as tradicionais corridas de touros e procissões pelas ruas de Madri, e, talvez mais surpreendentemente ainda, tudo termina em metalinguagem, com a presença gráfica do próprio Orson Welles dirigindo o filme.

O que Welles tinha em mente ao tentar fazer esse filme tão estranho ninguém sabe, e a montagem a que se assiste agora não ajuda em nada, pois o todo é pobre, desconexo, ridículo e sem sentido. Técnica e artisticamente falando, o filme é um desastre completo, e como se diria na língua em que ele é falado, “it stinks”: fede. Para se ter uma idéia da elementariedade dos problemas no filme: em muitos momentos, a voz dublada não corresponde aos gestos dos atores. Suponho que somente cinéfilos de carteirinha, estudiosos e historiadores do cinema o vêem com interesse: para o grande público, acompanhar suas quase duas horas de incongruência e precariedade deve ser literalmente insuportável.

Se é fato que o livro de Cervantes é uma paródia da novela de cavalaria, do filme em questão pode se dizer que ele é uma paródia de uma paródia, posição em princípio favorável, como se sabe, à arte da (pós)modernidade. Por que o resultado é pífio é que ninguém sabe. Alguns, como o crítico espanhol Juan Cobos, que conheceu o copião original, afirma que Welles foi traído pelo montador Jesus Franco. Outros chegam a duvidar do talento de Welles.

Triste figura de um filme (in)acabado, Don Quixote de Orson Welles, fica na História das Artes como a curiosidade que é, na – poderia muito bem se dizer — paradoxal categoria de “um dos piores filmes do mundo”, de (co)autoria do “maior cineasta do mundo”. Acredite se quiser.

 

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2 Respostas to “A triste figura de um filme (in)acabado”

  1. Thais Salvador janeiro 25, 2012 às 12:36 pm #

    Olá, li seu artigo e não sou muito de comentar nada em blogs masss, levando em consideração que atualmente escrevo um artigo sobre Don Quixote e suas adptações cinematográficas, resolvi escrever este breve mas necessário comentário. Bom, creio que foi um tanto quanto duro com a versão de Welles. Creio que esta adptação seja a que mais se aproxima da essência literária de Quixote. Apesar da sua infidelidade com a obra no que diz respeito a cenários, tempo, diálogos e etc., o filme apresenta de forma clara a metalinguística reflexiva proposta por Cervantes, um total parelelismo com o conceito de loucura e razão do livro e ainda apresenta a Espanha tradicional para os dias atuais, assim como Quixote o faz com suas novelas de cabaleria.
    Claro que o filme é difícil de ver,ficar acordado e etc, assim como Quixote também o é quando se ler na primeira vez, Mas depois da segunda, terceira, e assim vai.. fica clara a semehança entre os dois.
    Desculpe o longo comentário mas, não resisti. Parabéns pelo blog.

    • João Batista de Brito janeiro 25, 2012 às 5:37 pm #

      Thais, faz um tempão que li Dom Quixote e, com relação à semelhança entre livro e filme, admito que você pode estar certa… Em que pese as nossas discordâncias sobre a qualidade estética do filme, gostei muito do seu comentário. Quando for publicado o seu artigo, dê as indicações, para a gente ler.
      Aproveitando o que você pergunta sobre o filme de Eduardo Coutinho (comentado em “Músicas e lágrimas”), me admiro que não tenha chegado a Brasília, cidade com que o diretor tem, com certeza, toda uma ligação, especialmente por causa do Festival de Cinema Brasileiro…

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