Inventação não tem fim

6 nov

– anotações sobre “O vôo da guará vermelha” –

 Impressionante como continua rendendo o velho esquema “rapaz conhece moça”, aquele de todas as estórias de amor, recitadas, escritas, encenadas e filmadas. Que o diga a escritora Maria Valéria Rezende no seu romance recente “O vôo da guará vermelha” (Objetiva, 2005), cujo esqueleto narrativo, se você quiser, coincide com o de “Love Story”, o filme que Umberto Eco ironizou com o seguinte resumo: “Ele a ama; ela o ama; ela morre: fazer o que com o resto da estória?”

Ora, Valéria Rezende sabe o que fazer com o começo, o meio e o fim de sua estória, e o faz muito bem. Mas vamos por etapas.

De fato, a trama principal de “O vôo da guará vermelha” não é extensiva, e poderia talvez ser resumida numa sinopse tão breve quanto a de Eco. Mas ora, o que mais interessa no livro é justamente o que não se submete a resumos.

Um operário analfabeto conhece uma prostituta enferma e esta, antes de morrer, lhe ensina a ler. Este “esquema narrativo” nem parece suficiente para compor um romance, e, no entanto, quando se lê “O vôo da guará vermelha” a impressão é a de que qualquer coisa, quase nada, é o bastante para encher o corpo de qualquer romance. É só ter o poder criativo de Valéria Rezende, que conta a sua estória como quem pinta um arco-íris, ou melhor, como quem monta um caleidoscópio, com combinações de duas cores para cada capítulo, exigindo do leitor o dom poético de transitar entre o abstrato cromático e o – digamos assim – figurativo.

Sim, salvo o gesto obsessivo de contar estórias, quase nada acontece entre Rosálio e Irene, e, contudo, o leitor não sente necessidade de ação. Até porque, quase toda mnemônica, a ação aparece na voz de Rosálio que, obsessivamente, conta à companheira as estórias que ouviu ou que vivenciou.

Depois da própria Valéria Rezende, Rosálio é o grande narrador em “O vôo da guará vermelha”, mas o que se constata é que ele não é a rigor um auto-narrador, e o alheio (João dos Ais, Suécio, o Bugre, o Gago, Maria Flora, João e Joana e tantos outros personagens fascinantes) lhe interessa do mesmo modo, pois, como já posto, o que, de dentro para fora, o move é o ato mesmo de narrar.

Entre outras coisas, são essas estórias, e o seu gesto de narrar-se, que vão unindo os dois protagonistas, porque, como a autora, ambos partilham essa pulsão de contar/ouvir narrativas que a vida, o mundo, ou os outros criaram, ou que eles mesmos criam para preencher a existência com o sentido que lhes falta.

De modo que, se o livro tiver um tema, este deve ser a pulsão de narrar, nele tão forte que ultrapassa os limites da verossimilhança. Vejam que Rosálio é um operário que, sem saber ler, carrega consigo, para todo lugar, uma caixa de livros, com a vaga esperança de que um dia aprenderá a desvendar os mistérios das letras. Do mesmo modo saudavelmente improvável, Irene é uma pobre e sofrida prostituta que conhece as lendas de Sherezade e tantas outras.

Com tantas estórias em trânsito, o livro possui, inevitavelmente, uma estrutura frouxa, móvel, aberta, como se se tratasse, não de um romance, mas de obra de gênero indefinido, talvez um estranho livro de contos; contos unidos – entre outras coisas menos evidentes – por esse elo diegético que é o mundo precário, frágil, efêmero, e ao mesmo tempo, forte e belo, de Rosálio e Irene.

Contos? Gênero indefinido? Romance? Não seria demais dizer que, inovador, ousado, pessoal, genuíno, o “Vôo da guará vermelha” se alimenta de deliciosos paradoxos. Se o leitor prestar bem atenção vai notar, por exemplo, que, assim como a sua unidade é parcial e as suas partes, unitárias, o seu realismo é fantasioso, e a sua fantasia, real; do mesmo modo, a sua simplicidade é complexa, e a sua complexidade, simples. Qualquer uma das estórias contadas por Rosálio evidencia estas verdades, porém, a melhor evidência talvez esteja na lírica caracterização da dupla protagonizante e na sutil mas perturbadora construção de sua estória de amor.

É fato que, no desenlace, como previsto por ela mesma, Irene morre, mas Valéria Rezende não se preocupa com “o que fazer com o resto da estória” (Vide Eco acima). Antes de partir para o “azul sem fim” – título do último capítulo, o único monocromático – essa “guará vermelha” havia legado a seu amado o dom maravilhoso de decodificar letras, e o havia deixado preparado para assumir um novo ofício, mais visceral e mais verdadeiro, esse de juntar o povo na praça e encantá-lo com estórias inventadas ou a inventar, pois, como mantém a frase que, sem concluir, fecha o livro: “inventação não tem fim”.

Contrariando os dicionários, a guará de Valéria Rezende é feminina, como tinha de ser para sustentar uma metáfora fundante no livro. É dessa tríplice metáfora titular que desabrocham os campos semânticos que perpassam o livro inteiro – o cinético em “vôo”, o ornitológico em “guará” e o cromático em “vermelha” – e que se entrecruzam em instâncias especiais para conceder ao conjunto do texto, se não a forma, a postura de um poema. Um poema a ser lido com sofreguidão, sobretudo se, como Valéria Rezende e seus personagens, o leitor também partilha dessa “fome de palavras” – conceito chave que, simetricamente, abre o livro.

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2 Respostas to “Inventação não tem fim”

  1. Maria Valéria rezende setembro 18, 2012 às 3:26 am #

    João querido, ultimamente tenho tido de resolver o que fazer com meus livros cujos contratos com as editoras já findaram… tentar renovar os contrato? tentar republicá-los, reformulá-los? ou deixá-los pra lá… valem a pena? Então, tenho relido minhas coisas, mas dessa vez tentando ser o mais crítica possível, à luz das críticas feitas pelos outros. E quero agradecer-lhe de novo, desta vez porque sua análise me fez ler melhor, com olhar mais agudo e abrangente, o que eu mesma escrevi. Obrigadíssima, amigo!

    • João Batista de Brito setembro 18, 2012 às 12:52 pm #

      Valéria amiga, fico feliz em poder contribuir, seja como for. Reli a minha resenha do seu livro, escrita há tempos, e (risos) gostei. Acho que ela deixa claro o valor de seu romance. Beijos de João.

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