Chá e simpatia

8 maio

A homossexualidade sempre foi, e parece que sempre vai ser, tema delicado e polêmico em cinema, que o diga o recente BrokeBack Mountain de Ang Lee.

Na Hollywood clássica, sob o rigoroso Código Hays de Censura, ele era proibitivo, equivocadamente incluído no item das taras. Por coincidência, o primeiro filme a enfrentá-lo está, neste ano de 2006, completando cinqüenta anos, o Chá e simpatia (Tea and sympathy, 1956) de Vincente Minnelli.

Baseado na peça autobiográfica de Robert Anderson, encenada na Broadway em 1953, o filme de Minnelli contava a estória desse jovem universitário de dezessete anos que não se enquadra no modelo viril do campus e por isso é pejorativamente apelidado pelos colegas de “sister boy” – para nós, algo como “irmãzinha”.

Filho de pais separados, e educado por uma babá, Tom Lee (John Kerr) aprendeu a costurar e é ele mesmo quem borda as cortinas do seu quarto. Ao invés de baseball e alpinismo, ele prefere jardinagem, e seus hobbies são ouvir música clássica, ler poesia, ou dedilhar no seu violão velhas canções folclóricas sobre o amor. No momento em que o filme começa, está para atuar numa peça escolar em um papel feminino.

Esse perfil supostamente nada macho passa a ser um problema para os senhorios Bill e Laura Reynolds, que hospedam em sua residência, cerca de dez a doze estudantes, entre os quais Tom. Na verdade, amigo do pai de Tom, o Sr Bill Reynolds (Leif Erickson) recebera daquele a incumbência de “fazer dele um homem”, o que, em princípio seria facilitado pelo fato de que o Sr Bill é o técnico do time de baseball da universidade.

Acontece que, enquanto o time treina, Tom prefere ajudar a Sra Reynolds (Deborah Kerr) no trabalho de jardinagem, e conversar sobre coisas intimistas, como sua vida solitária de quase órfão. Uma grande afinidade começa então a brotar entre a quarentona Laura Reynolds e o jovem Tom Lee e a situação dramática do filme está dada.

Na medida em que, da parte dos colegas do campus, as hostilidades a esse Tom irmãzinha vão aumentando – e elas aumentam um bocado! – também aumenta a solidariedade da Sra Reynolds por ele, solidariedade esta (conferir o sentido do termo ´sympathy´ no título original) que logo se transformará em algo bem mais forte.

Por que essa respeitável senhora casada se entrega sexualmente a seu jovem inquilino: para provar a ele mesmo que é homem, ou, porque está mesmo apaixonada? Uma atitude ´solidária´, ou um gesto passional? Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo?

Ok, o espectador sai do filme com a sensação de que, afinal de contas, Tom Lee era tão viril quanto qualquer um dos colegas dessa universidade, e que a abordagem de “Chá e simpatia” é, não tanto sobre homossexualidade, quanto é sobre a problemática dicotomia masculinidade/feminilidade.

De todo jeito, convenhamos, já foi muito para 1956.

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2 Respostas to “Chá e simpatia”

  1. celso maio 27, 2012 às 9:53 pm #

    Acabo de assistir a “Cha e Simpatia”, que adquiri em DVD, por Deborah Kerr e tb pq vi esse filme ha muitos, muitos anos atras e o achei extremamente ousado na tematica. Revendo agora, ainda me espanta sua atualidade no trato de temas espinhosos para ontem e hoje, mas sinto uma estranheza qdo o colocam como um filme que trata da homossexualidade, qdo na minha opinião ele questiona o estereótipo de masculinidade que ainde persiste, e principalmente a questão do diferente e sua aceitação. É uma aula sobre bulling, e um filme muito belo, e como me encanta Deborah Kerr, que alias possui em sua carreira filmes com tematicas fortes, como “Narciso Negro” com o tema da sublimação, maravilhoso.

    • João Batista de Brito maio 28, 2012 às 2:23 pm #

      Celso, muito apropriado o seu comentário. E outra coisa: ele me fez checar esta matéria, que escrevi há tempo, e, não lembrava mais dela: para minha surpresa, me parece incompleta e cheia de erros de digitação. Vou revisá-la e completar. Aguarde. Abraço de João e seja sempre bem-vindo

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