Drummond para cinéfilos

7 jun

Não sei se é a minha mania por contrastes, mas, em literatura, por exemplo, algo que me chama a atenção no texto narrativo é a presença do elemento lírico, e, na poesia dita lírica, a eventual existência da narratividade.

Fiquemos com o caso da poesia, e, para ir direto ao que me interessa, tomemos o exemplo de um dos poemas mais conhecidos de Drummond, o “Quadrilha”, que aqui reproduzo. Comumente entendido como um texto lírico, vejam como nele é ostensiva a estruturação narrativa.

Na primeira estrofe você tem a apresentação de um catálogo de personagens, cada um – ou ao menos a maioria – marcado por uma propensão emotiva, a de amar a pessoa errada. Por enquanto, estaríamos no terreno da mera subjetividade, mas constatem como, na segunda estrofe, são-nos simetricamente fornecidos os paradeiros desses personagens, do modo mais inescapavelmente narrativo.

Ora, um dos encantos do poema está em, sendo narrativo como é, ser também lacunoso, digo, propositadamente incompleto. Quem são esses personagens e por que tiveram justamente tais paradeiros? Como saber?

 Pois, essas lacunas ficcionais que fazem o encanto do poema também me conduzem a outro território, não muito distante, o cinematográfico. Sim, de repente, o texto funciona como aquilo que os da área chamam de argumento. Prestem atenção em como os “cacos” de ficção em que ele consiste detêm um potencial de roteirização, permitindo ao leitor inventivo imaginar toda uma estória que una esses cacos num conjunto único, o filme.

A essa altura, peço licença ao meu leitor para, a partir daqui, sugerir a minha própria roteirização do poema, que vai parecer um tanto e quanto melodramática, porque, afinal de contas, é esse gênero, o melodrama, que o “argumento” demanda.

A estória toda poderia ser construída em ponto de vista onisciente, equivalente à “terceira pessoa” da câmera, mas, também se pode escolher um dos personagens a quem doar a focalização. Como Raimundo morreu de desastre e Joaquim suicidou-se, as opções de narrador ficariam entre João, Tereza, Maria e Lili. Talvez não seja rentável, na perspectiva do dramático, dar a focalização a Lili, que, pelo parâmetro do poema, fugia à regra do amor não correspondido e, além disso, foi a única a ter um suposto final feliz.

De minha parte, sugiro que se dê o foco narrativo a Maria, uma personagem dramaticamente promissora, já que foi apaixonada pelo suicida Joaquim e ficou celibatária. Imagino-a vinte ou trinta anos depois de tudo ocorrido, já de meia idade, relembrando a estória toda, desafortunada, solitária e amarga.

No meu filme, ela é agora uma professora do curso secundário, num colégio da cidade, rodeada de adolescentes sonhadoras como ela o fora um dia. Por causa de seu semblante sempre fechado, as alunas lhe doaram um apelido, digamos, “Maria amargura”.

É no dia em que, por acaso, entreouve o apelido nos corredores do colégio, que ela passa a reconstituir, de si para si, a estória de seu amor frustrado, estória que envolverá todos os personagens do poema e que nos será relatada, em flashback.

No retrospecto subjetivo de Maria somos transportados a essa cidadezinha do interior brasileiro dos anos vinte ou trinta, digamos, onde esse grupo de jovens amigos vive feliz e unido, João, Tereza, Raimundo, Maria, Joaquim, e Lili.

De início, nada há entre eles, salvo a amizade e a vontade de se divertir, porém, com o passar dos tempos, as paixões vão aflorando. A primeira a viver a experiência do amor é Maria, que aos poucos vai notando que, dentre os três amigos queridos, Joaquim representa mais para seu coração.

Insinua-se o tanto quanto sua timidez permite e terminam namorando. Quando o namoro está sério acontece a tragédia. Há semanas estranho, nervoso e calado, nesse dia Joaquim, em prantos, lhe revela a verdade: está perdidamente apaixonado pela amiga comum, Lili. O golpe é terrível para Maria, mas o pior ainda está por vir. Sendo rechaçado por Lili, Joaquim se mata. Era o que Maria gostaria de ter feito, sem ter tido a coragem para tanto. Outra coragem que não tem é a de ir ao enterro, pois sabe que naquele féretro ia uma parte de si, a melhor.

A partir daí, o grupo vai se dissolvendo, e o filme é, em parte, sobre a dissolução de um grupo de amigos. Para surpresa de Maria, Raimundo a procura um dia com uma proposta de compromisso, lhe confidenciando uma devoção de que ela jamais desconfiara. Dá-lhe um não redondo, o mesmo que repetiria a dezenas de pretendentes pela vida afora, até não haver mais a quem dizer não.

 Quando Raimundo morre no desastre de automóvel anunciado no poema, Tereza, ato contínuo, entra para um convento de freira, deixando claro o que Maria tampouco adivinhava, uma paixão secreta. Outra paixão secreta dentro do grupo de amigos, até então irrevelada é a de João por Tereza: é justamente depois de esta abraçar a carreira religiosa que ele aceita uma proposta de trabalho na América, desaparecendo do cenário local para sempre, como se tivesse morrido.

Na cidade, ficam apenas Maria e Lili, naturalmente sem contatos deliberados. No tempo presente da narração de Maria, Lili já está casada há muito tempo. Com muita pompa, casara com esse rico empresário do Sul que viera à cidade para montar uma novidade comercial da época, um supermercado: Jonatas Pinto Fernandes. Maria recebera, então, pelos Correios, o luxuoso convite para a cerimônia, à qual, evidentemente, não comparecera.

No momento atual em que recorda a estória toda, a professora Maria das Dores (só podia ser!), vulgo “Maria amargura”, abre a caderneta de classe deste ano letivo e se depara com uma nova aluna, por nome, Janaína Pinto Fernandes.

O que será que poderá acontecer entre ela e a filha do seu maior desafeto? Penso que seria interessante deixar o roteiro em aberto. Acho bom que fique para os realizadores o desenvolvimento de um desenlace, ou  se for o caso, a opção pela ausência de um. Que tal?

sti �”A�oeЫ` não esqueço a cena, quase final, em que Bette Davis (não lembro o nome dela no filme) é indagada sobre a destinação que pretendia dar à criança – já que não houve proposta alguma de resgate – e, em apavorante close com iluminação contra-plongée que dá a seu rosto um aspecto fantasmagórico, ela responde, ameaçadora: “I haven´t got the faintest idea” / ´Não tenho a menor idéia´.

No original, o filme se chamou “Absence”, creio que sugerindo, duplamente, a ausência da criança no lar, e a ausência do noivo no dia do casamento que não houve. Os distribuidores brasileiros pensaram no valor do seqüestro e, bem ou mal, o intitularam de “Sem preço”.

Uma produção da Warner, com direção do grande Robert Siodmak, pouco tempo antes de ele deixar Hollywood e ir embora para a Europa, “Sem preço” foi rodado ao longo do ano de 1952, simultaneamente a “O pirata sangrento” (“The crimson pirate”).

Embora elogiado pela crítica, “Sem preço” passou despercebido do público. Chegou a ter duas modestas indicações ao Oscar, no caso, a fotografia de James Won Howe, e a montagem de William Lyon, que perderam para, respectivamente, Robert Surtees (de “Assim estava escrito”) e Harry Gerstad (de “Matar ou morrer”).

Não sei por que “Sem preço” nunca foi selado em VHS ou DVD e, que eu saiba, tampouco foi exibido em canais televisivos, pagos ou não. Vi-o em minha juventude, em uma desprestigiada sessão de terça-feira do Cine Brasil, imagino que por volta de 1958, e só com grande esforço mnemônico (mais a ajuda de dicionários e guias de filmes americanos) aqui o reconstituo.

Não sei dizer se, revisto hoje, resistiria ao tempo, porém, pelo menos na minha memória, “Sem preço” perdura como um grande clássico noir da história do cinema, inexplicável e injustamente esquecido pelo acaso, ou pelo descaso.

Em tempo: da primeira à última letra, o texto lido é completamente ficcional.

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