De pai para filho

27 out

Que pais não têm/tiveram/terão problemas com filhos adolescentes? O escritor canadense David Gilmour não fugiu à regra: com um filho de dezessete anos que detestava a escola, viveu o drama geracional que atinge a todos. O que fugiu à regra, porém, foi a solução que encontrou para o problema: tirou o filho da escola e assumiu educá-lo em casa, através do cinema.

Sim, isso mesmo: através do cinema. Sem mais ter que assistir a aulas maçantes, o rapaz, Jesse, passou a ver dois a três filmes por semana na companhia do pai, que tecia comentários sobre diretores, atores, temática e linguagem, insuflando o debate com perguntas sobre a recepção.

Seria viável, do ponto de vista pedagógico, substituir a educação formal pelo cinema? Bem, se é ou não, o relato do caso Gilmour está num livro mais do que interessante, publicado no Brasil como “O clube do filme” (Editora Intrínseca, 2009).

Como o primeiro filme mostrado por David ao filho Jesse  (“Os incompreendidos”, 1959) é sobre educação, o leitor tem a impressão de que a lista a ser vista vai estar dentro desta temática de sala de aula, e se prepara para filmes como “Zero de comportamento”, “Sementes de violência”, “Ao mestre com carinho”, “Sociedade dos poetas mortos”, por aí. Que nada! Crítico de cinema e cinéfilo apaixonado, David Gilmour faz questão de não seguir esquemas e escolhe os filmes meio por acaso, ou de acordo com o estado de espírito do dia. De forma que entram no seu “clube” as realizações mais variadas, da obra prima mais prestigiada ao blockbuster mais comercial. “A doce vida” de Fellini e “Tubarão” de Spielberg são comentados com a mesma paixão.

O que interessa ao pai é que o filho consiga aprender alguma coisa, que tanto pode ser sobre a arte cinematográfica como sobre a vida, se possível, sobre as duas coisas juntas.

David sempre tenta não impor os seus pontos de vista sobre os filmes, formulando, depois das aparentemente neutras contextualizações, mais perguntas do que respostas, embora, claro, a própria escolha do repertório a ser visto já seja uma imposição.

Neutras ou não, as contextualizações dos filmes a serem mostrados são lições preciosas que, se não se sabe até onde úteis a Jesse, são utilíssimas ao leitor, ainda que uma ou outra colocação possa eventualmente parecer pouco sustentável, como, (dois exemplos): a subestima do excelente “Rastros de ódio” e a superestima do péssimo “Ishtar”.

Supostamente autobiográfico, o livro conta a evolução de Jesse de uma forma que parece a mais realista possível. Não há milagres acontecendo e o embate entre pai e filho é moroso e árduo, porém, lá pelo terceiro ano de contato com o cinema, quando o rapaz vê “Bonequinha de luxo” e comenta que “é sobre uma moça e um cara de programa, mas o filme parece não saber disso”, o leitor percebe que o clube fez efeito, e o efeito duplo de ensinar sobre o cinema e a vida.

Como é sabido, depois de a expansão das mídias eletrônicas haver criado o filme manuseável, há muito já se faz uso prático do cinema em empresas e instituições as mais diversas. A novidade aqui é a ousadia da proposta pedagógica, com a sua aposta implícita em que o cinema possa ser uma escola melhor do que a convencional.

Para literatos exigentes nem tanto, mas, para o cinéfilo, o livro é uma delícia que se devora de um só fôlego. No meu caso, porém, confesso que houve um adicional de melancolia. Lendo-o, lembrei-me de quando era garoto e pedia dinheiro a meu pai, e quando era obrigado a dizer para quê, quase sempre levava uma sofrida admoestação, pois “não fazia sentido gastar dinheiro com cinema”. E vejam que eu nem detestava a escola.

Sim, David Gilmour é o pai que todo cinéfilo gostaria de ter tido, mas, por ironia, este é um problema para o seu livro, se for para tomá-lo como lição de vida: é que nem todo pai poderia educar do seu modo, por uma razão muito simples: nem todo pai é crítico de cinema.

 

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