O que o vento não levou

15 ago

Toda vez que vou a lojas onde se vendem filmes em VHS ou DVD, me deparo com uma razoável quantidade de cópias de E o vento levou, e fico pensando, então, quem será que, hoje, ainda se interessa por esse filme de 1939. Será que o número de cópias à venda corresponde à procura?

Imagino que os idosos que um dia assistiram a sua estréia em cinemas, ou a alguma eventual reprise, devem comprá-lo por razões nostálgicas. Já os cinéfilos da vida o fazem por motivos cinematográficos, agora, fora dessas duas categorias recepcionais, não sei mais quem seriam os interessados.

De minha parte, sou curioso em saber o nível de interesse que a juventude atual teria nesse filme, tão conhecido de nome, mas não sei se de fato.

Claro, quando a Rede Globo o exibe, geralmente com certo estardalhaço, “todo mundo” o vê, até porque o grande público televisivo vê qualquer coisa a Deus querer, e no dia seguinte, ressacado da noite em claro, esquece o que viu.

Eu mesmo não lembro quando o vi pela última vez, nem onde, e principalmente, não lembro o quanto gostei ou deixei de gostar. Nunca me animo a comprá-lo, ou locá-lo, para depois ser obrigado a agüentar as suas pomposas quatro horas de projeção.

Pois, agora, me ocorreu recebê-lo de presente e, dentro do princípio do cavalo dado, organizei-me para o seu consumo da forma mais desprendida possível. Desliguei telefones, fechei janelas e portas, apaguei luzes, enfiei-me na poltrona e dediquei-me a acompanhar a longa estória dessa mocinha sulista, aristocrática e petulante que pensava, coitada, que o seu mundo de luxo e privilégios fosse eterno.

Como é suficientemente sabido, E o vento levou consiste no paradigma de cinema de estúdio hollywoodiano, uma superprodução muito mais do empresário David Selznick do que dos seus diretores, que foram vários, entre eles, George Cukor, Sam Wood e Victor Fleming, somente este último ganhando os créditos, dizem até que injustamente.

Tudo isso a gente sabe, e a enorme fortuna crítica do filme o confirma, um dos seus itens mais trepidantes sendo este “David Selznick’s Hollywood” do crítico e historiador Ronald Haver (Nova York: Bonanza Books, 1980), que ora tenho em mãos.

Contudo, lances de produção, bastidores e mitologia à parte, confesso que me surpreendi em constatar que ainda hoje E o vento levou funciona, e funciona muito bem. O seu famoso capricho megalomaníaco decididamente não é só técnico ou mercadológico: extremamente bem construído e narrado, o filme é empolgante e convincente por todos os ângulos.

E apesar de sua exemplaridade hollywoodiana, ele possui, sim, ingredientes que o fazem ousados para a época: observem, por exemplo, como a sua linha tímica é descendente, nisso lembrando o modelo de cinema europeu.

Se a primeira parte da estória termina com Scarlet O’Hara faminta, a segunda se encerra também com fome, desta vez de amor. Pela sincronia das partes, somada ao enquadramento rebuscado e ao crescendo da bela música de Max Steiner, deverá haver uma retomada, porém, a rigor o filme se conclui sem que ninguém saiba ao certo se Rhett Butler vai mesmo voltar para Scarlet O’Hara.

Depois do primitivo e racista Nascimento de uma nação (The birth of a nation, D.W. Griffith, 1915), E o vento levou é, e continua sendo, o grande épico sobre a Guerra de Secessão, com um nível de realismo histórico e psicológico que,  advindo ou não do romance Prêmio Pulitzer de Margareth Mitchell, deve ter contribuído para o amadurecimento da recepção no mundo americano e periférico, e aqui a gente recorda mais uma vez como, de alguma forma, a sua protagonista encarna a “má consciência” moderna, essa “flor do mal” que, no terreno literário, já desabrochara no conceito de anti-herói.

Para retornar às minhas dúvidas sobre a reação atual a E o vento levou, desliguei o aparelho com a impressão de que os jovens de hoje podem ver o filme numa boa, e, mais que isso, descontados alguns lances melodramáticos mais datados, vão curtir um bocado e incorporá-lo ao seu imaginário privado, ao lado de todos os anéis e seus senhores.

Em bom tempo: uma edição toda especial de E o vento levou acaba de sair em DVD, com vasto material extra sobre produção e bastidores.

 

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