Sem preço

21 jul

Não sei se vocês lembram o filme, mas, a estória é mais ou menos assim. Casados há cerca de oito anos, Will e Virgínia vivem felizes em sua mansão classe-média, na pequena Shrewsbury, arredores de Boston. Ele é um grande empresário e ela, dona de casa. O casal tem uma filha de três anos, criada com a ajuda de uma empregada fiel, Dalilah.

Quando o filme começa vemos cenas alternadas de: Will no seu escritório em Boston; Virgínia em casa, ocupada com alguma tarefa doméstica; e Dalilah no parque, onde a criança brinca na grama com outras crianças. De repente, Dalilah é abordada por esse desconhecido que parece querer alguma informação; só que a conversa se prolonga mais do que o esperado e quando Dalilah se dá conta, a menina não está mais por perto. Nem por perto, nem em lugar nenhum. Segundo depoimento das outras crianças, dois homens a haviam levado para um carro, enquanto Dalilah conversava. Ficou, assim, configurado o seqüestro, e o desconhecido que abordou Dalilah era – tudo indica – parte dele.

A partir daí o filme vai mostrar a agonia da família, com todos os detalhes, inclusive os remédios que a mãe agora precisa tomar. Sentindo-se culpada, a empregada fica depressiva, quase tão enferma quanto a patroa, e Will começa a ter problemas no trabalho. Espera-se um telefonema ou outra mensagem qualquer, pedindo o resgate, e nada. Depois de muita dúvida e hesitação, consulta a amigos e parentes, Will decide acionar a polícia, e o detetive Larry fica encarregado do caso.

Para encurtar a estória, o detetive consegue localizar o cara do parque, que, sob suborno, o conduz aos dois seqüestradores, os quais, por sua vez, incriminados e sob pressão, revelam o paradeiro da menina. No final das contas, uma mulher fora a mentora de tudo, e com ela a criança vivia, trancada no porão de sua casa, em um bairro luxuoso de Boston. Quem era essa mulher, o espectador só vai saber mais tarde, através de um flashback de Will: era a noiva que, dez anos atrás, ele abandonara no altar, no dia de um casamento que ele não quis assumir.

Gregory Peck está perfeito no papel de Will, e Deborah Kerr melhor ainda como a mãe desesperada. A empregada é feita pela ótima Thelma Ritter e o desconhecido com quem ela conversa, no parque, é Dan Duryea. O detetive Larry é Dana Andrews e, claro, a mulher meio louca que mantinha a criança presa no porão só poderia ser Bette Davis.

Ainda hoje não esqueço a cena, quase final, em que Bette Davis (não lembro o nome dela no filme) é indagada sobre a destinação que pretendia dar à criança – já que não houve proposta alguma de resgate – e, em apavorante close com iluminação contra-plongée que dá a seu rosto um aspecto fantasmagórico, ela responde, ameaçadora: “I haven´t got the faintest idea” / ´Não tenho a menor idéia´.

No original, o filme se chamou “Absence”, creio que sugerindo, duplamente, a ausência da criança no lar, e a ausência do noivo no dia do casamento que não houve. Os distribuidores brasileiros pensaram no valor do seqüestro e, bem ou mal, o intitularam de “Sem preço”.

Uma produção da Warner, com direção do grande Robert Siodmak, pouco tempo antes de ele deixar Hollywood e ir embora para a Europa, “Sem preço” foi rodado ao longo do ano de 1952, simultaneamente a “O pirata sangrento” (“The crimson pirate”).

Embora elogiado pela crítica, “Sem preço” passou despercebido do público. Chegou a ter duas modestas indicações ao Oscar, no caso, a fotografia de James Won Howe, e a montagem de William Lyon, que perderam para, respectivamente, Robert Surtees (de “Assim estava escrito”) e Harry Gerstad (de “Matar ou morrer”).

Não sei por que “Sem preço” nunca foi selado em VHS ou DVD e, que eu saiba, tampouco foi exibido em canais televisivos, pagos ou não. Vi-o em minha juventude, em uma desprestigiada sessão de terça-feira do Cine Brasil, imagino que por volta de 1958, e só com grande esforço mnemônico (mais a ajuda de dicionários e guias de filmes americanos) aqui o reconstituo.

Não sei dizer se, revisto hoje, resistiria ao tempo, porém, pelo menos na minha memória, “Sem preço” perdura como um grande clássico noir da história do cinema, inexplicável e injustamente esquecido pelo acaso, ou pelo descaso.

Em tempo: da primeira à última letra, o texto lido é completamente ficcional.

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