Indignação de cinéfilo

7 dez

Com o espectador comum pode ser diferente, mas todo cinéfilo tem um pouco de religioso. Cinéfilo, como sabemos, é aquela pessoa que ama o cinema um pouco mais do que o espectador comum. Corrijo: um pouco mais, não: muito mais do que o espectador comum. Para o espectador comum cinema é só uma diversão de fim de semana; para o cinéfilo o cinema é parte de sua vida, e sua adoração por certos filmes tem, sim, algo de religioso.

Eu pelo menos sou assim. Há filmes que cultuo como se fossem sagrados, e falar mal deles seria como uma forma de sacrilégio.

Dou exemplo: costumo ver filmes com grupos de amigos, para depois discutir, porém, nunca vi com ninguém, nem nunca verei, “A felicidade não se compra”, e isso por uma razão muito simples: não suportaria ouvir defeitos atribuídos a ele. Se ouvisse, acho que faria automaticamente a transferência, do criticado ao crítico, e essa pessoa passaria a ser para mim, dali em diante, uma pessoa defeituosa.

Não é que os filmes que amo sejam perfeitos. Não. Eu mesmo vislumbro neles, aqui e acolá, um ou outro probleminha, mas a convivência amorosa já fez com que eu me acostumasse e incorporasse esses probleminhas ao charme desses filmes maravilhosos.

Um dos meus cultuados é “Um corpo que cai” (Hitchcock, 1958), um filme que posso dizer que faz parte de minha vida, não apenas a intelectual, mas também a afetiva. Vi-o na estréia local e depois, eletronicamente, tantas vezes que perdi a conta. Está ele na lista canônica da crítica internacional, porém, se não estivesse seria a mesma coisa: é um filme que amo, na expressão feliz de um certo comentarista, um daqueles para se assistir de joelhos.

Pois outro dia tomei um choque do qual ainda não me recuperei, e, confesso, escrevi esta crônica por conta desse choque, talvez com a esperança de, por catarse, sanar o seu efeito deletério.

Estava eu lendo este interessante livro do crítico americano Donald Spoto, “Fascinado pela beleza” (São Paulo: Larousse, 2008), todo sobre a relação de Hitchcock com suas atrizes, quando me deparo com um trecho da entrevista que o autor fizera com a filha do mestre do suspense, Patrícia Hitchcock.

Hoje uma senhora idosa, Patrícia chegou a trabalhar com o pai e lembro bem dela como uma moça gorducha e de óculos em “Pacto sinistro” (1951). Filha única, ela fora criada nesse ambiente cinematográfico, já que também a mãe, Alma, era uma extraordinária profissional, roteirista de cuja opinião dependia as decisões de Hitchcock. Patrícia era, portanto, do ramo, e sempre imaginei que fosse uma admiradora fervorosa da obra do pai, guardiã fiel de suas melhores realizações.

Ora, quando indagada sobre “Um corpo que cai” no livro de Spoto, ela parou por um instante como se nem lembrasse que filme era aquele, e depois da pausa, soltou o maior disparate que já ouvi sobre cinema.

“Ah, é aquele filme doido que tem uma torre com um sino? Nunca entendi aquilo”.

Indignado, reli o trecho, achando que tinha lido mal, ou que não tinha entendido o que lera. Li às pressas os próximos parágrafos, pensando que encontraria uma correção, ou a afirmação de que se tratava de uma brincadeira de mau gosto. Nada disso. Era aquilo mesmo: a filha de Hitchcock achava que “Um corpo que cai” era um filme doido e sem sentido do qual só lembrava que tinha uma torre com um sino.

Bem, o incidente não me ensinou nada sobre “Um corpo que cai” e muito menos abalou meu culto ao filme, que, para mim, e não só para mim, continua irretocável. Pode ser que ensine a alguém de boa vontade alguma coisa sobre os mistérios da recepção cinematográfica, mas, neste particular, não estou interessado.

Claro, num mundo democrático todo cidadão/cidadã tem o direito de ter, manter e emitir, privada ou publicamente, a opinião que quiser, mas – me digam – não é triste constatar que a filha de dois gênios, Alfred e Alma Hitchcock, possa ser limitada ao ponto de beirar a debilidade mental?

 

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