Antes de High Noon

27 nov

Na historiografia do gênero faroeste, “High Noon”, (“Matar ou morrer” Fred Zinnemann, 1952) é sempre dado como um marco. Além de perfeito na sua confecção cinemática, o filme de Zinnemann era o primeiro western a, de forma sistemática, introduzir psicologia ao meio do excesso de ação, típico do gênero. Não é que o faroeste, nascido ao tempo do cinema mudo, não tivesse psicologia. Apenas os seus elementos eram simplificados, na maior parte dos casos, se resumindo à dualidade entre os bons e os maus. “High Noon” implodiu esse maniqueísmo e o fez de modo radical.

Naturalmente “High Noon” teve precursores no emprego da psicologia ao faroeste, basta checar certos filmes chave de John Ford, como “No tempo das diligências” (1939) e “Paixão dos fortes” (1946).

Pois, incrivelmente próximo no tempo, na temática e mesmo na construção, um dos precursores mais curiosos de “High Noon” é esse modesto faroeste B que o cineasta André de Toth co-roteirizou e que Henry King dirigiu para a Columbia, dois anos antes, em 1950. Refiro-me ao obscuro e por muito tempo pouco prestigiado “O matador” (“The gunfighter”, 1952)

Ao invés de contar a estória de um Xerife, “O matador” conta o drama desse pistoleiro afamado, Jimmy Ringo, que, em 1880, chega à pequena Cayanne onde, com outro sobrenome e incógnitos, residem a mulher e o filho, que ele não vê há cerca de oito anos. O objetivo de Ringo é aposentar as armas e viver uma vida normal, ao lado da amada e do filho, em algum sítio afastado de tiroteios e violências, porém, a sua fama o persegue e, onde quer que ele vá, os que dele se aproximam, ou estimulam sua valentia com bajulações, ou a questionam com desacatos, geralmente fatais para os desafiadores.

Como “High Noon”, “O matador” trabalha com a unidade de espaço e tempo. Depois de chegado a Cayenne, Ringo permanece recluso à circunscrição de um hotel, e o resto da narrativa é cronologicamente marcado – também em um relógio – pelo prazo de ir embora que lhe dá o Xerife – o momento em que vir o filho. Vejam só: como o Will Kane de”High Noon”, Ringo é um homem pressionado a partir, e como o mesmo Kane, momentaneamente abandonado pela esposa. Aliás, com forma de quiasmo, a simetria entre os dois personagens é curiosa: Kane seria um cidadão de bem agindo como bandido (isto é, apelando para a violência), enquanto Ringo seria um bandido agindo – ou tentando agir – como cidadão de bem.

Outro elemento de afinidade entre os dois filmes está na construção do suspense, gradativa e crescente, até um ponto de ebulição. Na medida em que corre o tempo, vão surgindo, cumulativamente, os fatores desfavoráveis ao sonho de paz doméstica de Ringo. Para citar alguns poucos: (1) os três cavaleiros que vêm de Santa Fé, no seu encalço, para vingar a recente morte do irmão; (2) aquele senhor que perdeu um filho em duelo e pensa ter sido Ringo o autor do tiro; (3) esse rapaz de Cayenne que não vê a hora de mostrar que Ringo “não é assim tão durão”; (4) embora ex-colega de aventuras, o Xerife Mark, que não compreende os seus planos e não o quer na cidade; (4) a esposa, que não acredita na possibilidade de uma recuperação; (5) os habitantes de Cayenne, que se prostram na frente do hotel para espiar o mito Ringo, e, assim, inviabilizam a sua estada na cidade; (6) a Liga Feminina, que exige do Xerife uma medida efetiva contra a presença desse malfeitor em Cayenne.

Com tantos pontos em comum, uma pergunta inevitável para o espectador que compara os dois filmes é se Zinneman e sua equipe conheceram o filme de King, e se nele porventura se inspiraram. Se assim foi, não vejo problemas: os dois filmes são excelentes.

Na época de seu lançamento, por alguma razão estranha, “O matador” não chamou a atenção, e nem a indicação ao Oscar de roteiro original (William Bowers) despertou o interesse da crítica. Somente nas ultimas décadas, com o advento das cópias eletrônicas, o filme de King tem sido revisto e reavaliado como merece. Hoje, a crítica revisora atribui a “O matador” uma estrutura de tragédia grega e o faz com razão, o que, aliás, marca uma diferença básica com “High Noon”, que tem – para incômodo de alguns comentadores – um relativamente arranjado “happy end”.

Outros elementos destacados pela revisão são a fotografia e as interpretações. Daquela primeira diz, por exemplo, o crítico Robert Warshow: “o filme está feito em tons parados e frios de cinza, e todo objeto nele – rostos, roupas, mesas, o pesado bigode do herói – sugere aquelas opacas fotografias do Oeste do século dezenove”. Faço questão de citar a observação, não só pela pertinência, mas porque faz justiça ao genial profissional da iluminação que foi Arthur Miller, sem coincidência, já na época o detentor de três Oscar: por “Como era verde o meu vale” (1941), “A canção de Bernadete” (1943), “Ana e o rei” (1946).

Com relação às interpretações, todo o elenco está ótimo, do interesseiro dono do hotel (o grande Karl Malden) ao “pistoleiro vindouro” com cuja imagem o filme se fecha (Skip Homeier), mas, o destaque é mesmo para Gregory Peck – hoje a crítica concorda – em um de seus melhores desempenhos. Peck foi um dos atores preferidos de Henry King, com quem fez seis filmes no período de dez anos. Em “O matador” é possível sentir que a química entre diretor e ator principal foi perfeita e fluiu, se se puder dizer, como uma arma sacada por uma mão profissional.

Entre os reavaliadores de “O matador”, o crítico Tom Milne o dá como “soberbo, clássico, trágico” para concluir que está num patamar qualitativo acima de “High Noon”. Concordo com os adjetivos, mas não com a sua conclusão. No meu entender, é exagero, mas, vale a chamada para um faroeste por tanto tempo e tão injustamente subestimado.

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