The British Way

26 set

No folclore da cinefilia, um dos tópicos mais engraçados é o da tradução de títulos de filmes estrangeiros. Como os Estados Unidos são os grandes exportadores mundiais, normalmente a atenção dos cinéfilos recai sobre as traduções que os filmes americanos receberam em outros países, geralmente tão diferentes dos originais que mal podem ser chamadas de traduções.

As diferenças idiomáticas seriam a justificativa para uma fuga à tradução literal dos títulos originais, porém, o que dizer quando os dois países – o exportador e o importador de cinema – falam a mesma língua?

Pois é, os Estados Unidos e a Inglaterra são, ambos, anglófonos, porém, quem supõe que todos os filmes americanos distribuídos no Reino Unido carregam os títulos domésticos está enganado.

Aqui adianto uma relação de filmes americanos cujos títulos originais foram recusados pelos distribuidores britânicos, que os re-intitularam – digamos assim – “the British way”. Ao citar esses títulos, os americanos e os ingleses, traduzirei, se possível literalmente, sempre entre parênteses, e, somente para efeito de identificação, acrescentarei o nome que o filme recebeu em solo brasileiro.

Para um filme sobre um Papai Noel de carne e osso, “Miracle on 34th street” (Milagre na rua 34) seria um título perfeitamente compreensível na Inglaterra, e contudo, os distribuidores locais não pensaram assim e o mudaram para “The big heart” (O grande coração). No Brasil o título é: “De ilusão também se vive”.

 “Intermezzo” é um título musical e metafórico para o melodrama que relata, mas na Inglaterra ficou tudo mais direto “Escape to happiness” (Fuga para a felicidade). No Brasil, foi mantido o título americano.

O musical de Busby Berkeley com Carmem Miranda tem o título festivo como o próprio filme “The gang is all here” (A turma toda está aqui), mas os britânicos preferiram se referir às intrigas amorosas do protagonista e tascaram “The girls he left behind” (As moças que ele deixou para trás). No Brasil: “Entre a loura e a morena”.

Aquela comédia com Katherine Hepburn e Spencer Tracy sobre a instalação de um computador no setor de uma empresa se chama, com alguma ironia, “Desk set” (Conjunto de escritório), que os ingleses descartaram e, com mais ironia ainda, puseram no lugar “His other woman” (A outra mulher dele). No Brasil: “Amor eletrônico”.

O filme de Joshua Logan sobre o aprendizado amoroso de um matuto de Montana tem um título locativo, “Bus Stop” (Ponto de ônibus), que os ingleses, fazendo alusão ao caráter da protagonista, mudaram para “The wrong kind of girl” (O tipo errado de moça). No Brasil, fizemos algo parecido, apenas com uma pitada de desculpa: “Nunca fui santa”.

A comédia maluca de Hawks em que Cary Grant se veste de mulher indica isso no título “I was a male war bride” (Fui uma noiva macho na guerra), mas os ingleses optaram por privilegiar uma dada circunstância da estória e colocaram “You can´t sleep here” (Você não pode dormir aqui). No Brasil: “A noiva era ele”.

A estória do músico Gene Krupa foi, nos Estados Unidos, intitulada literalmente “The Gene Krupa story”; os ingleses escolheram um título mais metonímico e talvez mais sugestivo “Drum crazy” (tambor louco). No Brasil: “O rei do ritmo”.

O clássico do cinema independente americano sobre a vida nas docas, que no original se chama contundentemente “Edge of the city” (Gume da cidade), foi re-intitulado, na terra de Shakespeare, a partir de um certo trecho do diálogo entre John Cassavettes e Sidney Poitier e se chama “A man is ten feet high” (Um homem tem dez pés de altura). No Brasil, copiamos os ingleses, trocando apenas a medida: “Um homem tem três metros de altura”.

“Gaslight” (Luz de gás), o thriller de George Cukor com Ingrid Bergman passou a ser, entre os ingleses, uma vez que a estória ocorre em Londres, “The murder on Thornton Square” (O crime na praça Thornton). No Brasil, ficamos mais perto dos americanos: “À meia luz”.

E para finalizar, já que me falta espaço para mais, aquele estrondoso sucesso de bilheteria dos anos sessenta, com Troy Donahue e Susanne Pleshette namorando na romântica Itália ao som de “Al di lá”, chamou-se em casa “Roman adventure” (Aventura romana); ora, os ingleses viram no filme uma lição de moral e o re-intitularam filosoficamente de “Lovers must learn” (Os amantes devem aprender). No Brasil, todo mundo lembra: “Candelabro italiano”.

O fato de países que falam a mesma língua darem, aos mesmos filmes, títulos diferentes, indica claramente que a questão toda da re-intitulação no exterior não é propriamente lingüística, mas, cultural, antropológica, etnocêntrica mesmo.

Se não servir para nada, a constatação que esta matéria faz servirá talvez para entender um pouco melhor e, se for o caso, aceitar, por que, por exemplo, dos Estados Unidos para o Brasil – países que não são diferentes só na língua, mas em muito mais – um filme como (um caso entre muitas centenas!) “Some came running” (´alguns vieram correndo`) se transforme em “Deus sabe quanto amei”.

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