Machado com teste de DNA

26 ago

Um dos maiores romances já escritos, “Dom Casmurro” é, como aceitam todos, a obra-prima de Machado de Assis. De forma que – nos cinemas ou nas locadoras de DVD – o anúncio de um filme que assume a ousadia de adaptá-lo para a tela só pode deixar o leitor/espectador curioso.

A primeira tentativa de adaptação fora de 1968 e está assinada por Paulo César Saraceni, com o título de “Capitu”, um “filme de época” do Cinema Novo (coisa rara!), do qual lembro pouco, salvo que não gostei muito.

Agora é a vez desse “Dom” do novato Moacyr Góes, que estreou em 2003, mas se encontra disponível em formato eletrônico para locação.

Para garantir o direito de infidelidade (!) ao romance, os autores dos créditos do filme tiveram o cuidado de usar o termo “inpirado” (ao invés de “adaptado”), e de fato, sua narrativa contém modificações fundamentais em relação ao texto literário.

Ao contrário do “Capitu” de Saraceni, o “Dom” de Góes transpõe para a atualidade a estória de Bentinho e sua companheira de olhos de ressaca, olhos que teriam feito um pouco mais do que olhar para o amigo de infância do marido, Escobar, fato supostamente indicado pela aparência física de outros olhos, os do filho, Ezequiel.

Diferentemente do romance, o filme conclui a estória com o filho ainda pequeno, brincando com o pai, e o amigo, embora off-screen, vivinho da silva. No romance, vocês lembram, Escobar morre afogado antes de envelhecer. Presa a esta, está a mudança na idade do protagonista/narrador: como lembra o leitor, o romance é narrado em forma de recordação, com o idoso Dom Casmurro sendo assim chamado justamente por estar idoso e amargurado. No filme, o termo “Dom”, apelido de um personagem jovem do início ao final, não tem, nem poderia ter, esta motivação etária e psicológica, e é só uma referência familiar e acidental ao fato de seu pai gostar de ler Machado.

Para marcar as diferenças talvez seja interessante confrontar dois momentos equivalentes, no romance e no filme.

Ao ser atacado pelo ciúme, Bentinho decide se suicidar e põe um tipo de barbitúrico no café, que afinal não toma. Sai de casa e vai visitar a mãe doente, que encontra melhor, e de lá vai ao teatro, mais aliviado da dúvida. Ora, para seu infortúnio, a peça em cartaz é o “Otelo” de Shakespeare, como se sabe, uma tragédia sobre ciúme e morte. Embora a Desdêmona shakespeariana seja sem dúvida inocente, o conteúdo da peça reacende os ciúmes de Bentinho, que raciocina desta forma em relação ao que seria a prova (na peça, uma prova falsa) da traição de Desdêmona, um lenço: “Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis”. O que advém dessa passagem fônica de “lenços” para “lençóis” é, naturalmente, a separação, Capitu sendo praticamente exilada para a longínqua Suíça.

No filme, o confronto entre o casal é feito ao meio de uma enxurrada de palavras e gestos melodramáticos, lembrando uma novela mexicana, e o ápice da discussão acontece com a sugestão, por parte da esposa, de (pasmem!) um teste de DNA. Ora, como se sabe, um dos aspectos mais fascinantes no romance de Machado é a impossibilidade mesma de se saber quem é o pai biológico do filho de Capitu, a sutileza do discurso literário investindo nessa ambigüidade. Pois no filme, o teste é feito e, convenientemente, a esposa morre num acidente de automóvel, somente para que o marido decida queimar o papel que contém o resultado do teste, para poder aceitar o que lhe resta de tudo, o filho pequeno. Como se percebe, uma tentativa inútil dos roteiristas de manter a ambigüidade do romance, tentativa esta que mais parece “emenda pior que soneto”.

Bem, já é tempo de dizer: longe da ironia, do charme intelectual e da profundidade filosófica de um romance que faz do benefício da dúvida uma questão metafísica, o filme é um completo desastre estético. Isto não propriamente porque traia o romance ao mudar elementos de seu universo diegético, mas porque é ruim em si mesmo. Mal realizado em todos os níveis, seria ruim, mesmo se não consistisse numa adaptação.

Pelo que se percebe, houve, por parte da produção, um considerável investimento nos belos olhos da atriz Maria Fernanda Cândido, e, no entanto, quando Marcos Palmeira lhe confidencia a mais famosa fala do livro, lhe dizendo que ela “tem olhos de ressaca”, a obviedade da cena, ao invés de convencer, soa ridícula.

Para ser justo, até que o filme começa prometendo. No início aquela moça (Daniela, feita por Luciana Braga) à procura obsessiva de um companheiro é engraçada, e o seu diálogo com o companheiro de trabalho, Miguel (Bruno Garcia) tem lances inteligentes que arrancam risadas das platéias. Também é legal o modo de iniciar o caso de amor dos protagonistas com pistas falsas, cada um dos dois envolvido com outras pessoas, sugerindo nisso, a diferença (uma vez indicada no diálogo dos dois personagens masculinos) entre este século e o século dezenove. Até aí o espectador supõe que a proposta do filme seja a de transformar a amarga ironia do livro em humor, uma saída talvez viável para enfrentar a aura do literário.

Na medida, porém, em que a estória se desenvolve, percebe-se que não é o caso: as falas e os personagens vão ficando “sérios”, melodramáticos, e pior, vão virando puro clichê. Por exemplo, as juras de amor entre Dom (Marcos Palmeira) e Ana (Maria Fernanda Cândido) são, no geral, intragáveis. Ao nascer a criança, o comportamento do amigo Miguel, agarrando o bebê contra si, o tempo inteiro, é óbvio, ridículo, chanchadesco. Enfim, quando se chega ao referido ápice do melodrama e a esposa sugere o teste de DNA, a solução para o espectador desapontado é passar a enfrentar o filme como uma “má comédia”, e rir mesmo, agora um riso maldoso com que, naturalmente, não contou o cineasta.

Pobre Machado.

Em tempo: publicada neste Suplemento em outubro de 2003, esta matéria foi reformatada para a ocasião.

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