A bela (e triste) marcha dos pingüins

21 fev

Nada mais antigo do que a idéia de que a vida animal e a vida humana seriam análogas. Darwin à parte, este é o fundamento de quase todas as lendas antigas e, modernamente, de quase todos os desenhos animados e quadrinhos.

Claro, antes das artes, essa necessidade básica de antropomorfização da vida animal já está na vida prática; basta observar, em qualquer residência, o tratamento antropomorfizante que recebe o gatinho da família.

Sem dúvida, é essa necessidade de antropomorfização que tem feito o sucesso do filme A marcha dos pingüins (La marche de l’empéreur, 2005), em cartaz na cidade.

Até porque, simetricamente, foi essa mesma necessidade que guiou a concepção do filme. Zoólogo de profissão e apaixonado por animais, o francês Luc Jacquet sempre tivera vontade de engendrar uma ficção em que, com material estritamente científico, se narrasse a vida dos animais numa perspectiva humana.

Convencendo produtores da viabilidade do projeto, conseguiu mandar para a Estação Polar Dumont D’Urville, território francês na Antártica, os fotógrafos Laurent Chalet e Jerôme Maison, e mais uma equipe de trinta pessoas, com o objetivo de filmar a vida dos pingüins imperadores. No período de um ano, e numa temperatura de menos 40 graus, os dois fotógrafos filmaram os pingüins em todos os horários e em todas as circunstâncias, incluindo a patética marcha que, no inverno, empreendem em fila única às regiões mais inóspitas do Pólo, para fins de acasalamento.

O resultado foi um copião de cerca de 70 horas, uma tira de película que, se projetada sem interrupção, duraria mais de três dias e noites seguidos.

Ora, o que o agora cineasta Luc Jacquet teve a fazer foi cortar, cortar e cortar, com o cuidado de preservar apenas aquilo que endossasse a estória que tinha na cabeça, montando o não cortado nessa perspectiva ficcional. De tal forma que quem assiste ao filme pode se indagar se, afinal de contas, seria A marcha dos pingüins um documentário ou uma ficção. A resposta mais viável é que o filme é, na verdade, as duas coisas ao mesmo tempo.

Bem entendido, o que se vê na tela é, sim, documento, só que editado de tal modo a contar uma estória, e isso com os acréscimos das trilhas musicais e das falas que são atribuídas a um casal de pingüins, em princípio, os protagonistas do filme. Reforçando o sentido de ficção que nos mantém dentro do imaginário universo subjetivo dos pingüins, exclui-se sumariamente aquela voz narrativa, tão comum em reportagens do tipo National Geographic, ou Globo Repórter.

Em princípio uma lenda, até que ponto a estória narrada – outra pergunta possível, derivada da anterior — coincide com a vida real dos pingüins?

Se analisado de perto, em certos momentos o filme permite o vislumbre desse tênue limite entre realidade e ficção. Por exemplo, a invenção da heróica família de pingüins protagonizante da estória (pai, mãe e filhote) é um óbvio lance fictício, construído a partir da ardilosa combinação de fotogramas, porém, um outro exemplo ao acaso, a luta das fêmeas sem filhotes para roubar ovos alheios, decididamente, só está no roteiro porque, captada pelas câmeras dos fotógrafos, de fato aconteceu.

Bem, de qualquer forma, cabe aos cientistas duvidarem da veracidade do filme de Jacquet, porque, de nossa parte, digo, da parte do espectador, o filme é uma obra de rara beleza, cativante e comovente, goste você de animais ou não.

No nível da produção ou da análise crítica, quem lida com documentário cinematográfico sabe muito bem que nenhum filme do gênero é puro, isento de ingerência autoral, o que equivale a dizer que todo documentário implica um elemento de manipulação. A marcha dos pingüins leva essa manipulação ao extremo, mas quem se importa com isso?

Ao contrário, o espectador sai do cinema maravilhado, ansioso por recomendar o filme a todos, adultos e crianças, o que nos conduz de volta ao seu inevitável sucesso de bilheteria.

Sobre o tema da tendência à antropomorfização com que abri esta matéria, a questão que fica pendente é o que fazer da estória contada em termos, digamos, interpretativos. A vida dos pingüins seria exemplar para nós?

À parte ingerências autorais, há lições de solidariedade (a união dos corpos durante a geada, por exemplo), de harmonia familiar (o macho faminto chocando o ovo na longa ausência da fêmea) e de fidelidade conjugal (os casais de pingüins são monógamos), porém, no geral, a vida, digo, a condição existencial, desses animais é, tão triste, que tomá-la como modelo parece um gesto de pessimismo.

Ou seria o caso de deduzir-se que correção política é uma coisinha sem graça? Ou seria o caso de deduzir-se que não se deve deduzir nada da vida animal? Fica o espectador com estas, e outras alternativas hermenêuticas.

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