Adeus, século XX

7 fev

Que filmes vão ficar como os grandes desta primeira década do século XXI? Por enquanto é difícil dizer, mas, com certeza, um forte candidato é esse Adeus, Lênin (2003), do alemão Wolfgang Becker, exibido nos cinemas e disponível em DVD.

Movendo-se astuciosamente entre o público e o privado, o filme conta uma estória divertida que enternece, comove e faz refletir.

Na ex-República Democrática Alemã de 1990, quando a mãe do jovem Alex sai de um coma de quase um ano, ele enfrenta um problema de ordem familiar e afetiva: a queda do muro de Berlim, ocorrida em novembro do ano anterior. É que, enquanto a RDA existira, a sua genitora havia sido uma socialista convicta, defensora dos grandes ideais do marxismo-leninismo. Teve um AVC no dia em que avistou o filho no meio de manifestantes que gritavam ‘abaixo o muro’, e esse dado pôs na cabeça culpada de Alex a idéia de que a saúde da mãe, neste pós-coma, dependia da saúde da pátria, hoje drasticamente morta. O que fazer?

Bem, o expediente que ocorre ao rapaz é reproduzir, no quarto doméstico da enferma, um cenário socialista para que ela acredite que, durante o seu longo coma, nada mudou no país. Só que, para tanto, ele precisa da cooperação, nem sempre prestimosa, da irmã casada, do cunhado, dos vizinhos, enfim, de um número cada vez maior de “figurantes”.

No dia em que um vento indiscreto abre a janela e, do seu leitor, a mulher avista, lá fora, um enorme anúncio da CocaCola, o rapaz é obrigado a convencê-la de que essa companhia de refrigerantes era de origem alemã. Abismada, a enferma tem notícia disso num aparelho de televisão que, naturalmente, só transmite matérias previamente gravadas pelo filho e um amigo que trabalha no ramo. Esse “noticiário de mentira” vai crescendo e adquirindo uma autonomia ficcional que concorre com a outra ficção, a do filme a que se assiste. Mais tarde, trechos de películas documentais da queda do muro de Berlim serão vistos, no visor da tv, pelos olhos pasmos da mulher, como uma invasão ocidental.

De modo que o genial no roteiro não é somente a mistura do histórico com o individual, mas, também, o lance de propor (para citar um certo filme de John Ford) que a lenda seja impressa como verdade. E a lenda aqui – percebam — é, por assim dizer, um país em coma. Assim, esse roteiro tem um comportamento do que os teóricos chamam de “metáfora expansiva”, tudo começando com um ponto (a metáfora em seu estado inaugural, no caso a mentira de Alex), este gerando outros, até o resultado ser uma linha obsessiva de crescimento incontrolável e absurdo.

Agora – como não? – indescartável também é o comentário histórico e social que o filme faz sobre o fim do século XX. Quem mais teria a idéia de dar ao carrancudo camarada Lênin esse adeus bem humorado? Nesse sentido, emblemática é a cena em que, escapulida de seu leitor de enferma, a mãe depara-se, na rua, com o que restou da estátua do grande pensador, sendo levado pelos ares por um helicóptero, sabe-se lá para onde.

É verdade que, em que pese ao tom de farsa, o filme não escolhe lados. Por exemplo, a nova profissão da irmã de Alex na nova Alemanha, vendedora de hambúrguer, (quando, na RDA, ela provavelmente cursaria universidade) é uma instância de crítica ao Capitalismo, e, por sua vez, a feia roupa “socialista” que ela é obrigada a usar diante da mãe é uma instância simétrica de crítica ao Comunismo.

E, contudo, acho que, por mais acentuado que seja o seu ângulo cômico, o filme é, no grosso, para todo mundo, um adeus ao melancólico Século XX, com sua ilusão de um promissor e inevitável regime de esquerda, que — hoje sabemos, ou já o sabíamos desde sempre? – tanto quanto a empreitada desse ingênuo e bem intencionado Alex, também não passou de uma farsa.

Num filme sobre a família, a figura a ser ludibriada com o sonho de um socialismo eterno é a mãe, e não, por exemplo, o pai. Por quê? Naturalmente, há mais pathos na situação dramática de um filho lutando para salvar a genitora (Cf Freud), porém, um pouco mais adiante disso, não seria possível pensar na noção, para quase todo mundo implícita, de “pátria-mãe”? Ou, se for o caso, para o contexto ideológico da estória, numa releitura lúdica de A Mãe de Gorki? A investigar.

Depois da morte da mãe, a vida de Alex volta ao normal numa Alemanha unificadamente capitalista. Se porventura perguntássemos sobre o futuro que o aguarda, estaríamos perguntando pelo nosso futuro neste novo milênio que começa – pergunta que talvez não queiramos fazer.

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