Viva o mediano

6 jun

Pelo fato de escrever sobre cinema, as pessoas, com relativa freqüência, me perguntam sobre minhas preferências e meus critérios. Ora, na minha condição de espectador, dou-me ao luxo de não ter regras preestabelecidas e princípios imutáveis.

Por exemplo, se nunca estou para baixo nível, tem dias que também não estou para obras primas, e pronto.

Para ser franco, não conheço coisa mais gostosinha do que um simples, despretensioso, honesto filmezinho mediano. E, atenção, com “mediano” não quero dizer ‘medíocre’: apenas aquele filme – vocês entendem — que não foi feito para “estourar a boca do balão”, mas que também não é “o cocô da cavalo do bandido”.

Esta semana vi um assim e a experiência foi extremamente compensadora. Fui à locadora e, entre o acaso e o propósito, fiz minha escolha. Em casa, dispensei o pessoal sobressalente, fechei portas e janelas, desliguei telefones, liguei o DVD e sem reservas me entreguei a “Êxito fugaz” (Young man with a horn, 1950).

Como tantos outros filmes do gênero biografia, Êxito fugaz conta a estória de um jazzista americano, começando a narração ao tempo de sua dura infância de órfão, e indo até as crises advindas após e por causa do sucesso.

Só que, nele, tudo é bem encenado, bem enquadrado e bem fotografado, e a montagem dá o tempo certo, intercalando as perfomances no trompete com as outras cenas, algumas sentimentais, outras bem dramáticas.

 Ao iniciar sua carreira profissional, o trompetista Rick Martin (Kirk Douglas, em desempenho estupendo) envolve-se com duas mulheres, amigas entre si, que não podiam ser mais diferentes. Sua colega de banda e cantora é simples, suave e saudável (Doris Day), ao passo que a outra, pretensa psiquiatra, é complicada, arredia e neurótica (Lauren Bacall). Claro que Rick casa com a neurótica, se dá mal, e termina com a saudável, mas o percurso da aprendizagem é longo e doloroso.

Outro aprendizado que Rick faz na vida é o de que, para um artista, nem sempre é possível superar em qualidade o seu próprio recorde. Ao tentar produzir, no seu trompete, aquele som que nenhum virtuose jamais produziu, e não conseguindo, entra em crise e despenca para o alcoolismo, Jogado na sarjeta, um dia Rick ouve o som de uma sirene de carro de polícia que se aproxima e, em seu desatino, supõe estar escutando, em sua mente, a música sublime que até então não conseguira executar.

Este momento é um clímax do drama que, a gente sente, deveria ter fechado o filme. Ao invés disso, tem-se um desenlace meio arranjado em que Rick é salvo pelos amigos, porém, o filme no geral é tão agradável e fluente que a gente perdoa a direção por este pequeno “deus ex machina”, aquele recurso de “resolver” a estória favoravlmente ao protagonista.

Outro problemazinho é ser a estória toda narrada por um amigo do trompetista (Hoagy Carmichael), o que, no plano do drama, tem pouco ou nenhum efeito. Essa narração de primeira pessoa deve ter sido funcional no livro que o filme adapta, da escritora Dorothy Baker, segundo consta, inspirado na vida verídica do músico Bix Beiderbecke.

A direção é de Michael Curtis o que significa dizer que, antes de locar a fita, você já sabe que não vai ver nenhuma obra prima, pelo simples fato de que, com exceção de Casablanca, Curtis numa cometeu uma obra prima. Por outro lado, você também sabe que não vai ver um filme abaixo da média. Ao contrário, com seus quase quatrocentos filmes rodados um atrás do outro, durante mais de quarenta anos, como se em série, Curtis foi, na Hollywood clássica, o mestre do filme mediano, aquele de que estamos falando aqui.

Uma coisa é certa, curti mais Êxito fugaz do que, garanto, se tivesse visto um Godard, ou um Tarkovsky, ou um Kiarostami. E, assim, posso proclamar, mesmo que seja só para mim: viva o mediano!

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