Documentário é expressão

4 jul

Com a admiração de sempre, venho de ler o último livro do cineasta paraibano-brasilense Vladimir Carvalho “Pedras na lua e pelejas no planalto”.

Item da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial de São Paulo, o livro é a rigor uma autobiografia – uma deliciosa autobiografia, escrita com leveza, mas também com entrega emotiva. O autor do projeto, o crítico e jornalista Carlos Alberto Mattos, teve o bom senso de copidescar as vinte e oito horas de entrevista com Vladimir, mantendo a primeira pessoa verbal do seu discurso, este todo motivado por fotografias que o cineasta vai comentando e, desse comentário, puxando o fio de cada capítulo. Outra coisa mantida foi o cativante estilo Vladimir, como admite Mattos na introdução, o de um literato de mão cheia.

No todo, o que se tem é a trajetória de um cineasta, desde tenra idade, em sua Itabaiana de origem, até os últimos projetos ainda a realizar – um comovido e comovente relato existencial que ilustra as dificuldades de se fazer cinema no Brasil, especialmente um gênero comercialmente ingrato como o documentário.

Aliás, em que pese às emoções, o livro é um depoimento sem floreios ou ficcionalizações, como esperado de um documentarista par excellence, que na profissão e na vida, aprendeu a tirar o proveito certo e sensato de oportunidades e acasos sem, contudo, jamais fugir de si mesmo, de suas convicções mais firmes e anseios mais profundos.

No final, o perfil vislumbrado é claro e íntegro: Vladimir Carvalho é, antes de tudo, um forte militante em duas frentes, a ideológica e a cinematográfica, uma amarrada à outra de forma inseparável. Um homem que faz cinema para mudar o mundo e, se preciso, muda o mundo para fazer cinema.

Velhos ou novos, de guerra ou de paz, os conterrâneos de Vladimir é que têm (meu caso) um adicional de gozo nas páginas do livro, particularmente quando o autor declara a sua irredutível nordestinidade. Por exemplo, ao relatar o modo duro como se deu a sua adaptação à Nova Cap, só sendo possível na medida em que foi ele descobrindo o quanto Brasília era, ela também, nordestina. “Saí do Nordeste, mas o Nordeste nunca saiu de mim”, confessa com comoção.

Inevitavelmente, o livro nos oferece um retrato parcial do século vinte, já que, de dentro ou na periferia, em João Pessoa, Recife, Salvador, Rio ou Brasília, Vladimir sempre esteve de algum modo articulado aos grandes movimentos, culturais, artísticos e políticos que fizeram a história do país nos últimos sessenta anos.

A par disso, o livro também é uma lição de cinema, especialmente nas instâncias em que Vladimir explica os meandros do seu labor cinematográfico, e isto ele o faz, para o bem do leitor, de cada uma de suas realizações. Para o espectador que conhece os seus filmes, como descartar a emoção de ficar sabendo como foi que tudo começou, para Vladimir chegar a seu épico “Conterrâneos velhos de guerra”? Conta o autor que tinha ido cortar o cabelo numa barbearia da periferia de Brasília, quando entreouviu uma conversa sobre operários mortos nos alojamentos da Construtora Pacheco Fernandes, no domingo de carnaval de 59. Depois disso, nunca mais esqueceu o assunto e o corolário foi o filme.

Mas, sem sombra de dúvidas, a cena seminal do livro está no Quadro 8, capítulo chamado de “Enfim, um cinema possível” onde Vladimir nos conta o incidente fundante que o conduziu a tomar o rumo que tomou e a fazer o cinema que fez e vem fazendo. Cito:

“Foi como uma epifania. As imagens de “O homem de Aran” cintilavam na tela de um cinema de Recife e, em pouco mais de uma hora, eu passava a ver o cinema de maneira inteiramente nova. Aquela gente filmada por Robert Flaherty tinha o brilho inconfundível do real. A platéia que comparecia às sessões de filmes clássicos trazidos do Rio ficou siderada pelo que havia ali de narratividade e espetáculo. Mas o que me tocava, nos meus 22 ou 23 anos, era a diferença. O despojamento do filme provocava uma estranheza sedutora, um tipo de êxtase que eu não sabia identificar.”

Embora sejamos amigos há algum tempo, nunca conversamos a fundo, eu e Vladimir, sobre cinema. Acho que se o fizéssemos, iríamos desaguar numa foz de discordância essencial. A aversão que ele sente pelo grande cinema ficcional consagrado, bateria contra a minha paixão por esse mesmo cinema. Nós dois sabemos disso e nos respeitamos, com o respeito devido a toda e qualquer alteridade.

E, no entanto, vejam só, descubro em “Pedras na lua” que – contradizendo a dicotomia maniqueísta que separa ficção de documento – eu e Vladimir partilhamos da mesma concepção do que seja documentário. Num dos poucos capítulos teóricos do livro, chamado significativamente de “Aquém de Vertov”, Vladimir expõe suas idéias sobre o cinema documental e, aí, leio, como se fossem palavras minhas, o que pessoalmente sempre defendi, que a rigor o documental puro é impossível. “O documentário – garante o nosso querido Vladimir – é a transcendência, porque dotado de carga ideológica e emocional. É a decantação da realidade, não meramente sua cópia”. E conclui, entusiasmado, me fornecendo o título para esta matéria: “Documentário é expressão”.

Um pouco antes disso, Vladimir fizera uma confissão mais do que sintomática. “Se eu pudesse, filmava sozinho”, com isso deixando evidente a dimensão pessoal, subjetiva, individualizada, do cinema que está na sua cabeça – possivelmente tão pessoal quanto a de qualquer cineasta ficcionista…

Pois é, eu que até publicamente já defendi que documentário a rigor nunca existiu – ou seja, que todo filme documental é fundamentalmente autoral – saí do livro reconfortado com o endosso de uma concepção que eu tirara, não de compêndios de cinema, mas dos documentários que conheço, dentre os quais, os filmes de Vladimir Carvalho.

Grandes filmes, agora revistos neste grande livro.

 

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