Como é gostoso o meu filme ruim

4 dez

Um fenômeno que ainda precisa ser estudado a fundo é o da recepção cinematográfica. Complexa, ela tem os seus mistérios que a pura teoria não explica. Um desses mistérios consiste no fato de um filme reconhecidamente ruim poder agradar ao espectador de bom gosto. E agradar muito.

Para ilustrar o fato, me tomo como cobaia. Semanas atrás, revi, em DVD, o “Melodia Imortal” (“The Eddie Duchin story”, 1956) de George Sidney e, confesso sem constrangimento, adorei este filmezinho fraco ao qual nenhum crítico de bom senso – e aí me incluo! – daria mais que duas estrelinhas de cotação num guia de vídeo.

O filme de George Sidney é um exemplo do melodrama dos anos 50, que Hollywood tanto praticou, só que sem a sutileza e profundidade que estavam, por exemplo, em um Douglas Sirk.

Acumulando um clichê sobre o outro, conta a estória de como esse jovem Duchin (Tyrone Power), na década de 30. deixa a sua cidade natal, onde, por tradição familiar, seria farmacêutico, e vem para Nova Iorque, tentar a arriscada carreira de pianista. Logo de cara, é ajudado por uma bela decoradora de interiores (Kim Novak), com quem se envolve e casa.

Quando tudo vai bem no amor e na profissão, eis que a moça morre de parto e Duchin, então, recusa o filho, que é criado por tios da falecida. Só muito tempo mais tarde, Duchin re-aprenderá a amar (primeiro, o filho adolescente, depois, a bela preceptora do rapaz), uma pena que numa época em que ele próprio tem pouco tempo de vida.

Biográfica no grosso, acho que a “estória de Eddie Duchin” (conferir título original) poderia ter resultado num grande filme, desses inesquecíveis, que a trilha sonora (realmente belíssima!) ajudaria a perpetuar, mas não foi o caso. Do jeito que a estória foi roteirizada e dirigida, você, se quiser, pode encontrar defeitos em todos os níveis da realização, defeitos que não tenho espaço para listar.

Um dos defeitos mais manjados em “Melodia imortal” creio estar no elenco mesmo. No papel-título, Tyrone Power faz esforços quase sobre-humanos para parecer o pianista obcecado por música, e não convence – apesar da grande ajuda que recebe da profissional Carmen Cavallero, que, offscreen, o dubla nas execuções. Como a noiva e esposa, a grande atriz Kim Novak é outro caso de lamentável “miscast”, que compromete a esperada densidade no caso de amor que o casal vivencia na primeira metade do filme. Aqui lembro que, quando o casal, após as mútuas e até então veladas declarações de amor, vai passear nos logradouros da cidade de mãos dadas, toda a seqüência parece um chapado cartão postal.

Na segunda metade, depois que Duchin, ao piano, sente os primeiros sintomas da doença letal, a narração acentua os ingredientes piegas, e o espectador pode perceber claramente que está sendo induzido ao choro.

Ora, aqui entram os mistérios da recepção a que me referi. Sim, o interessante em “Melodia Imortal” é que você está, não apenas neste ponto, mas o tempo inteiro, consciente das falhas da realização – uma delas sendo esta, a intenção de melodramatizar – e, no entanto, por alguma razão estranha, você não se incomoda com isso: incorpora os limites do filme como um a priori, aceita de bom grado a proposta que ele lhe faz, digere, gosta e, pior, sonha quando ele lhe pede para sonhar, e chora quando ele lhe pede para chorar.

Foi ao menos o que aconteceu comigo.

Naturalmente, parte do segredo na reação favorável ao filme de George Sidney consiste em não proceder a comparações. Se, porventura, você o cotejar com um certo filme que, dois anos atrás, também narrara a vida de um músico americano, também falecido precocemente, ele vai, com certeza, sair perdendo feio. Refiro-me ao belo e bem resolvido “Música e lágrimas” (“The Glenn Miller Story”, 1954, de Anthony Mann).

Se o intento comparativo persistisse o argumento seria o de que a George Sidney faltou o talento de Mann, porém, de qualquer modo, vendo ou revendo esse “Melodia imortal”, e aceitando-o na sua simplicidade e precariedade, como o fiz, qual é o espectador que quer saber de comparações?

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