Para relembrar Roberto Rosselini

23 maio

Neste ano de 2006, o mundo cinematográfico vai estar celebrando o centenário do cineasta italiano Roberto Rosselini, nascido em 8 de junho de 1906, e falecido em 1977.

Na história do cinema, Rosselini consagrou-se como o realizador mais expressivo do neo-realismo italiano, movimento de cinema que, de fato, não pode ser imaginado sem a sua trilogia, hoje clássica: Roma cidade aberta, 1945, Paisà, 1946, e Alemanha ano zero, 1947.

E, contudo, Rosselini não foi neo-realista o tempo inteiro. Antes da guerra, ele fizera filmes fascistas, e, após a fase estritamente neo-realista, teve o que se poderia chamar de “sua fase Ingrid Bergman”. Casado, debaixo de estrondoso escândalo, com a atriz hollywoodiana, as suas realizações dessa fase dependeram do belo rosto de Bergman que, convenhamos, nunca deu muito certo com os tons documentais remanescentes do neo-realismo, em filmes como Stromboli (1949) e Viagem à Itália (1953).

Pouco visto fora da Itália, e raramente cogitado pela crítica internacional, o Rosselini que veio depois, anos 60 e 70, nos parece pouco relevante ou mesmo, para alguns, indigno de nota. Ao contrário de seus companheiros de neo-realismo (Fellini, Visconti, Antonioni…), que, encontrando um estilo próprio, se projetariam para o mundo com o boom do cinema italiano dos anos sessenta, Rosselini dedicou-se à televisão ou a projetos mais ou menos anódinos.

Pois entre a fase Ingrid Bergman (divórcio em 1957) e os televisivos anos sessenta, há um filme do cineasta que perdura como, se possível fosse dizer, um Rosselini todo especial, promessa de uma maturidade, talvez frustrada, mas de todo jeito, esperada.

Refiro-me a De crápula a herói (Il Generale della Rovere, 1959) que, agora, para a alegria dos cinéfilos da vida, sai em DVD.

Passado em Gênova durante a II Guerra, o filme nos apresenta a figura risível desse escroque, Bardone, um falso coronel que, rendido aos alemães, vive de ludibriar os seus próprios compatriotas para arranjar o dinheiro que perde nas mesas de jogo. Fraco e viciado, Bardone não hesita em arrancar liras de suas conquistas amorosas, ou, mais freqüentemente, de mães e esposas que pagam para ter notícias (falsas) de soldados a quem a guerra deu fim.

Quando a figura desse “crápula” está bem definida, passamos a segunda parte da estória, na intitulação brasileira indicada com a palavra “herói”.

Desmascarado pela Gestapo, Bardone é, sob ameaça de pena de morte, obrigado a assumir uma missão nada fácil para o seu espírito pusilânime. É que, morto um grande líder da Resistência na África, o General della Rovere do título original, e, mantido o fato em segredo, Bardone, é jogado entre as paredes de um cárcere para, de agora em diante, passar por esse grande líder, junto a presos políticos italianos, com o objetivo de desvendar segredos que interessam a Gestapo.

Convivendo, pela primeira vez, com o isolamento, o desconforto, a tortura e o medo, mas também com o idealismo renitente dos membros da Resistência, Bardone vai, a revelia de si mesmo, se transformando e, no final, quando se vê diante de um pelotão de fuzilamento, prefere morrer a dedurar os compatriotas. Do Bardone que, meio perplexo, lê nas paredes da prisão, as últimas palavras dos condenados à morte (uma delas diz que: “nunca pensei fosse tão fácil morrer”!) até o Bardone que assume corajosamente o lugar fatal de Rovere, vai uma distância, a um só tempo, grande e pequena.

Com extrema competência, o filme acompanha o processo psicológico de transformação do protagonista, e nos convence de que, sim, a ética pode ser aprendida, a depender das circunstâncias.

Tanto é assim que, se há, em momentos diferentes da narrativa, dois Bardones, o crápula e o herói, o espectador atento dá-se conta de que um já continha o outro. Por exemplo, quando Bardone rasga o cheque falso que a sua ex-amante, sabendo-o falso, aceitara, o espectador tem o primeiro lampejo de que há limites para o seu mau-caratismo.

Mais tarde, quando as bombas nazistas estão estourando sobre o presídio, um Bardone apavorado implora que abram a cela, e contudo, uma vez aberta, para seu próprio estranhamento, supera seu medo e grita aos colegas de cárcere que tenham coragem. Reposto, na cela, encolhe-se num canto e reza, mas o gesto heróico já fora esboçado.

Um momento chave – profundamente tragicômico, como poucos no cinema — ocorre quando, depois de torturado até o sangramento, lhe mostram a foto da família do General della Rovere e Bardone se comove até as lágrimas, como se naquela foto alheia estivesse vendo a sua própria esposa e seus filhos.

Na verdade, construído com sutileza, o personagem possui a ambigüidade de um Carlitos, aquele – vocês lembram — medroso e aproveitador que, no entanto, enfrentava os grandalhões com destemor quando se tratava de tomar o partido de alguma criatura porventura mais frágil que ele.

Em franca oposição ao que esteve um dia entre os princípios estéticos do neo-realismo, Il Generale della Rovere – atenhamo-nos ao título original — é decididamente um “filme de personagem” que, como tal, dependeu enormemente do ator, Vittorio DeSica, diga-se de passagem, possivelmente na melhor interpretação de toda a sua longa e versátil carreira.

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