O primeiro Oscar assim chamado

25 nov

Quando, em 1927, a Academia de Hollywood institui-se para premiar as melhores realizações do ano, o prêmio não tinha nome. E assim permaneceria por algum tempo. Pelo menos de 1928 a 1931 ele foi entregue inominado, apenas com a expressão genérica de “os melhores segundo a Academia”.

Foi por volta de 31 que uma secretária da Academia, recém-contratada, avistou pela primeira vez a estatueta e, incontida, soltou um comentário pessoal; “Parece com o meu tio Oscar”. Por acaso a imprensa estava por perto e no dia seguinte os jornais estamparam que o prêmio já tinha nome. A brincadeira pegou de tal modo que… Bem, o resto da história vocês conhecem. Dizem que depois a tal secretária negou a semelhança com o seu parente, mas aí já era tarde: o sonoro dissílabo se consagrara como o nome do prêmio cinematográfico mais importante do planeta.

Uma produção da MGM de 1932, Grande Hotel (de Edmond Goulding) teria sido, portanto, o primeiro filme a receber o prêmio de melhor do ano com o devido nome de Oscar.

Baseado em romance da escritora alemã Vicki Baum, o filme descreve o movimento em um hotel de luxo em Berlim, contando, separadamente, as estórias de vários hóspedes para, depois, uni-las em um núcleo só.

Há essa bailarina decadente que se atormenta na nostalgia dos velhos tempos quando, na sua Rússia de origem, dançava para a família real. Há esse barão falido que sobrevive de furtos cometidos dentro do próprio hotel, a hóspedes que são seduzidos pelo seu charme. Há esse empresário em apuros, cuja última negociata não deu certo e ele tenta fugir do problema com um pouco de diversão. Há essa estenógrafa que está sempre sendo assediada pelos homens em torno de si. Há esse senhor aposentado que gasta suas economias para ter direito a um luxo que foi sempre dos seus patrões.

“I want to be alone” (´Quero ficar sozinha`) é o que, ao som de Rachmaninoff, repete uma Greta Garbo blasé, no papel da bailarina russa, só que isto não será possível. De forma insólita, estes personagens se conhecerão, se envolverão, e o filme irá terminar de modo drástico, com um crime, uma prisão, um casamento arranjado, e uma desilusão amorosa, justamente a de Garbo que, por ironia, ficará, no pós-tela, sozinha, agora à revelia de si mesma.

O único personagem fora dessa “quadrilha” trágica é um hóspede habitual que, quase sempre embriagado, não percebe o que se passa diante do seu nariz, e comenta, no final do filme: “Grande Hotel, sempre o mesmo: gente chega e gente sai e nada acontece”. A fala é, na verdade, uma sacada de roteiro para sugerir que o Hotel descrito seria um micro-cosmo, uma espécie de representação do mundo, onde por vezes, as coisas acontecem sem que percebamos.

Do ponto de vista narrativo, “Grande Hotel” lembra o cinema atual de um Robert Altman, ou, colocando a questão de maneira mais apropriada, Altman é que deve ter se inspirado nele para criar o seu conhecido esquema de roteiros recorrentes onde o cenário é o mesmo do começo ao fim, o tempo é uno, e as várias estórias narradas confluem para um mesmo desenlace, somatório e sintético.

Visto hoje, Grande Hotel soa inevitavelmente datado e, se for o caso, desnecessariamente melodramático, com diálogos óbvios, cuja obviedade se explica, talvez, pela novidade no emprego do som, só incorporado ao cinema havia pouco tempo.

Uma impressão errônea é que pareça modesto, pois, na época foi uma superprodução, bancada pelo “príncipe de Hollywood” Irving Thalberg, que, por exemplo, escolheu os atores a dedo. Tanto é assim que o filme é considerado o primeiro, na história da sétima arte, a apelar para o lance mercadológico de um elenco multi-estelar onde Greta Garbo – ao contrário da vontade expressa na sua fala famosa já citada – não está sozinha: de sobrancelhas ainda não tão grossas, uma jovem e irreconhecível Joan Crawford desempenha a estenógrafa assediada; o galã John Barrymore é o barão falido; o veterano Lionel Barrymore é o velhote aposentado, e o excelente Wallace Beery é o empresário em apuros, atores tão badalados na época quanto Leonardo DiCaprio e Robert DeNiro o são hoje em dia.

Por essas ou por outras, com o Oscar chamado de Oscar ajudando ou não, Grande Hotel deu aos estúdios da MGM um lucro de oito milhões de dólares, na época uma soma astronômica, com o dividendo de haver entrado para a história do cinema como um clássico.

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