Educando os ricos

22 abr

O que é feito dos grandes paradigmas que guiaram a humanidade nos séculos passados? Acabaram? Não há mais programas ideológicos a seguir e a juventude de hoje em dia estaria à mercê de si mesma? Ou ainda haveria alternativas e, se as há, quais?

Perguntas desta natureza estão implícitas no roteiro do filme “Os educadores” (“Die fetten jahre sind vorbei”, 2004), do jovem cineasta alemão Hans Weingartner, disponível em DVD e em cartaz na programação dos canais pagos de televisão.

Mas vamos por etapas. Na Berlim de hoje, dois rapazes praticam uma atividade subversiva que consiste no seguinte. Quando os residentes estão ausentes, Jan e Peter empreendem incursões noturnas a mansões de luxo, não para roubar, mas para imprimir as marcas de sua revolta ideológica contra o Sistema. Tiram móveis e demais objetos do lugar e deixam bilhetes ameaçadores, como aquele que serve de título original ao filme, “Die fetten jahre sind vorbei”, ao pé da letra, ´os anos gordos acabaram`.

Para estes “educadores”, como se auto-denominam os dois rapazes, o objetivo é provocar, nos ricos, a consciência da anormalidade de sua posição no mundo. Supostamente, quando todos os ricos entrarem em crise, o capitalismo deverá desmoronar. Ao invés da revolução social prevista por Marx, eis a única saída para uma mudança na sociedade: assim pensam estes jovens idealistas.

O problema é que, embora pretenda expandir-se, o grupo de “educadores” é pequeno: por enquanto, se limita a dois membros e, ao aparecer um terceiro, não é da forma conveniente.

Acontece que, despejada do seu apartamento, a namorada de Peter, Jule, vem morar com os dois rapazes. Quando, a trabalho, Peter viaja, Jan e Jule ficam íntimos e, previsivelmente, se apaixonam e, também previsivelmente, Jan “educa” Jule, ou seja, lhe passa a proposta do grupo.

Os dois passam, então, a “visitar” (entre aspas) mansões, até que a moça convence Jan a fazer uma “visita” especial à mansão de um executivo a quem ela, por causa de um acidente de automóvel, devia perto de 100 mil euros. A situação se complica quando, por azar, o dono da casa, o executivo Handenburg, chega no momento do vandalismo, reconhece a moça, e o casal de invasores, sem alternativas, é obrigado a apelar para a ajuda de Peter.

A decisão é o seqüestro do dono da casa, e, a partir daí, com os três jovens e o executivo de meia idade comprimidos dentro de uma pequena casa de campo, o filme vira um interessantíssimo “confronto de gerações”, nos dois sentidos, histórico e dramático, da expressão.

É que o Sr Handenburg havia sido, ele também, um revolucionário na sua juventude, anos 60, um revolucionário que, sem opções possíveis, terminou por acomodar-se ao Sistema, e – para voltar ao título original do filme – com ele “engordou”, o que, sabe-se, não fez sozinho. De forma que os melhores momentos do diálogo, e, por tabela, do filme, estão nessa constrangedora e difícil “acareação” de duas gerações, entre quem fez 68 e os jovens do terceiro milênio.

Nessa perspectiva, digamos, sócio-psicológica, o filme não apenas repensa o Século XX, suas vanguardas políticas e seus retrocessos ideológicos, como repensa a condição humana de uma maneira geral, fazendo-se a pergunta – mais uma! – sobre até quando subsistiria, na linha existencial de qualquer criatura, o ímpeto revolucionário.

“O coração é um órgão revolucionário”, reza o poético e radical slogan dos “educadores”, uma vez rabiscado com tinta vermelha numa parede e fotografado por Jan, porém, para o espectador, a dúvida persiste: não seria a frase meramente retórica, uma figura de linguagem de semântica esvaziada?

Ou então, considerado o desenvolvimento da relação entre os três jovens protagonistas, o tom da frase seria porventura mais pessoal, apontando para os caminhos amorosos que conduzem Jan, Jule e Peter a uma aceitação do amor a três? Assim sendo, o filme parece ter ecos de um clássico que, sintomaticamente, é dos anos sessenta, o “Jules et Jim” de François Truffaut, aliás, ecos audíveis, como se percebe, até nos nomes dos protagonistas.

Bem, o filme se conclui com a tríade de “educadores” partindo de Berlim para a execução de um novo e mais ousado plano político, que não se sabe qual seja, e o espectador é deixado sem a informação do seu paradeiro, e, sobretudo, sem saber se, um dia, eles, como o Sr Handenburg, serão engolidos pelo Sistema e com ele engordarão, ou se… Bem, não sei o que pôr depois deste “se”, a não ser reticências.

Para nós brasileiros, que temos acesso precário à produção européia, “Os educadores” consiste numa curiosa amostra do cinema alemão atual. Juntamente com Tom Tykwer (de “Corra, Lola, corra”), Wolgang Becker (de “Adeus, Lenin”) e Sonke Wortman (de “O milagre de Berna”), este jovem Hans Weingartner – trinta e quatro anos quando o filme estreou – é, com certeza, um nome a notar e anotar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: