Com Buster Keaton, a todo vapor

25 jun

Desde a invenção do cinematógrafo, uma das imagens mais fotogênicas na tela tem sido a do trem. Logo que os primeiros espectadores dos irmãos Lumière entenderam que a locomotiva que se aproximava deles em A chegada do trem à Estação (1895) não ia esmagá-los, passaram a apreciar a beleza da imagem e a querer mais.

Tanto é que, mais tarde, muitos filmes iriam retirar efeitos particulares dessa imagem e acho que cada espectador tem sua “cena de trem” preferida. Quem não recorda Rick, num trem superlotado de uma estação parisiense, esperando uma Lisa que não vem?

Implicando partida, ou chegada, a imagem do trem tem um peso (sentido duplo) dramático, elegíaco, trágico, todo especial que rendeu muitas lágrimas na história do cinema, e ainda hoje rende.

E, contudo, um dos melhores aproveitamentos dessa imagem foi radicalmente cômico.

Estou me referindo a um filme mudo de 1927 que a crítica internacional continua colocando na lista dos dez melhores de todos os tempos e lugares: A General (The general), com Buster Keaton no elenco e na co-direção.

Condutor por profissão, o jovem Johnny Gray (Keaton) tem dois amores: sua namorada Annabelle Lee (Marion Mack) e sua locomotiva, chamada A general. Entre esses dois amores parece não haver conflito, até que estoura a guerra de secessão, sim, pois estamos no Sul dos Estados Unidos lá por 1861. Quando o Forte Sunter é queimado pelos soldados do Norte, tudo que é de marmanjo na Geórgia corre para alistar-se, e Johnny, instigado pela patriótica namorada, é o primeiro da fila. Não é aceito por causa de sua profissão, mas não lhe dizem isso, e ele passa a se sentir um covarde, principalmente depois que Annabelle lhe joga na cara que só tornará a lhe dirigir a palavra quando ele estiver vestido com o uniforme dos confederados.

Correndo trilhos entre cidades, Johnny fica fora da guerra, mas não por muito tempo. Eis que um belo dia, numa parada para o almoço, os malvados soldados do Norte simplesmente roubam o seu trem, e a partir daí, todo o restante do filme é sobre a sua (quase) solitária, improvável, implausível, impossível tentativa de resgate da General.

Um homem sozinho tentando desesperadamente e por todos os meios físicos reaver um trem roubado: eis o tipo surrealista de argumento que só seria viável ao tempo do cinema mudo, quando a autonomia da imagem era imperativa.

Do começo ao fim, o filme tem um ritmo frenético, acelerado, desembestado, de uma Maria-fumaça a todo vapor, e comprova aquela tese, nem sempre óbvia, de que a ação, na arte da imagem em movimento, tem um funcionamento especial, inviável em qualquer outra modalidade de arte.

O melhor é que essa ação não está dissociada da psicologia. As muitas gags que desenvolvem o enredo também servem para construir e consolidar o perfil do protagonista. Como um herói patético, mas também trágico, Johnny é vítima do acaso, que ora o condena, ora o protege.

Quando o seu alistamento não é aceito, ele perde a namorada, mas em compensação, quando lhe roubam a locomotiva, ele termina entrando na guerra e virando herói, condição com que a reconquista. Não é, por exemplo, nada casual que Annabelle estivesse justamente no trem roubado e fosse feita refém dos inimigos, para poder ser salva pelo mesmo namorado recusado. No desenlace, Johnny terá sido promovido, de mero condutor de locomotiva a “soldado” (a nova profissão que ele orgulhosamente anuncia ao ser, finalmente, alistado).

“Se vocês perderem essa guerra, não ponham a culpa em mim” grita Johnny para o funcionário, ao ser expulso do setor de alistamento. Claro, não é sem ironia que ele será o herói de uma causa perdida, a do Sul, e esse dado contextual incrementa o seu lado, digamos, trágico, como se o filme todo fosse um comentário existencial sobre a condição humana. No papel desse herói patético, Buster Keaton está perfeito e sua “cara de pedra” (“Stone Face”, como é chamado em seu país) funciona a contento: com ele, como se sabe, nunca há sorrisos, sequer no “provisório” happy end.

Apesar de as gags do filme terem sido posteriormente imitadas ad nauseam e hoje parecerem clichês, algumas cenas continuam antológicas, como: a corte à Annabelle na presença dos dois garotos; a insistente e inútil tentativa de alistamento; o canhão que teima em explodir sobre o alvo errado; o esconderijo debaixo da mesa dos chefes nortistas; a transformação de Annabelle em mercadoria, ao ser posta em um saco de pano, que antes continha as botas nortistas; o desajeitado manuseio da espada, que termina atingindo um soldado inimigo-chave; o truculento beijo final em Annabelle, acompanhado de um catálogo de continências à tropa que passa; etc.

Certas seqüências chegam a ser épicas, como as cavalgadas das tropas em combate, ou, a estupenda queda daquele outro trem (não a General, obviamente!), da ponte em chamas para as águas geladas do Rock River.

Consta que Keaton e seu co-diretor Clyde Bruckman filmaram tudo no Oregon, e a Guarda do Parque Nacional, obsequiosamente, fez o papel duplo, ora dos nortistas, ora dos sulistas, apenas mudando de uniforme para cada caso. Já o trem destruído foi a cena mais cara do cinema mudo, e elevou vertiginosamente o orçamento de uma película que, aplaudida pela crítica desde sempre, nunca teve a resposta de bilheteria esperada.

A verdade é que A general é, ainda hoje, e acho que sempre será, uma delícia de se ver, e nos faz compreender a atitude de alguns críticos que, no contexto do cinema mudo, preferem Keaton a Chaplin. Não é o meu caso, mas essa é outra estória.

 

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