Um trem para as estrelas

26 mar

Estava outro dia numa roda de amigos cinéfilos quando um deles se saiu com esta boutade extravagante: “todo filme com trem é um filme bom”. A colocação era absurda, mas, engraçado, logo o grupo a assumiu e, aí, passamos a citar filmes que mostravam imagens de trens, e de fato, a grande maioria eram filmes de qualidade.

Mais tarde, pensando no assunto, ocorreu-me que a boutade de nosso amigo não era assim tão absurda. A verdade é que a imagem do trem é, em si mesma, altamente cinematográfica. O trem num romance é só um dado diegético; na pintura, um objeto morto; no teatro, uma impossibilidade. No cinema, ao contrário, visto de fora ou de dentro, parado ou em movimento, o trem é uma coisa viva, como diria a crítica de língua inglesa, profundamente “watchable”, ou seja, boa de se ver.

Não é sem razão que, na história do cinema, o primeiro filme exibido exibiu o quê? Sim, um trem. Nos seus poucos minutos de duração, a película dos irmãos Lumière “Chegada do trem à estação” mostrava o que o título dizia. Um trem corria do fundo da tela para os seus lados e assustava os espectadores que supunham iam ser atropelados. Foi preciso que os exibidores explicassem que não havia perigo, mas, desde esse dia, 28 de dezembro de 1895, trem e tela formaram um par perfeito que rendeu, e vem rendendo, muitos momentos gratificantes.

Pouco tempo depois dos irmãos Lumière, o americano David Wark Griffith fundaria o específico fílmico, com a sua cena paradigmática, onde a imagem do trem era central. Em seus trilhos os bandidos haviam amarrado a mocinha, em cujo socorro corria o mocinho, enquanto, para a agonia dos espectadores, o trem se aproximava. Foi nesse mesmo tempo, primeiros anos do século, que outro pioneiro, Edwin S. Porter, rodaria o seu “The great train robbery” (“O grande roubo de trem”, 1903), onde o trem era tão graficamente importante quanto os outros atores.

Que o trem e o cinema teriam um grande destino comum ficou definitivamente claro em 1926 quando o ator e diretor Buster Keaton exibiu o seu “A general”, comédia absurda, situada na guerra de secessão, em que uma locomotiva era roubada dos confederados, pelos soldado da União, e um jovem sulista solitário se emprenhava em recuperá-la. Aqui, não havia mais dúvidas, o grande protagonista era o trem (chamado de “general”) e ninguém se incomodava com isso. Ao contrário, a crítica internacional gostou tanto que o filme, há muito tempo e ainda hoje, está na relação dos dez melhores do mundo, ao lado de “Cidadão Kane” e “O encouraçado Potenkim”.

Ao longo da história do cinema, os filmes que arrancaram parte de sua força dramática da imagem do trem são tantos que seria ocioso tentar recobri-los. Aqui recordo apenas uma ou outra instância, deixando para o leitor, se for o caso, a compleição da lista.

Os citados até agora são filmes da era muda, mas, o primeiro falado a ser mencionado suponho que deve ser o “Aliança de aço” (“Union Pacific”, 1939) de Cecil B DeMille que, sintomaticamente, narrava a construção da linha de ferro que, nos Estados Unidos, uniria a costa leste ao extremo Oeste, substituindo a precária diligência. O filme, como vocês lembram, é um épico do gênero – chamemo-lo assim – “western com trem”. Só depois de “Aliança de aço” Fred Zinnemann e John Sturges, por exemplo, poderiam fazer, respectivamente, “Matar ou morrer” (1952) e “Duelos de titãs” (1958), westerns clássicos onde o emprego do trem era essencialmente psicológico, o primeiro podendo ser subentitulado como ´um trem que chega´ e o segundo como ´um trem que parte´.

Contudo, desde Griffith, o trem nunca esteve atrelado a um gênero só: abrangia a todos. Aqui lembro o seu uso emotivo e poético no melodrama de David Lean “Desencanto” (1945) onde o trânsito na Estação inglesa unia e separava o casal apaixonado, cada apito ecoando uma alegria ou uma dor. No mesmo sentido de abrangência, vejam o tom sombrio, fatal ou lúdico, que Hitchcock deu a esse meio de transporte em filmes como “A dama oculta” (1938), “A sombra de uma dúvida” (1943), “Pacto sinistro” (1951), e “Intriga internacional” (1959). Ou vejam o que dele fez Billy Wilder em “Pacto de sangue” (1944).

Mas, claro, o filme que aqui não pode deixar de ser mencionado se chama justamente “O trem” (“The train”, de John Frankenheimer) e é de 1964. Situado ao tempo da Segunda Guerra, contava como os alemães se apropriaram das obras de arte dos museus parisienses, as quais seriam transportadas para a Alemanha em um trem especial que, naturalmente, a Resistência francesa faria o possível e o impossível para bloquear. “Assassinato no Expresso-Oriente” (Sidney Lumet, 1974) é outro filme a citar, porém, não sei se é enquanto “cenário” da ação que o trem é mais efetivo na tela. Quer me parecer que a sua imagem pode ser bem mais expressiva quando usada de modo pontual, como um índice dramático, ou de outra ordem. Com certeza, o leitor lembrará bons exemplos desse uso.

Para fechar, até o cinema nacional lidou com a imagem do trem, por exemplo, no hoje clássico “Assalto ao trem pagador” (1962), isto para não falar em “Central do Brasil” (1998) e no filme (Cacá Diegues, 1987) que empresta o seu título a esta matéria.

Em tempo: esta crônica é dedicada a Valdemir Alves de Medeiros.

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